Opinião

Uma luz sobre a crise de conexões entre quem somos e o que vestimos

06 de dezembro de 2018 - 13h08
Por Even More

Carmela Scarpi

2018 foi um ano bem específico no tocante às identidades culturais. Pensando em regressão, para contextualizarmos, saímos de uma avalanche de informações globalizadas que se arriscavam nos anos 2000, e atingem seu ápice em 2010; para um (re)despertar daquilo que é nosso propriamente. O movimento de resgate é sentido no comportamento humano em diversos momentos, seja na desaceleração de rotina, no escapismo das grandes cidades, às identidades de design, assinaturas de gastronomia e, por fim, a moda.

Sim, é no mundo do vestir que muitas das essências fundamentais do criar foram “perdidas” nos últimos anos. Estilos já meio pasteurizados pela ruptura de fronteiras da informação, hoje, fazem o caminho de volta para encontrar em endereços e histórias próprios um alívio criativo que demonstre pertencimento, regional e de valores contemporâneos de mundo. As referências sempre foram múltiplas, mas com a internet, ter à mão informações de todo canto, tornou o processo de criação exaustivo e, muito vezes, autorreferenciado.

No Brasil, o acesso facilitado à cultura norte-americana em especial (mas também à europeia em certa medida) supriu uma ânsia colonial que ainda temos com o que nos é vendido midiaticamente como superior. A consequência mais cara foi anos consumindo um estilo de vida que não nos trazia identidade alguma, apenas pelo frisson do novo – afinal, quando dizemos Moda estamos pressupondo o novo por si só, mas que tipo de novidade?

Estagnamos quando não mais nos reconhecíamos, porém ao olhar para dentro (mesmo que em decorrência de uma crise econômica e de câmbio) víamos que ainda havia vida pulsante criando linguagens estéticas típicas de cada região em um país conhecido pela sua riqueza cultural. E além da identidade em si, a consonância com valores de sustentabilidade e trabalho ético encontraram um novo momento de destaque para fazer surgir o olhar revigorado pela nossa moda, em especial neste ano.

Paralelo interessante é o que podemos fazer com o próprio jornalismo, visto nossa relevância e necessidade cada vez mais colocadas em xeque pela horizontalização da informação. Se já sentimos hoje algumas consequências negativas pela ruptura do gatekeeping é urgente reconhecer nosso valor para além de “detentores de informação”. O que nos faz únicos e indispensáveis é propor um resgate, assim como o que há na moda. Nos questionarmos sobre, afinal, o que nos diferencia? Qual a nossa história?

Tanto Moda, como Comunicação se perderam em relação à mensagem, por se aterem por muito tempo ao meio. Um dos ícones do segmento, a já falecida Diana Vreeland, dizia que se podiam ver as revoluções chegando pelo que as pessoas vestiam. Hoje, mais do que nunca, essas mudanças são sentidas também na forma como comunicamos aquilo que queremos vestir. Essas duas esferas sociais nunca estiveram tão próximas, o jornalismo de moda nunca teve um terreno tão fértil onde plantar suas mudanças.

E essa mudança se fará quando percebermos aquilo que as pessoas mais anseiam após uma enxurrada de mesmices: identidade, pertencimento e experiência. Três palavras que representam pilares em uma revolução de estilos, de consumir, de vestir e de comunicar.

Falar sobre pessoas é dizer muito mais sobre a Moda e as tendências do que apontar produtos. O resultado final, a coleção, o desfile são apenas uma consequência que ao longo dos últimos anos acabou tomando o lugar de causa. Mas é uma falácia. A Moda, como um sistema muito intrincado e desafiador para quem apenas percorre os olhos por vitrines exige que se dê valor às pessoas, ou ela se esvazia. E o “ter” acima do “ser” não serve à moda, afinal “ter” está relacionado ao pertencimento, ao fazer parte e, em última instância, a “ser” efetivamente. Quando mudamos as pessoas, passamos também pelas renovações de tendências (claro, que não ignoramos as engrenagens comerciais das trocas de coleções, mas tendência é um amplo assunto que talvez caiba em algum outro momento).

É fundamental, para nós, continuar por aqui conversas construtivas sobre, por exemplo, nosso papel no registro da identidade de uma moda feita em Curitiba – uma cidade reconhecida como berçário do design, em especial na área de arquitetura, que influencia e muito a estética feita aqui.

Vemos que embora com nichos, estratégias e especialidades diferentes, tantas marcas que passam pela nossa curadoria convergem em conexões. Cada uma encontra seu público e clientela específicos por meio de relações humanas, feitas de modo tradicional ou facilitadas pela internet. O pertencimento é unânime, a identidade é o diferencial e a experiência deixaremos por conta de quem se abrir a conhecer algo além da obviedade de um shopping.

Enquanto tivermos um movimento de evolução, interesse em criarmos para melhor, em nos reconhecermos na fala ou na veste, teremos campo para o que se propõe aqui. No dia em que nos reduzirmos apenas às consequências; sejam views, followers ou coleções sem voz, aí sim poderemos dizer que acabou. Por enquanto temos apenas uma crise de conexão, mas também temos luz.

Comentários

 
|