Opinião

Uma leitura crítica do Fashion for You em Curitiba

26 de março de 2018 - 16h33
Por Even More

O último dia do evento de tendências do Park Shopping Barigui foi marcado por falas que mostraram como a moda pode tanto reforçar o discurso dominante quanto servir como instrumento de mudança.

por Monique Portela

Se hoje os novos discursos sobre o mundo reforçam temas como feminismo, ecologia e democracia, a moda, filha de seu tempo, acompanha. A explosão das blogueiras como forma de democratização do consumo de moda, com seus diferentes rostos, estilos e corpos; a maior preocupação com a cadeia produtiva e a transparência destas informações nas confecções; a reivindicação da estética como afirmação de identidade e empoderamento, são apenas alguns exemplos das narrativas que tecem as novas tendências — discursivas e práticas — do mundo da moda.

Por isso é preocupante a fala de Carlos Carrasco, maquiador que desponta como um dos grandes profissionais do país, que passou por Curitiba na última quinta-feira (22). Carrasco abriu a programação do último dia do Fashion For You, evento gratuito sobre tendências, com uma série de discursos ultrapassados, limitantes e androcêntricos sobre mulheres e maquiagem. “Homem nenhum gosta de mulher muito maquiada, né. Homem detesta beijar mulher com batom. Mas elas insistem. Porque na verdade mulher se maquia para a melhor amiga, né?”, disse em tom de piada.

Carlos Carrasco

Ninguém riu. O uso do espaço e poder de fala de Carrasco para legitimar a estética como um adorno fútil que completa o objeto mulher, cujos desejos, claro, só podem estar relacionados ao deleite para o olhar masculino, além de ser chato e desconfortável, é um desserviço para a moda e para a luta feminista — em uma plateia majoritariamente feminina, fomos desprovidas, inclusive, da nossa posição de sujeito. Mas o papo continuou, e o julgamento de nossos corpos e desejos também. Em uma série de imposições, ouvimos que maquiagem preta nos deixa vulgar, que é incompreensível como conseguimos nos achar bonitas com as sobrancelhas marcadas, que certas coisas “ela pode, você não”. Mas apesar de tudo, o que está na moda, alega Carrasco, “é a mulher de verdade” — o que evidencia que nós, como sociedade, temos sérios problemas em representar e entender o que é “ser mulher”, em toda a sua diversidade.

O fim da moda como regra

A resposta à Carrasco veio pela figura de Dudu Bertholini, famoso estilista e consultor de moda cuja atitude e apresentação mostraram que a moda pode tanto reforçar o discurso dominante sobre os corpos, quanto servir como um poderoso instrumento de mudança social. Com seus cabelos longos, unhas pintadas, maquiagem leve e vestido azul turquesa esvoaçante, Dudu tomou a palavra final do evento, logo após um breve bate-papo sobre o trabalho da designer de joias Maria Dolores, e sentenciou: “O século XXI é o século do fim dos padrões. Hoje em dia, qualquer moda que diga que você não é bonito do jeito que você é, essa é uma moda do passado”.

Dudu Bertholini

Em apenas 15 minutos, Dudu defendeu a moda sem gênero, o High Low (mistura de peças nobres com usuais), sem deixar de lado as tendências das passarelas: sobreposições, estampa militar, brilho, look total jeans, neorromantismo e o fim da moda como regra. “A moda hoje em dia não está mais aqui para ditar o que você tem que usar, mas sim para te ajudar a aprimorar o seu estilo pessoal e fazer com que você seja a melhor versão de você mesma”.

O evento terminou com um desfile das lojas do Shopping editado por Dudu — uma explosão de combinações inusitadas, tons pastéis, padronagens invernais, florais, em uma deliciosa mistura que nos lembra que é hora de valorizar as diferenças em detrimento de um padrão homogêneo que universaliza o que é ser bonito, o que é estar na moda e o que é ser mulher.

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