Um novo foco: as mudanças na percepção e produção de editoriais de moda


“Semana que vem vai fazer dois meses que eu estou dentro de casa. […] Eu confesso que demorei um pouco para cair na realidade”, contou Amandha Gaio (@amandhagaio) sobre a atual situação de lockdown em Nova York por conta da pandemia do novo Coronavírus. Amandha trabalha como freelancer de produção de moda há quatro anos e sua profissão foi uma das mais afetadas, por grande parte ser feita presencialmente e com produtos que chegam de todo o mundo. Com bagagem na área, atuação em revistas internacionais e jobs com artistas como Pabllo Vittar e Duda Beat, Amandha dividiu com o Even More algumas dicas e bastidores desse segmento editorial. 

Confira abaixo algumas partes da conversa.

Para quem tem vontade de trabalhar com produção de moda em Nova York

Eu comecei como assistente de stylist e quando eu vi, eu estava fazendo trabalhos para outras pessoas, então resolvi trabalhar sozinha. Tem vezes que eu chego a fazer quatro revistas ao mesmo tempo.” 

Os clientes de Amandha, normalmente, são revistas da América Latina e Europa, tudo depende do stylist com quem irá trabalhar. “Eles [stylists] me passam um briefing do que vai ser o tema e aí eu faço as pesquisas de marcas e também pesquiso qual o estilo do stylist, se ele é mais minimalista ou mais exagerado”, contou. “Eu preciso de pelo menos 10 dias para conversar com as marcas por e-mail, negociar e receber as peças”.

“A dica que eu sempre dou é: tente entrar como assistente, pois você está entrando em um mercado novo onde você não conhece ninguém. Contato é tudo!“, disse Amandha, aconselhando quem tiver vontade de trabalhar com produção de moda internacionalmente. 

Trabalho como assistente de styling de Amandha Gaio para a revista GQ Brasil, estrelando a cantora Iza. (Reprodução/GQ Brasil)

Como a pandemia afetou os profissionais de editorial de moda

O isolamento social vem afetando grande parte das profissões da indústria, principalmente as que trabalham com editorial. “O que estou vendo é que o pessoal está começando a fazer os shootings à distância.”, comentou Amandha. “Em recente conversas com uma stylist eu também descobri que a Vogue Itália, por exemplo, está mandando peças que já estão em Milão para o fotográfo e o fotógrafo brinca com as peças em casa. É um experimento.”

Com o isolamento social, as pessoas envolvidas em um set também serão reduzidas. Amandha também lembrou da recente edição da Marie Claire México, que estrelou uma médica na capa e contou com a participação apenas de um fotógrafo e da editora chefe da revista, bem diferente do que acontece normalmente. “O que me preocupa nesse momento é que a produção de moda já caí do set, pois eu posso receber as peças de casa”.

Quanto ao futuro do editorial, conta que as produções já estavam complicadas quando o Coronavírus estava se iniciando na Itália, afinal é de lá que vêm grande parte das peças das grandes marcas. “No final de fevereiro eu estava produzindo uma revista e a gente teve que mudar muitas vezes a data, pois o Corona estava com pico na Itália e a maioria das coleções vêm da Europa. Então tivemos que mudar três vezes a data do editorial, até que teve uma hora que tivemos que cancelar”, lembra. “Até a gente ter uma vacina eu acho impossível voltar a ter um dia de set com modelo e todo mundo junto”.

A conexão entre marcas locais e as revistas de moda

“É um movimento que já estava acontecendo. Nas últimas produções tiveram pedidos das revistas para encontrar marcas locais.”, disse Amandha, quando questionada se a dificuldade de envio de peças das marcas globais, pode estimular o uso de marcas locais nos editoriais de grandes veículos.

“Eu sempre tento incluir alguma marca local nas produções e agora eu espero que os grandes stylists comecem a olhar com mais carinho o negócio local”, comenta. “Em Nova York existe muita marca pequena que é conhecida aqui, mas não é conhecida fora do país e a gente usou muito nas últimas produções”. 

A nova estética da fotografia de moda 

“Eu estava esses dias vendo uma entrevista com o Leandro Karnal, que é um historiador e filósofo, e ele estava explicando sobre como esses momentos de guerra e crises mundiais tendem a acelerar certas tendências que talvez demorariam um tempo maior para acontecer”. 

Amandha fala sobre a possibilidade de mudanças no olhar sobre a estética na fotografia, “E no mercado de editorial, isso vai dar uma super acelerada em algo que já estávamos vendo acontecer, que são as revistas undergrounds, mais relax e com uma estética mais casual”. Acontece que a frequência de editoriais à distância, que estão feitos por dispositivos móveis, podem mudar a percepção da sociedade em relação às fotografias de moda, que normalmente são feitos com câmeras e estúdios profissionais. 

Isso pode ser uma oportunidade para os mais pequenos: “para designers gráficos que tem habilidade para brincar um pouco mais com filtros. E talvez isso dê uma liberdade criativa maior, sem aquele peso de competir com uma Vogue Itália que vai estar fazendo a mesma coisa.” 

No Brasil, a marca C&A recentemente fez um ensaio fotográfico em parceria com o Portal Garotas Estúpidas por videoconferência. O styling, maquiagem e a fotografia foram feitos à distância e disponibilizados nas redes sociais.

Em parceria com o Portal Garotas Estúpidas, a C&A fez um editorial totalmente à distância. (Reprodução/C&A)

Nesta semana a Gucci também liberou sua própria campanha em que modelos receberam peças da marca e casa e se fotografaram para compor a história da ação. 

“Eu sinto que o editorial de moda sempre trouxe algo mais lúdico e bonito, e eu sinto que esse não é o momento de se fazer um editorial lindo, mas sim de fazer algo criativo”, completou Amandha.

As mudanças necessárias nas revistas de moda

No últimos minutos de conversa com o Even, Amandha comentou sobre a necessidade de mudança que as revistas devem ter na parte comercial. Muitas vezes, os stylists e produtores precisam seguir uma lista de marcas que devem ser usadas nos editoriais, e isso atrapalha a parte criativa. “Já tiveram vezes que eu tinha 15 listas de marcas que deveriam ser usadas”, contou. “Eu entendo que as revistas precisam dos anunciantes, mas eu acho que precisa ser repensado em como os stylists, o fotográfo e as marcas possam conversar entre si, para que o comercial da marca na revista não seja o mesmo comercial que ele usa em um outdoor. Estamos falando de arte e muitas vezes os stylists não conseguem criar por um motivo de lucro”. 

“As pessoas [consumidores] não vão mais aceitar qualquer coisa, já não estavam aceitando antes”

Outro fator que vira tópico são as impressões das revistas de moda que, em sua maioria, são mensais. “Não faz muito sentido a impressão agora, as bancas estão fechadas e as pessoas não estão querendo receber nada em casa agora”, comentou, enfatizando o período de pandemia. “Às vezes você vai fazer uma revista impressa e na hora que for impresso o assunto já é ultrapassado”. 

Recentemente a revista Elle Brasil, que havia sido descontinuada em 2018, anunciou a sua volta como uma revista digital e a primeira edição deve sair ainda neste mês de Maio. A publicação terá apenas quatro edições impressas durante o ano, atendendo à demanda de novas configurações dos editoriais de moda.

“As pessoas [consumidores] não vão mais aceitar qualquer coisa, já não estavam aceitando antes”, comentou.

 

imagem da capa: reprodução/Patrick Tosani

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