Notícias

Tuttan Casting, conheça a primeira agência majoritariamente negra de Curitiba

08 de agosto de 2019 - 10h53
Por Even More

Luciana Tavares e Rodrigo Nick embarcaram no desafio de empreender com o propósito de alterar a história do mercado atual. Confira nossa entrevista.

No Brasil, segundo dados do IBGE de 2016, 54% da população brasileira se considera negra ou parda. Em contrapartida, um olhar mesmo que desatento sobre a diversidade na moda ou mesmo na publicidade não nos revela algo próximo às estatísticas. Após oito anos de mercado como modelo profissional, Luciana Tavares, junto com seu marido e músico Rodrigo Nick, fundam a Tuttan Casting: primeira agência de modelos majoritariamente negros em Curitiba. (Em fase de levantamento de fundos, o link para contribuir é este aqui).

Leia também: A magia da imagem negra na moda

A agência é vertente do projeto Tuttan, que no último ano se concretizou como exposição fotográfica. Os registros da família de Luciana e Rodrigo foram capturados pelos fotógrafos da AUTA, Renata Wajdovicz e Bruno Santos. O nome TUTTAN é uma abreviação, do nome Tutancâmon, antigo rei egípcio, filho de Akhenaton. Eles são responsáveis pelos primeiros registros de afeto familiar encontrados.

Tuttan – registro AUTA Fotografia

Dos registros fotográficos à criação da agência, diversas questões foram se acumulando para que, além da vivência diária, algumas expetises fossem lapidadas para que ambos pudessem, hoje, colocar no mundo um projeto que combate uma realidade amarga de invisibilização e estigma. Conversamos com Luciana para falar um pouco de trajetória e percepções sobre mercado, além de entender o fator transformador com que a Tuttan Casting surge:

Even More: Você tem oito anos de carreira como modelo, dentro de agências pelas quais você já passou, quantas pessoas negras havia nos castings?

Luciana Tavares: Das agências que passei fazia parte do 0,1%. Pelas minhas pesquisas e contato com modelos negros de outros Estados, essa realidade se repete em nível nacional – isso incluindo profissionais que atuam dentro das agências, como por exemplo bookers, recrutadores, diretores de elenco, etc.

EM: E quando surgiu o insight de criar uma agência com casting majoritariamente negro?

L: Foi uma junção de fatores. Teve uma época em que trabalhei como agenciadora de elenco e pude vivenciar experiências pelo ponto de vista da agência, um lado não tão glamuroso, e essa experiência me tornou menos ingênua. Dei continuidade na minha carreira praticamente sozinha com contatos que fiz, mas sempre me incomodou o fato de me falarem o quanto meu perfil era único e especial e, ao mesmo tempo, ouvir que não sabiam onde exatamente me encaixar, ou até que eu tinha muito cabelo e chamava muita atenção, ou que meu quadril era muito grande. Em contrapartida, sempre me via sendo a única negra na maioria dos castings ou jobs, sem ter uma agência que me representasse e impulsionasse de uma forma digna. Eu entendia que minha presença, na maioria desses espaços, partia da obrigação da inclusão, e não por espontânea vontade e interesse; além disso, reconheço que apesar de retinta, meus traços menos negroides muitas das vezes colaboraram para a maioria das oportunidades que recebi. Após tantas experiências pessoais, relatos de amigos, e preocupação social me coloquei entre duas escolhas: desistir de tudo, ou tentar fazer diferente. Fundamos Tuttan Casting como uma vertente de ação. O objetivo é aplicar autoestima, raiz, valor, poder, afeto, contato, diálogo, profundidade, perspectiva e oportunidade. Um casting negro em Curitiba com certeza nasce da necessidade e vai além de pensar apenas em mercado, mas tentar fazer o que ninguém fez por nós e tantos outros.

Rodrigo Nick – foto reprodução

EM: A abertura do mercado de moda (e publicidade também) para a diversidade segue uma tendência mundial, que na realidade é uma mudança de paradigma permanente. Como você acredita que será a visibilidade da Tuttan nesse contexto?

L: Tuttan é uma perspectiva de consciência da nova era, entendemos que a moda preta transcende o tempo. Faz muitos anos que se apropriam de nossa cultura sem nos dar os devidos méritos. Assim como um abuso da nossa mão-de-obra para construção de praticamente tudo o que existe nesse mundo. É bizarro reivindicar visibilidade e valor numa sociedade em que somos a maioria. Mas acreditamos que precisamos enxergar além das tendências. Não se deve ver o negro, e ninguém, como apenas uma figura representativa, sem existir um real sentimento com esses corpos. A inclusão precisa ser sincera para ser permanente, e pretendemos despertar até mesmo pessoas negras para ascenderem. Com um número maior de profissionais negros conscientes contratantes, acreditamos que seremos vistos, representados e valorizados.

EM: Quais iniciativas ou pessoas da área hoje te inspiram dentro desse movimento intenso de quebra de uma cultura embranquecida da moda?

L: Nos inspiram pessoas que vão além de uma realização pessoal, de desejos egoístas. Todos que existiram antes de nós e, de alguma forma, lutaram e deram suas vidas para que hoje tivéssemos a liberdade de exigir dignidade e respeito. Não pretendemos segregar, mas sim unir forças de uma maneira que reconheçam nossos esforços e cedam espaços entendendo a perspectiva de reparação histórica. A história da moda é contada sem os recortes para realidade negra, muito menos periférica. Iniciativas que reconhecem seus privilégios e acreditam na necessidade de transformação, já nos inspiram bastante a continuar. Pessoas negras que alcançam sucesso e fama, e não se corrompem à síndrome do preto único e amnésia de suas origens e cultura, cedendo seu tempo para ajudar outros negros, também têm nosso reconhecimento, admiração e respeito. A moda tem o poder de contar histórias e marcar épocas, isso nos importa também! Representatividade com oportunidade salva vidas, e vidas negras importam.

Luciana Tavares – campanha Reptilia – ph: Anderson Angélico

EM: A figura do modelo é a ponta de uma cadeia de produção muitas vezes integralmente branca. Você acredita que a falta de estrutura de apoio que preze pela diversidade pode prejudicar a imagem final de campanhas também?

L: Absolutamente. A falta de poderes, de opiniões e escolhas partindo de uma perspectiva negra influencia totalmente no resultado final de uma campanha, coleção ou desfile. Apenas incluir um corpo negro para representar todas as formas e personalidades de um ser negro, não justifica esse racismo estrutural. Precisam existir pessoas que questionem, que não tenham medo de se impor e apontem o que acontece de errado na formação ou na valorização de um trabalho. Nas campanhas publicitárias é a mesma questão, a população negra brasileira consome por ano mais de 1,5 trilhões de reais em produtos, porque não nos vemos com frequência sendo protagonistas nas telas e revistas? Quando sim, dificilmente nos colocam para representar marcas luxuosas, na maioria das vezes para produtos mais baratos. Ou até mesmo nas famosas novelas brasileira, enquanto padrão branco é sinônimo de sucesso, inteligência, beleza e elegância, entre vários outros aspectos positivos, o negro é mostrado relacionado a pobreza e malandragem, ou seja, inadequado para representar de forma positiva qualquer produto. Definitivamente estamos com uma luta bem grande pela frente. E alterar alguns fatores, mudaria completamente a história do Brasil.

EM: Visando a abertura de oportunidade, a Tuttan Casting não cobrará valor de agenciamento ou material fotográfico. Vocês terão equipe de apoio para produzir material para os agenciados?

L: A maior barreira para o negro entrar neste mercado com certeza é o valor que agências e fotógrafos pedem, para agenciamento e material fotográfico. Uma base de pesquisa varia entre R$ 800,00 a R$ 4,500. Sendo assim, aproveitarei minha formação em fotografia para produzir material, junto de alguns amigos parceiros em fazer parte dessa construção. Nossos modelos também receberão cursos e workshops para formação e capacitação, junto do SIMM – Sindicato de modelos e manequins do Paraná – também gratuito. Para viabilizar a estrutura fizemos um cadastro em site de financiamento coletivo e todos que tiverem interesse podem contribuir por esse link (http://vaka.me/657552) para que o projeto aconteça.

EM: Quais as expectativas de vocês para com a Tuttan dentro do mercado de agências de modelo?

L: Esperamos que não nos vejam como ameaça ou nos tratem como concorrência. Estamos apenas suprindo uma demanda necessária. Torcemos para que em breve não seja necessário recorrermos a esse tipo de projeção. Pretendemos ter o maior e mais diversos casting de corpos negros. Que possamos compartilhar das mesmas conquistas e espaços.

Hoje, o projeto está em fase de cadastramento de perfis, levantamento de fundos e produção de material fotográfico, para entrar em contato basta enviar um email para contato.tuttan@gmail.com ou acompanhar pelo Instagram @tu.tuttan.

Comentários

 
|