Terceira Trama Afetiva levanta discussões sobre o protagonismo social na moda do futuro


Em entrevista ao Even More, o diretor Jackson Araújo fala sobre provocar a mudança agindo no coletivo e a moda como micropolítica.

Entre os dias 20 e 23 de agosto, no Centro Cultural São Paulo, o festival TRAMA AFETIVA batia seu recorde de audiência. Na terceira edição, o evento com direção criativa e de conteúdo assinadas por Jackson Araújo e Luca Predabon, somava mais de 600 pessoas envolvidas na extensa programação – como oficinas, masterclass, painéis, exposições, filme e shows.

Promovido pela Fundação Hermann Hering, uma média de 20 atividades eram abertas e gratuitas para o público em geral. Um festival multicultural que propõe discutir a moda como movimento de micropolítica e ações afirmativas de transformação do panorama brasileiro, na edição 2019, contou com nomes como Emicida e Fióti, Sergio Bispo, Flávia Durante, Vicente Perrotta e tantos outros.

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Sob o tema “Um novo passo rumo à Economia Circular”, uma imersão criativa com proposta de upcycling desafiou 13 profissionais, selecionados entre várias regiões brasileiras, a trabalharem de forma colaborativa com o feltro. A matéria-prima feita a partir da desfibração de peças que retornam às lojas da Cia. Hering, foi submetida a um novo processo de tecelagem industrial com a tecnologia da empresa paulista Feltros Santa Fé.

Com tema “Um novo passo rumo à Economia Circular”, 13 criativos trabalharam com feltro partir da desfibração de peças que retornam às lojas da Cia. Hering, submetidas a um novo processo de tecelagem industrial com a tecnologia da empresa paulista Feltros Santa Fé (reprodução / fotos @aterrofilmes)

Com tantos pontos de ativação para incentivar a educação teórica e prática sobre a possibilidade de ações coletivas por meio da moda, o festival TRAMA AFETIVA ganha cada dia mais destaque com propostas desafiadora no cenário atual. E para entendermos mais sobre o processo de elaboração de cada objetivo, e os caminhos pelos quais podemos caminhar, conversamos com Jackson Araujo.

Even More: São três edições propondo um repensar a estrutura da moda numa perspectiva colaborativa. Qual foi o ponto de virada em sua carreira que fomentou a criação do projeto?

Jackson Araújo: O primeiro incomodo surgiu ainda quando eu atuava como crítico de moda, na primeira fila dos desfiles. Enquanto o que víamos nas passarelas internacionais, por mais conceitual e maluca que fosse a ideia materializada em roupa, efetivamente chegava às lojas, aqui no Brasil tudo era muito esquizofrênico com as marcas mostrando excelentes ideias em produtos que nunca chegariam a ser comercializadas. Depois disso, a mudança na lógica de produção da comunicação sendo impactada fortemente pelos novos formatos da Internet, o surgimento dos blogs e do conteúdo gerado livremente pelos usuários me apontava que eu precisava sair do dia-a-dia da moda para estudá-la sob a lógica dos novos comportamentos de consumo e produção. Foi nesse intervalo que descobri o fortalecimento do coletivo, do ganho do grupo para a geração de produtos e relações de produção de impacto real no contexto socioambiental. Estava em Santa Catarina, atuando como consultor criativo do Santa Catarina Moda e Cultura quando conheci o trabalho do surfista Jairo Lumertz, da ONG Eco Garopaba, que educava crianças sobre o meio-ambiente, transformando o resíduo de garrafas pets em pranchas, ensinando-as a surfar e por consequência a serem novas agentes dessa realidade de cuidado com os outros. Isso, para mim, foi um insight sobre impacto. Daí cunhei o termo Economia Afetiva sobre essa nova perspectiva de mercado que atua na valorização da interdependência, da diversidade e dos sentimentos para a construção de uma relação sólida pautada na ideia de se fazer com os outros e para os outros, tirando de cena o velho jargão que a moda autocrática e excludente tanto ama: o faça-você-mesmo. Sozinho e para sua própria satisfação é o sentimento mais anacrônico que pode ainda existir.

EM: Economia afetiva, você acredita que essa revolução caminhe para transformar efetivamente o mercado de moda, que é fruto de um sistema capitalista? De que forma você vê isso acontecendo hoje no Brasil?

JA: Acreditamos que nossos esforços são todos para questionar essa lógica do sistema que exclui, escraviza e só visa o ganho pessoal. Sabemos que somos apenas uma ação estruturante que busca afetar a sociedade civil organizada a agir por mudanças que assumam a moda como uma micropolítica de transformação, entendendo micropolítica dentro dos seguintes aspectos: redescobrimento dos pequenos coletivos, das tribos, das associações, do menor; retorno ao diverso do que já foi nossa sociedade; melhor alternativa para a constituição de um conjunto de multiplicidades singulares; possibilidade de articular a diferença sem intermediação; admissão de que o verdadeiro político é o sujeito que cuida de si e por isso pode cuidar dos outros.

No Brasil de hoje, e isso pudemos observar nas masterclasses e painéis que organizamos na Trama Afetiva, já há várias ações que aplicam a Economia Afetiva em formato de negócios bem-sucedidos. A Catarina Mina, de Celina Hissa; o Instituto Proeza, de Katia Ferreira; a Lab Fantasma, de Emicida e Fióti; o PopPlus, de Flavia Durante são excelentes exemplos de como provocar a mudança agindo no coletivo. Cada qual a seu modo, está promovendo uma transformação social. Colocar mulheres e homens no centro dos processos criativos, de produção e tomada de decisão é fundamental.

EM: E quanto ainda precisamos caminhar?

JA: Muito. Como disse antes, todas essas ações são estruturantes para uma verdadeira mudança. A indústria que queremos ainda não existe e para seguirmos rumo a ela, essa construção micropolítica precisa ser praticada diariamente. A base de tudo, no entanto, é a educação. Quem quer atuar ativamente nessa mudança tem que entender que todas as suas ações têm cunho educativo, especialmente nesse momento em que o sucateamento da educação está sendo posto em prática oficialmente.

EM: Das discussões que permearam a terceira edição do evento, quais você acredita serem mais urgentes nas pautas da moda nacional tendo em vista o cenário em que nos encontramos?

JA: A educação para o novo varejo. Ou seja, promover encontros, seminários, workshops, reportagens, posts, vídeos, seja qual mídia for, para mostrar como produzir sem gerar resíduos, questionar as grandes indústrias sobre o seu impacto pós-consumo e sobre como tornar seu ciclo produtivo mais circular e regenerativo. Precisamos passo-a-passo seguir educando o consumidor sobre métodos de produção justa, limpa, transparente e com equidade. Fazer o consumidor entender que uma camiseta pode sim fazer a diferença no planeta.

EM: Moda resistência. Os discursos de caráter político da moda parecem ter rompido uma barreira da mídia de massa e hoje tomam uma voz de proporções maiores, ao que você acredita que se deva isso?

JA: Desde o desabamento do edifício Rana Plaza, em 2013, quando morreram mais de mil pessoas sob condições indignas de trabalho, caiu uma cortina e o espetáculo da velha moda se mostrou hediondo. Esse triste fato fez com que pudéssemos olhar de modo mais transparente para as relações de produção que os velhos formatos estavam explorando e acendeu uma luz vermelha tomada de consciência sobre como o consumo desenfreado é uma arma de destruição do planeta. Acho que esse foi o principal corte epistemológico para um entendimento sobre uma possível evolução da moda como plataforma de ativismo socioambiental.

Jackson Araujo (reprodução/ foto @aterrofilmes)

EM: Para criar e sustentar uma marca coerente e promissora no mercado atual é preciso atender a múltiplas novas demandas do próprio consumidor (que tendem a pressionar cada vez mais no futuro) como transparência, sustentabilidade, fair trade; para muito além da própria demanda da gestão em si. Diante disso, como você enxerga um futuro do mercado brasileiro e a sobrevivência de marcas nesse contexto?

JA: Ainda estamos num estágio inicial dessa relação justa de produção. Por isso a importância de valorizarmos as novas marcas e pequenos negócios que atuam sob essas premissas, não só na moda, como na alimentação.

EM: O resíduo é um dos protagonistas das discussões sobre moda atual e o ucycling é um dos métodos pelos quais a indústria e criativos buscam absorver e repensar o que até então era lixo. Você acredita que o consumidor tenha atingido uma maturidade para consumidor produtos derivados de upcycling hoje no Brasil?

JA: O consumidor está aberto aos novos formatos. Precisamos nos organizar em termos de comunicação e monetização. Mostrar que preço é diferente de valor e que as novas lógicas têm uma meta mais importante do que o enriquecimento individual. O novo capital é o social. Também precisamos estar atentos e abertos a entender que há pessoas que somente há alguns anos tiverem o acesso a comprar roupas com uma linguagem de moda por conta da evolução do fast-fashion e que seria muito arrogante querer impor uma mudança drástica de comportamento de consumo. Por isso, atitudes como as nossas de buscar disseminar cada vez mais conteúdos claros e objetivos são determinantes na criação de uma rede transformadora de fato.

EM: Quais os planos futuros do Trama Afetiva como evento a partir das discussões geradas nessa última semana?

JA: O próximo passo é o lançamento de nossa segunda publicação, que é nossa devolutiva impressa para a Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, que viabiliza a realização do projeto por meio do PROAC_ICMS, a modalidade do programa de fomento paulista que funciona por meio de patrocínios incentivados e renúncia fiscal. Dando continuidade ao que publicamos em 2018, “Economia Afetiva: Aprendizado Para o Futuro”, que relata todos os aprendizados conquistados e compartilhados durante o processo colaborativo, nossa ideia agora é lançar “Economia Afetiva: A Revolução das Pessoas”, que vai compilar textos escritos por cada participante da Oficina Trama Afetiva, designers-tutores, painelistas e palestrantes, fortalecendo a nossa ideia principal de que a moda não é mais sobre roupas, mas sobre pessoas. Em 2020 voltaremos dando prosseguimento a esse formato de minifestival multicultural fortalecido pela diversidade, inclusão, novas economias e afeto.

 

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