Semanas de Moda Brasileiras e os novos movimentos da moda


Semanas de moda brasileiras falam sobre adequação de pilares para seguir a demanda exigente do novo consumidor por iniciativas além do marketing

A redução de impacto ambiental, cada vez mais, deixa de ser uma opção na Indústria da Moda, e isso já atinge praticamente toda a cadeia. Grandes marcas internacionais e nacionais vem mudando a forma como produzem e como aproveitam resíduos. O resultado disso são novos jeitos de fazer roupa que surgem e ganham espaço nas passarelas – algo inimaginável até algum tempo atrás.

No entanto, essa problemática de conscientização não deve recair apenas sobre as marcas e designers. As semanas de moda trazem, todo ano, editores, buyers, celebridades e curiosos para cidades como Nova Iorque, Londres, Milão, Paris e São Paulo. Algumas, internacionais, já se posicionaram sobre como pretendem se adequar, mas e no Brasil? De que forma as Fashion Weeks abraçam a tendência mundial? Conseguimos respostas de duas das principais Semana de Moda do país, Minas Trend e Casa de Criadores, e do portal de tendências mundiais WGSN para descobrir.

Leia também: O novo desafio das semanas de moda não está nas vendas, mas no impacto ambiental

Sustentável, a palavra para vender

Sustentabilidade é um termo frequentemente usado nos últimos anos, principalmente para marcas que buscam atrair os consumidores jovens. “Contudo, é preciso ter cuidado ao promover práticas comerciais responsáveis, pois atualmente qualquer oportunismo é rapidamente identificado e denunciado.”, nos conta Daniela Penteado, expert da WGSN Brasil.

Talvez seja a hora de pararmos de usar a palavra sustentável. A próxima edição do Minas Trend tem como o tema, por exemplo, “Tecendo Futuros” justamente para falar dos novos caminhos da Indústria da Moda. Conversamos com o atual diretor-criativo do evento por telefone, Rogério Lima, a respeito do viés sustentável que o salão de negócios possui. Para ele, a palavra em si é carregada de subjetividade e deve ser trocada pela palavra responsabilidade. “Não precisamos de sustentabilidade, estamos precisando de responsabilidade. Não temos na moda hoje algo sustentável e será através de ações com responsabilidade que poderemos um dia chegar lá. Virou um vício falar a palavra sustentabilidade, mas ninguém pensa nela de forma efetiva.”

A próxima edição do Minas Trend, Tecendo Futuros, acontece entre os dias 22 e 25 de Outubro no Expominas, em Belo Horizonte. (Reprodução/Minas Trend)

André Hildago, um dos fundadores da Casa de Criadores, mantém o mesmo pensamento. “ […] há muito tempo reforçamos que sustentabilidade será uma obrigação de todos. Há um desgaste muito grande nessa palavra, mas o conceito veio pra ficar. Quem não enxergar isso certamente vai ficar pra trás.” Ele também nos conta que a questão sustentável sempre foi orgânica para o evento, já que maior parte dos estilistas e marcas tem tido essa preocupação há bastante tempo: “É claro que hoje em dia isso virou pauta de toda marca de moda que queira ter relevância. […] temos uma comunicação muito grande com os estilistas e eles estão cada vez mais alinhados com essa demanda.”

Redução de impactos

Em matéria recente, a Vogue Americana abordou os impactos das Semanas de Moda na cadeia consciente da Indústria e conversou com Keith Baptista, sócio-fundador da empresa Prodject – que já produziu desfiles para marcas como Chanel, Prada, Khaite, Savage x Fenty, Tom Ford, entre outras. A empresa já está tomando algumas iniciativas ecologicamente conscientes em seus desfiles como por exemplo, desperdiçar o menos possível de tudo o que sobra dos cenários, alugar o maior número de material, reciclar, utilizar geradores ecológicos e utilizar luzes LED que consomem menos energia. A empresa ainda destacou que marcas como Chanel, Gucci e H&M estão interessadas em saber quais as fontes de tudo o que é utilizado nos desfiles e o que acontece com esses materiais após o evento.

Aqui no Brasil, André Hidalgo nos conta que a Casa de Criadores já possui algumas iniciativas onde o não desperdício e a reutilização de materiais usados nas cenografias dos desfiles são as orientações que todos que participam do evento recebem: “Existe responsabilidade social, tanto em projetos que criamos quanto no exercício prático no dia-a-dia do próprio evento. Orientamos nosso fornecedores a não promoverem desperdício, reutilizamos a maior parte dos materiais usados na cenografia do evento, especialmente os tecidos etc.”

Para Rogério Lima do Minas Trend a relação com fornecedores, prazos curtos para a montagem e desmontagem e o preço que um evento custa são alguns dos empecilhos para reduzir os impactos da feira. O Minas Trend tem como objetivo ser eficaz tanto para as marcas, como para os compradores que estarão presentes. No entanto, já existe uma preocupação no lixo que o evento gera: “A construção da feira em si já possui algumas ações responsáveis, em relação à segurança e o lixo que o evento gera. O evento nunca vai ser sustentável do jeito que precisa, pois temos diversidades externas como fornecedores e prazos para implantar um evento, tornar ele sustentável não depende só da gente. O que estamos fazendo agora em conjunto com a FIEMG é entregar um evento mais eficiente com menos dinheiro.”

Marcas X Semanas de Moda

Se por um lado temos as marcas e designers e do outro temos ao Semanas de Moda tendo iniciativas para redução de impactos ambientais, a junção entre esses dois polos daria mais forças para conscientizar cada vez mais marcas e também o público consumidor. De acordo com o WGSN, a sustentabilidade pode sim ser feita a partir de parcerias: “Existem diversas maneiras de trabalhar com sustentabilidade: fazer uma cadeia produtiva transparente, iniciativas em torno da slow fashion e parcerias. O foco deve ser diminuir as emissões e preservar os recursos naturais, mas sem prejudicar o estilo.”, diz Daniela Penteado.

A Casa de Criadores vai para a sua 46′ edição em 2020. Só na edição desse ano marcas sustentáveis como a Alma, Re-roupa, Brechó Replay, Vicente Perrota (VP upcyling), P.O.TE e Estileras participaram do evento. Isso mostra mais visibilidade para marcas que realizam upcycling. Segundo André Hidalgo marcas assim já fazem parte do evento desde o inicio: “Diversas outras marcas em outras edições já faziam upcycling, só não tinha esse nome. Esse conceito já aparecia em desfiles como os da SUMEMO em 2011, Tony Jr. em 2010 ou Tudicofusi em 2009. A  Casa de Criadores tem sido uma plataforma de consolidação de diversas tendências sociais”. Além de dar visibilidade para marcas com iniciativas sustentáveis e pensar na redução de impacto do evento, a Casa de Criadores realiza palestras, workshops, conversas com estilistas e outras ações de conscientização: Só não utilizamos o nome sustentabilidade”  como uma identidade do evento, não achamos necessário.”, nos conta André Hidalgo.

A marca de Upcycling, ReRoupa, participou pela primeira vez esse ano da Casa de Criadores. Foto (Marcelo Soubhia/Casa de Criadores)

O Minas Trend, apesar de não ser um evento direcionado ao público final, também possui ações como workshops e geração de conteúdo com o intuito de conscientização: “Nós estamos pensando em como podemos com responsabilidade, ter mais eficiência no salão de negócios, eficiência de informação e de conteúdo, de geração de mídia, de prováveis lançamentos de produtos e palestras. […] Queremos despertar a responsabilidade dentro de cada um, para que lá na frente possamos falar que estamos atingindo a sustentabilidade.”

* O Portal Even More entrou em contato com o São Paulo Fashion Week através da Assessoria de Imprensa, porém não conseguimos respostas sobre como o evento está se adequando aos temos sustentáveis da moda.

 

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