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Sem cores ou sobreposições, a verdadeira tendência da moda é seguir o comportamento social

30 de abril de 2019 - 15h54
Por Even More

Sustentabilidade, gênero, padrões de beleza; as pequenas revoluções diárias do sistema de moda já atingem as grandes maisons e agora é para ficar.

Carmela Scarpi

O mês é março, ano de 2019 e local, Paris. O roteiro das semanas de moda chegava ao final não sem antes chamarem a atenção, novamente, dos fashionistas. E por mais que a homenagem à Karl Lagerfeld fosse à época o foco da mídia – com o aguardado primeiro desfile da Chanel sem o designer – foi Stella McCartney quem deixou os mais antenados em tendências e comportamento de moda com o queixo caído.

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Já conhecida pelas suas iniciativas e ativismos em relação à sustentabilidade, a designer britânica apresentou na Ópera Garnier uma coleção outono-inverno 2020 confeccionada com tecidos de origem certificada e em parte com a técnica upcycling – em que produtos originais de baixo valor agregado são retrabalhados de forma a aumentar o valor no resultado final. Alguns vestidos, por exemplo, foram produzidos com uma malha feita a partir de camisetas vintage que seriam descartadas em aterros, num processo semelhante ao tricô.

O show, que reforçou a campanha para salvar o ecossistema de Leuser na Indonésia – que hoje sofre com o desmatamento boa parte para a indústria têxtil; ainda trouxe o questionamento sobre o descarte na moda, assunto que movimenta os bastidores entre os mais conceituados pesquisadores de tendência. Uma verdadeira aula sobre novos rumos da moda.

divulgação (Stella McCartney)

Mas, apesar de sempre figurar na vanguarda sobre discussões éticas e sustentáveis, Stella já não fala mais sozinha. Mesmo diante de acontecimentos recentes no Brasil, em que uma morte em plena semana de moda nos dá uma perspectiva muito mais profunda sobre as mudanças urgente em relação à valorização da vida humana na cadeia, hoje, queremos destacar a crescente construção de diálogos inclusivos que movimentam o sistema e levantam questionamentos pertinentes para uma transformação perene, por atingirem justamente empresas mais complexas que resistem, pela estrutura, à adesão de alternativas.

A mudança não é nova, mas é necessária

“Acho que a moda ficou por décadas congeladas em conceitos atrasados e antiéticos em prol da exclusividade”, afirma Camila Yahn, editora de conteúdo do portal de moda FFW. Isso porque, se questões de cunho mais sociais, como sustentabilidade, ética e gênero são temas recorrentes em um mundo de moda mais cotidiano, a mudança custa a chegar aos níveis mais altos.

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Com estruturas mais intrincadas, marcas internacionais demoram a aderir a alguns movimentos que precisam ser revistos sem atravancar o desenvolvimento da marca. Contudo, as mudanças mais urgentes hoje requerem uma também urgência de reformulações: “é necessário coragem, tempo e investimento para inserir novos comportamentos, quebrar hábitos de anos e anos, rever todo o trabalho de uma vida. É de fato extremamente trabalhoso”, pondera Camila.

Com cunho visionário, a grife McCartney era até ontem, praticamente uma ilha em seus discursos por trás da estética. Em voga desde 2012, só em 2018 vimos uma sequência de eventos relevantes, no cenário internacional, sobre adesão a métodos cruelty-free. Um exemplo foi a primeira edição, em setembro passado, da semana de moda de Londres sem uso de pele animal em todas as coleções. A decisão anunciada à época pelo British Fashion Council, organização responsável pelo evento, foi fruto da grande pressão do público londrino e das manifestações que cercaram os desfiles de 2017, com episódios, inclusive de invasão.

Protesto de fevereiro de 2017 em frente ao desfile da Burberry durante o LFW (foto: Neil P. Mockford/GC Images)

“[O Conselho] reflete uma mudança cultural baseada em ideais e escolhas feitas por empresas de design, marcas internacionais, bem como o sentimento do consumidor, incentivados pela postura de lojas multimarcas que estão se afastando da venda de peles”, disse a organização em comunicado oficial. Semana antes, a Burberry já havia anunciado que não mais produziria peças com pele animal, o que se seguiu como uma cascata para diversas outras marcas tomarem o mesmo posicionamento, como Gucci, Versace, Vivienne Westwood, a própria Chanel (antes da morte de Lagerfeld) e, mais recentemente, Victoria Beckham.

“Têm muitas marcas ao redor do mundo que se aproveitam de temas em voga. Mas quem está fazendo um trabalho sério, que realmente se propõe a encarar os desafios que vêm junto com a transformação, certamente está lidando com esses assuntos em caráter permanente”, prevê Camila Yahn.

A popularidade como oportunidade de alcance

Enquanto para alguns as mudanças representam um desafio de reposicionamento, para outras marcas significa resgate ou até mesmo uma alternativa para conseguir dialogar com um público mais bem-informado. O recente lançamento da linha ÀLG, de Fábio Souza e Alexandre Herchcovitch é um exemplo. Seguindo os princípios da marca original Á LA GARÇONNE, a segunda linha apresentada em fevereiro, também usa técnicas de upcycling a partir de tecidos de estoque. Aproveitando o hype sobre algo que já era produzido pela dupla, o novo segmento agora quer expandir em grade e democratizar o acesso às peças – com preços mais acessíveis – a outros espectros de consumidores.

Desfile ALG | Coleção 01 – 2019 | foto: Zé Takahashi

“A sustentabilidade já é uma necessidade mais global, uma preocupação crescente em todas as fatias da população. Algumas mais, outras menos, porém já vem se tornando parte do espírito do nosso tempo. Costumo dizer que o pensamento sustentável numa marca não pode ser apenas um departamento ou projeto especial: deve ser modus operandi”, comenta Heloisa Strobel designer da neomarca Reptilia, que no ano passado recebeu o prêmio ODS (objetivos do desenvolvimento sustentável) como pequena empresa que atende a Agenda 30 da ONU, e está escalada para a próxima edição da Casa de Criadores.

Pautada em toda a cadeia nos pilares sustentáveis e éticos, a marca autoral acredita que esses novos processos já nascem com iniciativas mais novas. Contudo, com a mudança crescente no cenário internacional, será viável começar a projetar soluções coerentes também para grandes indústrias, que operam em diferentes escalas. “Hoje prefiro acreditar que os grandes também podem ser bons. Eles vão ter que ser, pois o mercado pede um novo comportamento, muito mais consciente e bem-informado”, comenta Heloísa.

Nem só da sustentabilidade vive a revolução da moda

Se a vibração do cenário fashion aponta para os processos das marcas, é preciso ressaltar também a crescente demanda sobre a estética. Mesmo que pautas mais urgentes sigam à dianteira nas mudanças, algumas outras questões sociais já mostram sua força para reestruturações futuras.

É inegável que discussões como gênero e mesmo padrões de beleza têm despertado movimentos interessantes sobre as marcas também. Alavancadas pela onda feminista dos últimos anos, muitas delas se readaptaram para oferecer aos consumidores produtos coerentes com a demanda social. “Vale destacar o segmento plus size, que é inacreditável como ele ainda não era uma potência no mercado, se levar em conta que uma grande parte da população não se encaixa nos tamanhos produzidos pelas marcas, que normalmente vão até o 44”, comenta Camila.

Hoje, já é possível observar a crescente representatividade de corpos até mesmo em formatos tradicionais de apresentação como desfiles. Um exemplo são as coleções do jovem Christian Siriano, que promove em seus espetáculos na NYFW questionamentos sobre o padrão-passarela das suas modelos, que incluem nomes de renome como Ashley Graham. Já aqui no Brasil, em termos de varejo, o mercado para empresas que trabalham com segmentos acima do manequim 46 faturou R$ 7,1 bilhões em 2017, de acordo com a Associação Brasileira Plus Size.

Um novo público, novos valores

Um pouco mais ideológica que comercial, a modelagem agênera também ganhou visibilidade nos últimos anos. Buscando alcançar esse mercado mais fluído, marcas de renome como Lacoste estão apostando em uma abordagem estética neutra, trazendo o sem gênero para uma discussão bem menos política, com foco em seu consumidor. A coleção primavera-verão 2019 é um grande exemplo. O “sportcore” incorporado nas criações privilegia a funcionalidade e resgata elementos do tênis, mesclando com a tendência street que teve adesão com um público mais jovem e que vai além do unissex.

divulgação Lacoste

Mas nem só de definições sutis se pauta a moda agênera, como por exemplo a escolha do produtor Billy Porter para o tapete vermelho do Oscar 2019. O artista decidiu incorporar elementos significativos de gênero – como o paletó e a saia de vestido – em um mesmo visual. Dentro de abordagens mais extravagantes, vemos despontar também a Gucci, que cria em seu próprio universo uma espécie de androgenia em apresentações, na busca principalmente de um mercado mais jovem que deu visibilidade e reconstituiu a relevância da marca que vinha hibernado há algum tempo.

“A geração nova é mais livre de rótulos ou de ser isso ou aquilo. Meninas e meninos não precisam usar roupas femininas e masculinas para continuarem sendo meninas e meninos. Em termos de negócios, especialmente para marcas pequenas, fazer uma coleção sem gênero específico pode eventualmente facilitar e otimizar a produção, já que as mesmas peças ou as mesmas ideias podem vestir pessoas de gêneros e corpos diversos”, explica Camila Yahn.

Inegável que a sutileza de abordagem é escolha feita conforme o público-alvo. “Dependem muito do perfil de cada público, de cada segmento de mercado. A moda sem gênero ainda figura como uma novidade, um plus na experiência de compra, sendo mais apelativa ao público jovem. Mas nem por isso menos importante, é apenas o fato de ser mais embrionária”, analisa Heloísa Strobel.

Reptilia (foto: Natasha Atab)

Mas assim como a sustentabilidade, gênero e o segmento plus têm potencial de crescimento muito dinâmico. Numa sociedade que intercambia informações junto com estética, negar a fluidez social como pressão nos negócios pode ser uma alternativa desastrosa. Os exemplos são muito para aqueles que estão antenados de verdade. E, na realidade, o fato é que acompanhar um ritmo ditado por algoritmos pode ser um desafio para grandes ou pequenos negócios, mas as mudanças estão aí para quem quiser ver e essa tendência não é apenas de uma temporada.

 

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