Rocio Canvas e Reptilia mostraram na Casa de Criadores que talento, coesão e competência para negócios podem existir em Curitiba


Uma veterana e outra estreante, as marcas da cidade apresentaram coleções marcadas pela identidade aliadas ao bom uso de estratégias de negócio.

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Há dez dia a 45ª Casa de Criadores encerrava mais uma edição. Iniciativa em formato de semana de moda, o projeto revela, acolhe e desperta talentos nacionais das mais variadas vertentes. Desta vez, tivémos um gosto especial para nós.

Nesta temporada, além da veterana Rocio Canvas, foi estreia da Reptilia no line-up oficial do evento. Ambas as marcas, frutos da criatividade e resiliência em um mercado no mínimo desafiador como Curitiba, levaram mais que novas propostas e coleções para a passarela. Elas mostraram também como é possível criar uma moda consistente em um cenário tão efêmero e carente como o dessa cidade.

Não há só um caminho para chegar lá

“A Casa de tem um perfil fantástico de marcas criativas e que tem algo a dizer. Participar significa assinar embaixo, porque é muito difícil quando uma marca começa a crescer, manter a sua essência”, comenta Heloísa Strobel da Reptilia. Com seis anos de mercado, a designer havia recusado um primeiro convite para participar da semana de moda em 2015 por acreditar não ser o momento ideal.

Heloísa Strobel (@_reptilia) – ph. Amanda Lavorato

Com o processo de consolidação da marca  – que soma durantes os anos a inauguração de uma loja própria, reconhecimento da imprensa nacional, desfiles na África do Sul e São Paulo, além de um prêmio com chancela da ONU -; Heloísa encontrou a segurança para se lançar em mais um passo. “Eu tomei a liberdade de entrar em contato com o André [Hidalgo, organizador do evento] novamente, contar sobre a minha experiência e ele me disse justamente isso: que é muito complicado selecionar quem entra para a Casa de Criadores, porque ele recebe projetos extremamente criativos, mas sabe que aquelas marcas não vão durar mais do que 3 ou 4 coleções. Então eu acredito que entramos na hora certa”, revela.

Já Diego Malicheski, coleciona edições na passarela do evento. “A gente entrou através de um concurso, a adrenalina foi muito interessante. Passaram muito rápido esses 2 anos e meio e isso é muito importante, porque a cada vez a marca é reconhecida. Nosso objetivo nunca foi bombar, mas ter um crescimento orgânico. E chegar à a 5ª edição da Casa é uma resposta disso”, conta. Para ele, poder representar a moda brasileira em um cenário tão complicado é essencial. “É muito legal colocar as coisas em perspectiva do 1º backsatge para este. Além de que, um desfile o investimento é alto, não é só fazer a roupas, a gente tem uma série de responsabilidades. E a cada ano nós vamos nos profissionalizando mais”.

Diego Malicheski (@rociocanvas) – ph. Izadora Padilha

Referência com essência

Nesta edição, a Rocio Canvas olhou para fora. Com inspirações sempre mais afetivas, desta vez foi a Riviera Francesa que conduziu a narrativa da coleção. Sempre focado em criar uma essência arsty, Diego trouxe peças leves, coloridas (o que por si é uma novidade dentro de cartelas prioritariamente mais sóbrias), fluidas e fresh – com a novidade da inserção de looks masculinos na apresentação.

Na passarela da Reptilia a artista mineira surrealista Maria Martins foi quem dialogou com a essência sólida da marca. “Ela foi uma mulher muita a frente de seu tempo, que estabeleceu relações com artistas do mundo todo, abrindo espaço para as brasileiras no cenário mundial”, conta Heloísa. “Ela falava sobre aspectos do país que naquela época estavam escondidos, como nossos mitos e lendas, religiões dos povos originários. E hoje parece que nós vamos ter que falar de volta, porque parece que está sendo esquecido novamente”.

A reflexão sobre o olhar da artista inspirou um bloco de peças pretas que representam um momento sombrio de esquecimento, o encapsulamento de acessórios para a preservação do que é essencialmente nosso. Ainda na construção do styling, as peças assimétricas condizem com o surrealismo, sem nunca deixar de lado a identidade easy chic característica da marca – o que por si só é uma vitória em tanto para a evolução de uma narrativa sólida.

Um mercado desafiador, uma história da moda autoral

Em comum, ambas tiveram (e ainda têm) o desafio de se desenvolverem em terrenos inóspitos. Em uma cidade desafiadora para novos talentos que se propõem além de um estilo específico adotado pelos consumidores daqui, Reptilia e Rocio Canvas ganham ainda mais expressão ao ultrapassar divisas de Estado.

Some a isso a dificuldade inerente em empreender no segmento. Decisões rápidas, investimentos altos e persistência são características recorrentes que transcendem qualquer dificuldade em criar coleções e coloca-las na passarela, mas são os pilares reais da existência e crescimento de ambas as marcas.

“Você tem que saber como, quanto, e onde vender seu produto. Além disso, ser criativo na sua proposta, ter identidade e se relacionar com seu público alvo. Tudo isso não precisa estar definido ou acontecendo no começo da marca, mas acredito que solidifica o porquê da marca existir”, explica Diego. “As marcas devem sim buscar o investimento fazendo seu próprio planejamento, mas a gente também carece de iniciativas que possam profissionalizar essas marcas e até criar mercado consumidor e trabalho”, revela Heloísa.

Frente ao que é construir dia após dia um negócio concreto, Curitiba pode respirar e sentir orgulho das conquistas de dois profissionais que representam o que de melhor a cidade pode oferecer. E não é apenas talento criativo.

 

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