RESÍDUOS DE CONFECÇÃO ASSUMEM PROTAGONISMO NO DESIGN BRASILEIRO


Projeto Estufa - Korshi 01 - SPFW N48 Inverno 2020 Foto: Zé Takahashi/ FOTOSITE

Com a nova geração de consumidores mais conscientes, marcas procuram formas de transformar também a indústria.

Consumidores buscam marcas que possuem o mesmo olhar sobre o mundo. Segundo a pesquisa de tendências de consumo 2019-2020 do Sebrae 80% da Geração Z deixaria de comprar um produto de uma empresa envolvida com escândalos sociais e 70% afirmam que buscam comprar de empresas que consideram éticas. Ainda na pesquisa, a crise econômica teve grande influência nesse novo comportamento, somada aos sinais do esgotamento das fontes da natureza e os impactos negativos no meio ambiente.

Na moda, isso se traduz em consumidores que compram menos e que reutilizam ao invés de substituírem, consumidores que valorizam mais o design e a forma como os produtos são feitos e consumidores que se importam com o que acontece com os resíduos que aquele produto gerou. 

Conversamos com três marcas que, em coleções recentes, olharam para dentro de suas produções e viram resíduos paralelo de confecção ou peças paradas em estoque como uma oportunidade de design. 

Fernanda Yamamoto

A marca homónima comemorou em 2019, 10 anos desde a abertura do primeiro ponto físico e também exatos 10 desfiles. No último São Paulo Fashion Week (N48), que ocorreu em Outubro, Fernanda Yamamoto levou à passarela uma coleção feita a partir de peças que ficaram encaixotadas no depósito durante os últimos anos: “Trouxemos cerca de 450 peças e usamos cerca de 300. Fizemos upcylcing de peças prontas de desfiles anteriores, do nosso acervo”, comenta Fernanda ao Even More.

A desconstrução das peças paradas iniciou depois da participação de um workshop com Agustina Comas (estilista especialista em upcycling que comanda a marca Comas). Mantendo a essência do trabalho da marca, a coleção foi feita artesanalmente e técnicas como o plissado, feltragem, alfaiataria, capitonê e o shibori, foram aplicadas nas peças. Uma delas, por exemplo, se tornou um casaco que foi construído a partir de 11 vestidos. Na mesmo coleção, Reiko Sudo, estilista à frente da famosa Nuno Textiles, do Japão, desenvolveu com Fernanda quatro peças misturando os tecidos próprios aos da marca, como uma homenagem à Japan House de São Paulo.

A coleção de Inverno 2020 apresentada no SPFW N48 de Fernanda Yamamoto, foi feita a partir de peças paradas no estoque da marca. (Reprodução/Fernanda Yamamoto)

Dentre os 32 looks da coleção, 10 foram para homenagear os desfiles anteriores. A técnica “quadradinhos”, que deu à marca o prêmio de Design do Museu da Casa Brasileira em 2014, também foi utilizada no desfile junto com resíduos de embalagens de presentes que também viraram tricot. Fernanda Yamamoto nos conta que, seja de uma forma ou de outra, a marca sempre reutilizou resíduos e que assim pretendem continuar: “os resíduos de cortes e metragens pequenas sempre fazemos doações para ONGs que trabalham com esse material. Queremos sim continuar a usar esses materiais. Na próxima vamos inserir mais na coleção, em alguns modelos.” 

Korshi 01

Com direção criativa de Pedro Korshi e direção executiva de Albner Moreira, a Korshi 01 nasceu para ser uma marca de design inteligente como foco na versatilidade. As peças modulares de roupa da K01 são feitas para serem usadas de maneiras completamente diferentes a partir da mesma base, garantindo produção eco-amigável, funcionalidade e atemporalidade para o cotidiano das pessoas.

Em seu terceiro desfile para o SPFW como parte do projeto estufa, a Korshi 01 trouxe na edição N48 uma coleção feita a partir de peças anteriores e de acervo, porém, apresentadas com outras propostas – o que reforça a versatilidade da marca. “As roupas da Korshi 01 possuem soluções sustentáveis em seu DNA e permitem essa apresentação a partir de seu design mutável. Temos peças que chegam até 9 funções diferentes! Nessa coleção tivemos casacos desfilados como jardineiras, macacões como vestido e etc.”, nos conta Albner Luz.

Coleção mutável da Korshi 01, apresentada na edição N48 do São Paulo Fashion Week, contou com peças de outras coleções. (Reprodução/Korshi 01)

Essa foi a primeira vez em que a marca reutilizou todas as peças de um desfile. Albner nos conta que a escolha para o reaproveitado teve como objetivo incentivar as pessoas a utilizarem objetos cotidianos para além de sua função comum, pensando em produções mais conscientes e no bem estar do planeta. “A Koleção 04 foi uma maneira de reafirmar esse propósito através das roupas que foram exploradas de formas completamente diferentes na passarela.“

Com a junção de funções nas peças, a Korshi 01 vai muito além do upcycling e do reaproveitamento de tecidos. Um casaco da marca chamado de Trench Box, por exemplo, pode se transformar em 09 modelos diferentes e necessita de 07 metros de tecido para ser confeccionada: ”Para produzir as peças individualmente, nós precisaríamos de 27m de tecido, ou seja, é um casaco que agrega no cotidiano individual e coletivo das pessoas em um segmento (a moda) que utiliza de 7 a 29 mil litros de água para produzir 1kg de fibra de algodão, 93 trilhões de litros de água são consumidos pela indústria têxtil, isso representa 4% da captação mundial de água doce anual. (fonte: @menos1lixo). O design das peças Korshi K01 contribuem diretamente para redução desses danos.”

A marca pretende continuar com a  reutilização de peças e resíduos em suas próximas coleções, explorando as funções dos materiais: ”Resíduos e sobras sempre serão bem-vindos em nossas coleções, afinal, não existe lixo, existem restos de materiais que não foram explorados para além de sua função.”, afirma Albner.

ALUF

Desde que Ana Luisa idealizou a ALUF em 2016, quando ainda era estudante de Design de Moda da FAAP em São Paulo, a marca já possuía uma ligação firme com a sustentabilidade, ou como a marca se define em seu site oficial: “como forma de autoterapia e um caminho através da sustentabilidade”.

Na última edição do São Paulo Fashion Week (N48) a ALUF apresentou ao público a coleção Pegasus, que trouxe elementos resultados de uma meditação que Ana Luisa presenciou. Foi a terceira coleção da marca apresentada no evento como parte do Projeto Estufa: ”A coleção Pegasus fala sobre assumir nossas necessidades lúdicas para um equilíbrio psicológico. Nela trouxe elementos de uma meditação guiada por tambor xamânico, onde eu vi uma floresta espelhada, e um pegasus, um cavalo branco alado. A beleza trazida por Mika safro, traduziu muito bem a coleção, com o elo de vidro reciclado que criamos, simbolizando o elo entre o real e o lúdico, onde de um lado havia o cabelo real da modelo e do outro um aplique”, conta a estilista ao Even More.

Guiada pelos caminhos da sustentabilidade, as peças da coleção Pegasus levaram resíduos plásticos que se encontravam no ateliê da marca. Durante um ano a marca guardou os plásticos na qual as peças da marca eram entregues, “[…] tentamos substituir por papel, mas rasgava e não protegia a peça”. A ideia da reutilização veio após Ana Luisa conhecer um curso de reciclagem caseira das sacolas plásticas, “Assim iniciamos o projeto de reciclagem desse material, que casou perfeitamente com o universo espelhado lúdico, da viagem do pegasus, o plástico parece um vidro”.

Coleção Pegasus da ALUF – os plásticos foram inseridos em peças como capas e vestidos e também em detalhes. (Reprodução: Zé Takahashi/ FOTOSITE)

Em torno de 600 sacolas plásticas foram recicladas. Além de contar com os resíduos plásticos vindos do ateliê, a marca contou com doações de multimarcas como a Gallerist. Os plásticos foram inseridos em detalhes e em peças que conseguiram aproveitar a estrutura rígida no material, “[…] como uma capa e um vestido com volume na anca, além de por em detalhes em outras peças trazendo este brilho do reflexo da luz no plástico”, complementa Ana Luisa. 

A ALUF pretende continuar guardando resíduos e reutilizá-los em próximas coleções, mantendo isso como um processo natural da marca. “Não existe um lixo no mundo. Guardamos nossos resíduos e buscamos reciclar o máximo possível deles. Com a criatividade, olhamos este material de forma diferente no ateliê, podendo surgir novos projetos sim”.

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