Plástico na moda: sua camiseta de PET reciclado não é tão boa quanto parece


Começo lembrando que o problema em si ultrapassa a escolha de materiais ou onde eles serão usados, o problema em si está no consumo. A perspectiva apontada pelo relatório Pulse of Fahsion Industry 2019 (disponibilizado pelo Global Fashion Agenda) mostra que a indústria da moda melhorou seu desempenho social e ambiental no ano anterior (2018), mas de maneira mais lenta.

Isso significa que, com percentuais de crescimento de consumo avançando exponencialmente (10% ao ano, segundo o relatório), a velocidade de aplicação das iniciativas de redução de impacto pode não ser suficiente, e para 2030 temos um alerta.

Gráfico ilustrativo retirado do Relatório Pulse of Fashion Industry 2019.

O problema do problema

Se continuarmos com a perspectiva de consumo e produção de roupas como aponta o relatório Pulse, precisamos entender algo no contexto: boa parte disso é plástico. Se é reciclado de garrafas PET ou fruto de matéria-prima virgem proveniente de petróleo, não interessa, continua sendo plástico e o que precisamos avaliar hoje é por que isso é uma escolha ruim.

O poliéster, talvez a fibra sintética mais popular, já é conhecido da indústria têxtil desde os idos de 1940, e ganhou o mundo realmente logo após a Segunda Guerra. Desde então, viemos consumindo poliéster em diferentes frentes, incluindo o vestuário. Segundo o relatório da Textile Exchange 2019, o consumo mundial de poliéster chegou a superar 55 milhões de toneladas em 2018. E isso tem uma consequência.

Extrair, consumir, descartar

Dentro do modelo linear de produção e consumo em que vivemos hoje, a destinação óbvia dos materiais ao final do dito “ciclo de vida” (não levaremos em consideração aqui o comportamento de consumo desenfreado que encurta esse período) é o lixo.

Agora, pense em toneladas de têxteis provenientes de uma fonte não renovável, o petróleo, no lixo. Tanto aterros como incineradoras vêm alarmando ambientalistas e movimentos sociais, visto que não só não temos mais espaço para esconder o problema, como estamos poluindo locais habitados por pessoas e emitindo quantidades devastadoras de CO2.

Campanha Inverno 2017 da marca Stella McCartney: vale dizer que à época as peças utilizaram fios derivados da reciclagem de garrafas coletadas dos oceanos pela organização Parley For The Oceans

A informação publicada na iniciativa Make Fashion Circular da Fundação Ellen MacArthur revela que, globalmente, 73% dos materiais utilizados na confecção de peças de vestuário é encaminhada à aterros sanitários ou incinerados no final da vida útil, além de que menos de 1% de roupas velhas é destinada a produção de novas peças.

Soluções simples demais para serem comemoradas rapidamente

E aí surge uma alternativa: vamos usar o plástico descartado para criar produtos provenientes de plástico. À primeira vista, parece algo inteligente, porém, pensar de maneira circular e criar soluções não é tão simples e requer uma visão holística do assunto.

O boom dos têxteis reciclados, que utilizam garrafas PET retiradas do oceano trouxe a sensação de guilty-free para consumidores como uma boa história de sustentabilidade para marcas. Segundo a Textile Exchange, 13% do poliéster consumido no mundo é reciclado e, em sua maioria, derivado de garrafas PET da indústria de alimentos.

Mas, e todo o poliéster já produzido pela cadeia têxtil? Incorporar outra fonte de matéria-prima, mesmo que não virgem, não resolve o problema do descarte. Continuamos colocando mais produtos no mercado sem solucionar a circularidade da própria indústria – e com um agravante: inviabilizando a reciclagem completa do material originário.

Garrafas PET podem ser recicladas, mas quando transformamos em têxtil e misturamos com outras fibras (de origem natural como o algodão) quebramos a cadeia circular – pois a tecnologia disponível não consegue separar fibras compostas para incluí-las novamente na cadeia.

Ainda, para citar o relatório do Greenpeace de 2017: “grande parte da reciclagem atual de poliéster pela indústria têxtil nem sequer lida com têxteis de desperdício; em vez disso, essa reciclagem “abre o ciclo” ao se concentrar nas garrafas PET, removendo a responsabilidade da indústria de alimentos e bebidas”.

E longe de negar o problema de descarte de garrafas, o que queremos é mostrar que essa solução não só não é a melhor em termos de alternativa à indústria têxtil, como inviabiliza o urgente desenvolvimento de uma circularidade mais eficiente em outra indústria. Ao fim do dia, na realidade, mantemos um pensamento linear de extração, consumo e descarte.

Ilustração EVENMORE (por: Suzana Tempel) – o pensamento circular é o que permite vislumbrarmos uma alternativa para o descarte, antes mesmo da extração. 

As consequências invisíveis aos olhos

Concorde ou não com a utilização de garrafas na produção de têxteis, a prática virou tema central de inúmeros storytellings de marcas ao redor do mundo sem a necessária reflexão. E, entenda, não estamos negando que incluir o plástico reciclado como matéria-prima para produtos de moda seja sempre uma alternativa negativa, mas nem de longe é tão boa quanto fazem parecer.

Isso porque, não apenas o reciclado, mas o uso excessivo de plástico na composição de peças de vestuário (poliéster, nylon e acrílicos num geral) são grandes responsáveis pela contaminação de oceanos com microplástico – partículas que se desprendem das peças durante o atrito em lavagens domésticas e caem diretamente nos sistemas de esgoto e tratamento de água, sem a possibilidade de serem filtrados.

Segundo o relatório A New Textiles Economy: redesigning fashion’s future, da Fundação Ellen MacAthur, a cada ano meio milhão de toneladas de microplástico (o equivalente à 50 bilhões de garrafas plásticas) chegam aos oceanos como consequência da lavagem de têxteis de fibras sintéticas. Quando transformamos garrafas em têxteis, então, tiramos também a possibilidade de coleta (lembrando que o microplástico é um problema proveniente de fibras sintéticas recicladas ou não).

imagem reprodução (Pinterest)

A reportagem investigativa “Invisibles, the plastic inside us” guiada pela Orb Media revelou mais de 80 por cento das amostras de água coletadas nos cinco continentes testaram positivo para a presença de fibras de plástico. E não apenas nos oceanos, como na água potável. Não existem atualmente procedimentos específicos de filtragem e contenção, e por não serem biodegradáveis elas são praticamente indestrutíveis.

Por isso, as discussões sobre potenciais soluções precisam ser mais profundas. Não basta vender camisetas com tecidos de PET reciclado e clamar pelo selo da sustentabilidade. Toda marca, ou produtor de conteúdo, que queira hoje falar sobre princípios de redução de impacto precisa encarar seu desafio como educador de um mercado consumidor, e oferecer informações completas, tanto de prós quanto de contras, sobre aquilo a que se pretende fazer.

E, desconfie, sempre que a solução for muito simples há grandes chances de, na realidade, ela ser o início de um novo problema.

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1 Comment

  1. […] O descarte no carnaval pode ser diminuído com algumas mudanças de mindset. Apostar em marcas que fazem produtos pensando no futuro como os copos retornáveis e no glitter biodegradável, são alguns exemplos. O glitter tradicional é feito de micro pedaços de plástico que levam anos para se decompor (veja mais na nossa matéria sobre o plástico). […]

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