Passo a Passo: o caminhar do setor de calçados para a sustentabilidade no Brasil


Com crescimento previsto de 2,5% em 2020, mais variadas marcas da indústria calçadista brasileira abraçam iniciativas de logística reversa para diminuição de impacto.

Começamos o ano falando sobre o problema decorrente do lixo (confira aqui a matéria sobre plástico na moda). E uma das soluções, talvez a mais desafiadora, mas mais coerente é pensar de forma circular a produção, oportunizando a reinserção de materiais em suas cadeias originárias, o que evita o descarte.

Para além de apenas um storytelling, ou estratégia de marketing, a sustentabilidade é de fato uma das 10 apostas para este ano da McKinsey, publicada no relatório The State Of Fashion 2020 em parceria com o portal Business of Fashion. “Os players da moda precisam trocar banalidades e ruídos promocionais por ações em termos de sustentabilidade, como consumo de energia, poluição e resíduos”, diz o relatório que aponta as tendências mundiais em termos de consumo de moda.

No setor calçadista, já existem algumas marcas comprometidas com a redução do impacto de um segmento que, de acordo a Abicalçados, tem uma previsão de crescimento de 2,5% neste ano.

Começar com o pé direito

Não é uma novidade para nós entender que neomarcas são, em uma boa quantidade, mais engajadas em termos de redução de impacto desde o nascimento. À frente de um mercado exigente, e carente em termos de ações concretas, que a Projeto Base viu a oportunidade já desde o primeiro passo.

“Nos posicionamos como uma marca de consumo consciente. Desde o começo era uma questão importante minimizarmos os impactos causados por nossa produção”, conta, Gracielle Vieira, responsável pelo marketing e desenvolvimento da label paulistana. Para além das concepções veganas e de matéria-prima, desde o nascimento a Projeto Base mantém uma política de logística reversa disponível para todos os consumidores.

Leia Também: Economia Circular surge como uma urgência para o meio ambiente e como uma oportunidade para novos modelos de negócio.

Isso quer dizer que, ao final da vida útil do seu calçado, o consumidor pode devolver os pares para a marca. Assumir a responsabilidade de materiais e produtos colocados no mercado é uma das iniciativas mais interessantes. Com um código reverso, o cliente pode enviar novamente à sede seus pares, que serão destinados à reciclagem e ainda receberá um cupom de 10% de desconto em uma próxima compra.

O site da Projeto Base disponibiliza acesso fácil às instruções para logística reversa dos pares. (foto reprodução)
Os pares que retornam à marca são destinados para reciclagem no setor de produção que aproveita, hoje, em média 98% do material (foto reprodução: @projeto.base)

“Nossa porcentagem média de retorno gira em torno de 10%, porém a marca só tem 2 anos de vida, acreditamos que por ser nova os clientes ainda não sentiram necessidade de retornar o produto usado”, diz Gracielle. Hoje, os sapatos são encaminhados ao setor de produção que aproveita até 98% do material por conta da tecnologia disponível para tratar a reciclagem, “e descartar corretamente o que não puder ser trazido de volta”, lembra.

Para incentivar a comunicação da iniciativa, os veículos da marca criam um caminho digital para aba “DESCARTE” no site, bem como banners fixos em página inicial e conteúdo pelas redes sociais. Mesmo assim, a Projeto Base acredita que boa parte da baixa porcentagem de clientes que buscam o serviço de logística reversa como diferencial reside na falta de informação. “Uma maior popularização e conscientização a respeito da logística reversa poderia tornar mais comum este tipo de serviço, inclusive entre as empresas/transportadores de envios como o Correios, barateando esse frete como forma de incentivo a reciclagem”.

Double Trouble

E se o descarte é um assunto ainda emergente para a maioria de consumidores, o plástico nem tanto. Em matéria de sustentabilidade e reciclagem, o material é sempre controverso e, por aqui, fizemos uma matéria sobre as implicações de reintroduzi-lo em cadeias diversas. Mas, e se ele é originário da indústria? Como lidar?

Em 2019, a Melissa, marca do grupo Grendene, fez uma campanha muito aguardada para criar um movimento de coleta incentivando a logística reversa dos sapatos feitos essencialmente de plástico. “Um dos maiores desafios que temos como marca é conscientizar os consumidores em relação às diferenças do plástico de uso único e de uso contínuo. Acreditamos que quanto mais claro for esse conceito, mais fácil será a assimilação das suas possibilidades de uso e reuso”, conta Raquel Scherer, gerente da divisão Melissa, na Grendene.

A reciclagem tem dois destinos: refabricação (moledo Flox) ou reciclagem por cooperativas homologados, próximas aos pontos de coleta para reduzir o impacto de transporte (reprodução: @melissaoficial)
A ação de 15/10/19 iniciou um diálogo da marca com o consumidor sobre descarte e acompanhamento do ciclo de produtos. As Galerias Melissa fazem recolhimento, desde então, de pares inutilizados. (foto reprodução: @melissaoficial)

No dia 15 de outubro, marcado no calendário como Dia do Consumo Consciente, a marca esvaziou mais de 300 lojas pelo Brasil, parando as operações para transformar os pontos de venda em pontos de coleta de pares Melissa. “O impacto da ação foi muito positivo, uma vez que nosso objetivo se tratava da abertura de um diálogo sobre sustentabilidade e com o maior número de pessoas possível. Foi o ponto de partida nessa jornada da economia circular e nossa visão é que essa consciência cresça na medida que a informação chegue à um maior número de pessoas”, comenta Raquel.

Já com um flerte sobre circularidade do produto em 2018 (quando 10 Galerias Melissa receberam pontos de coleta), a marca diz que seguirá com duas frentes para a reciclagem de material: alguns pares retornarão à fábrica para serem transformados em um novo modelo da Melissa Flox; e outros serão encaminhados para recicladores locais homologados que ficam próximos aos pontos de coleta. E a escolha é proposital. A destinação dos pares recolhidos quer diminuir impactos ambientais, inclusive de transporte, além de seguir com a ressignificação da matéria-prima.

Apesar da crescente crítica à adesão tardia de empresas a processos mais sustentáveis, grandes cadeias são algo delicado de se modificar. Com oito anos do setor de Desenvolvimento Sustentável, a implementação da logística reversa nas operações da marca foi comemorada. “Acreditamos que as maiores dificuldades se deram na resolução de requisitos técnicos, uma vez que visamos ter o menor impacto ambiental possível. Porém, já esperávamos que este processo demandasse tempo e estudo constante”.

Pela Projeto Base a iniciativa foi facilitada, pois a fábrica onde acontecem as operações da neomarca já estava implementando o modelo. Em termos de posicionamento, contudo, há um consenso. “Acreditamos que o futuro da moda (e outros mercados) precisam urgentemente se responsabilizarem pelo produto gerado e destino final deste material no nosso planeta”, explica Gracielle. “Nós acreditamos que a circularidade é o futuro da moda e consumir de maneira consciente é também ter conhecimento sobre a origem e destino dos produtos.  Assim, acreditamos que é nossa responsabilidade buscar alternativas que melhor atendam essas demandas que são nossas, dos consumidores e do planeta”, finaliza Raquel.

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