Os caminhos (incertos) da roupa íntima: como descartar?


Muito se discute sobre as variadas formas de circular nossas roupas, sapatos e acessórios e conforme a sustentabilidade na moda vai se tornando cada vez mais indispensável, ideias vão surgindo. Mas, e aquela peça que ninguém sabe o que fazer? Elas podem ficar entulhadas nas gavetas e quando não servem mais para uso, vão parar no lixo? Sim, estamos falando das peças que inevitavelmente todas as mulheres já adquiram: as lingeries. 

Para entender de uma vez por todas que o fim da sua lingerie não é no lixo. Dados do IEMI – Inteligência de Mercado, mostram que, no Brasil, aproximadamente 1,588 bilhões de peças íntimas foram vendidas apenas em 2019, mostrando alta no varejo de 2,1% comparado ao ano de 2018. A falta de informação nos leva a imaginar quantas dessas peças vendidas foram parar no lixo e a quantidade de retalhos que foram gerados. Dados do ABIT de 2018 revelam que cerca de 170 mil toneladas de peças têxteis foram produzidas naquele ano e apenas 40% desse número foram recicladas corretamente. Para se ter uma idéia, uma lingerie de tecido sintético demora em torno de 200 anos para se decompor.

Marcas de lingeries como a Ovelha Negra Intimates já trabalham em sua maioria com fibras 100% naturais, porém também utilizam variantes da poliamida por serem indicadas para melhor transpiração da pele. As fibras naturais são utilizadas pela preocupação da marca com o conforto e bem estar de quem usa os produtos da OV. “Nossas peças são produzidas a partir dos seguintes pilares: sustentabilidade, design, modelagem funcional, matéria prima que confira durabilidade, e, por fim, perfeição em acabamento”, nos conta Maria Eduarda Vidal, sócia da marca. 

DE VOLTA AO SOLO: A COMPOSTAGEM

Mas, não é só de conforto que precisamos falar quando o assunto é a lingerie e sustentabilidade. Produtos com tecidos 100% naturais, além de durarem mais, podem ter um novo destino após o fim da usabilidade, a composteira! Para isso, a peça não pode ter mistura com nenhum tecido sintético, além de atrapalhar no processo em si, o solo pode ser contaminado. Por isso, dê preferência a peças feitas de algodão, linho e cânhamo, por exemplo. 

Camila Victorino, Bióloga e Mestra da USP, com PhD na University of Surrey e também fundadora do canal Pensando ao Contrário onde compartilha dicas de hábitos saudáveis e sustentáveis; nos contou que a compostagem das lingeries pode ser feita em casa. É importante que seja retirado qualquer elástico ou adornos das peças antes de iniciar o processo. “Outro fator importante é o tingimento da peça. Tintas sintéticas podem ser problemáticas durante a compostagem. O ideal seria ter uma peça de tecido natural tingida naturalmente.”  

Após a retirada de todos os materiais sintéticos, a lingerie deve ser cortada em pedaços ou desfiada. A compostagem pode ser feita com uma composteira (sistema de reciclagem de orgânicos) com acelerador ou apenas na comum. “Algumas pessoas enterram tecido natural no solo e plantam algo em cima. Isso ajuda a compostar e não interfere na sua composteira, já que a compostagem do tecido demora muito tempo, quando comparado à compostagem do material do dia a dia.”, ressalta Camila.

O acelerador faz com que compostagem leve apenas um mês, enquanto a composteira comum pode demorar de 180 dias até um ano: “Depende do clima, do tecido e da umidade do local também”, conta. Em seu canal no YouTube a bióloga ensina como compostar restos orgânicos em casa.

Tecidos naturais que podem ser comportados enquanto tecidos sintéticos não (Reprodução/Hearts)

Procurar peças de lingerie com algodão orgânico e que também possuam tingimento natural, segundo Camila, ajuda também a diminuir o perigo de alergias. Calcinhas que só utilizam elástico em cima para segurar, são mais fáceis de encontrar, enquanto os sutiãs dificultam a busca pela necessidade de se utilizar aro e espuma. “Quando a marca mistura algodão orgânico com lycra ou tecidos sintéticos, fica muito complicado de compostar. O pior é que esse material vai poluir a natureza quando a peça ficar velha. Ou seja, indico sempre a busca por calcinhas 100% algodão orgânico e com a menor quantidade de elásticos possível”.

Embora não tenham experimentado a compostagem e também não pratique uma logística reversa de peças usadas, a Ovelha Negra informou que doa as sobras de tecidos pré-consumo para mulheres que produzem colchas com retalhos. E, de fato, a compostagem das lingeries – e outras peças com tecidos naturais – ainda é pouco divulgada. Lucas Chiabi, responsável da empresa Ciclo Orgânico, que realiza a coleta de baldinhos com lixo orgânico e entrega em compoteiras locais conta que nunca recebeu lingeries e a quantidade de tecidos naturais recebidos foi mínima. ”Acredito que a informação é o melhor caminho para divulgarmos a destinação correta de tecidos naturais que já não servem mais como roupas”, conta.

A Ciclo Orgânico atende apenas no Rio de Janeiro, mas em Curitiba temos a Compostar Curitiba. A empresa também nunca recebeu nenhum tipo de tecido para a compostagem, embora tenha atendido cerca de 200 residências e 100 empresas da cidade. “Ainda não recebemos este tipo de material dos nossos clientes, mas quando o tecido é 100% natural podemos compostar sim”. 

DE VOLTA À INDÚSTRIA? A LOGÍSTICA REVERSA

Mas, essa conversa toda é para o fim de vida do material. Quando falamos em peças íntimas existe a grande reticência sobre reuso. De fato, questão de higienização é algo a ser considerado. E, pensando nisso, que a marca Ouse abraçou a logística reversa para criar um método de garantir a higienização de peças em boas condições de uso e a destinação à doação. 

A marca de lingeries e moda fitness OuseUse criou em 2018 o projeto Socioambiental chamado Amiga Recicla que aceita doações de peças íntimas. A tarefa era impedir que lingeries usadas fossem parar nos aterros sanitários e quebrar o ciclo de descarte incorreto de roupas. Para serem aceitas, as peças precisam estar em bom estado de conservação e a higienização fica por conta da marca. ”Sutiãs, calcinhas e biquínis, podem ser doados desde que estejam em bom estado de conservação (sem rasgos ou furos). As peças podem ser de qualquer marca, desde que estejam em condições de uso”, conta Sérgio Rodrigues, do marketing da OuseUse.

Desde o início do projeto, a marca já arrecadou 4000 peças entre calcinhas e sutiãs. A OuseUse possui pontos de coletas físicos nas lojas licenciadas da marca em Minas Gerais, além de algumas parceiras (confira aqui). O projeto também é divulgado nas redes sociais e o envio das peças pode ser feito pelos correios (mais informações no final da matéria).

Projeto socioambiental da marca OuseUse tem como objetivo ajudar mulheres carentes fazendo doações de lingeries e também evitar que as peças cheguem até os aterros. (Foto/Reprodução OuseUse)

Se responsabilizar pelos materiais pós-consumo vem se desenhando como uma nova obrigação para marcas. Criar políticas de retorno para correta destinação, ou até mesmo descarte, faz parte de um novo pensamento circular que sustentará uma moda do futuro. Sobre o assuntos inclusive, já comentamos na matéria sobre logística reversa em grandes marcas de varejo e também na indústria calçadista

E PARA ONDE POSSO ENVIAR MINHAS PEÇAS?

Além das alternativas de compostagem e logística reversa das próprias marcas (pergunte para o fabricante da sua), em Curitiba o Pequeno Cotolengo e o Instituto Pró-Renal aceitam doações de peças íntimas usadas e que ainda podem ser utilizadas (aqui cabe o bom senso necessário a todo tipo de doação de roupas). As peças não podem estar rasgadas e nem furadas e devem ser entregues higienizadas. Parte das peças são destinadas aos bazares que ocorrem semanalmente nas instituições e o Instituto Pró-Renal também reserva uma pequena quantidade para pacientes que possam precisar. Não há quantidade mínima. 

As doações podem ser feitas no endereço físico ou por agendamento, ambos fazem coletas semanalmente das doações. 

Informações:

Ouse Use

  • As peças de lingerie e biquínis podem ser enviadas diretamente para: Ouseuse – Projeto Amiga Recicla; Rua Ana Vitória, 283 – Centro – Juruaia – MG – Cep.37805-000
  • Ou então para as lojas licenciadas. Para mais informações acesse http://www.ouseuse.com.br/amigarecicla/index.html ou entre em contato no número (35) 99177-1117 ou pelo e-mail ouseuse@ouseuse.com.br.

Compostar Curitiba

  • Entrar em contato pelo WhatsApp (41) 9981-2782

Pequeno Cotolengo

  • Entrar em contato pelo número (41) 3314-1962 e agendar a coleta. A doação também pode ser feita pessoalmente no endereço: R. José Gonçalves Júnior, 140 – Campo Comprido (são aceitas peças de roupas e peças íntimas).

Fundação Pró-Renal

  • Entrar em contato no número (41) 3312-5415 e agendar a coleta. A doação também pode ser feita pessoalmente no endereço da Fundação: Av. Vicente Machado, 2190 – Batel (são aceitas peças de roupas e peças íntimas).
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