O novo desafio das semanas de moda não está nas vendas, mas no impacto ambiental


Numa temporada marcada por discursos ativistas sobre impactos da indústria, separamos marcas que trouxeram discussões sobre como reduzir e se justificar no cenário internacional.

O ano é 2019. Ainda no final de janeiro, a capital francesa lança seu programa Paris Good Fashion para se tornar a capital da moda sustentável até 2024, o que inclui grandes conglomerados à semana de moda. No ano anterior, em setembro, o British Fashion Council anuncia uma temporada de Londres 100% livre de pele animal, pela primeira vez na história.

Em março, Tom Ford assume como novo chairman da CFDA (Conselho de Estilistas Norte-americanos) com pautas sobre inclusão e diversidade, após 13 anos de Diane Von Furstenberg como chairwoman. Aceleramos para agosto – na reunião do G7 em Biarritiz – onde líderes mundiais recebem o Fashion Pact, documento formulado entre marcas para metas globais de redução de impacto. O nome no cabeçalho é de François-Henri Pinault, CEO do Grupo Kering, que gerencia marcas importantes nos desfiles internacionais.

Essas são apenas algumas das chamadas que percorreram portais de notícias, redes sociais e blogs ao longo do último ano. Não era de se surpreender, portanto, que a temporada de moda internacional do segundo semestre de 2019, fosse tão aguardada em termos de revoluções em sustentabilidade.

Pensando em termos tradicionais, as semanas de moda vêm tentando se reinventar e não é de hoje. Perdeu-se o sentido da apresentação com a internet e, em especial, as fast-fashion. Parte-se para o espetáculo, a experiência. Mas essa experiência polui. Não há mais termos de negociação para ativistas, como a adolescente Greta Thunberg, que liderou a greve geral pelo clima em meio à temporada de desfiles. Para se salvaguardar, vemos tentativas e, hoje, separamos algumas das que mais chamaram a atenção neste último mês:

PARIS FAHSION WEEK:

Desfile Stella McCartney / foto reprodução (Andrea Adriani)

Stella McCartney: Na vanguarda das discussões sobre impacto ambiental na moda, o desfile de Stella McCartney no PFW era aguardado por diversos motivos. Um deles inclusive por ser o primeiro da estilista já no cargo de conselheira oficial sobre sustentabilidade de Bernard Arnault, CEO do grupo LVMH que recebeu a marca após o rompimento com a Kering.

Com tantas responsabilidades a cumprir, Stella não deixa a desejar quando anuncia seu desfile mais sustentável de todos. Conforme o press release, 75% dos modelos apresentados têm origem em materiais eco-friendly. Além do show em si, a data marcou a apresentação no backstage da linha Koba, uma parceria da estilista com a Ecopel (marca expert em desenvolvimento de pele fake) e a DuPont. A novidade é uma alternativa à pele animal, produzida a base de milho e poliéster reciclado, com pegada de carbono menor do que produção de fake fur atualmente no mercado, mantendo o acabando de luxo.

Segundo a parceria DuPont, o material usa 30% menos energia na fabricação e reduz em 63% a emissão de gases de efeito estufa em relação ao poliéster, além de ser reciclável. A meta de McCartney é usar da sua nova posição para incorporar o material em todas as marcas do grupo LVMH.

Givenchy: Por mais tímidas que algumas atitudes pareçam ainda é conveniente perceber o tamanho de uma transformação por trás. “Estamos sempre falando sobre como a moda pode ser mais consciente”, anuncia Clare Waight Keller. Como tradução da fala vemos uma apresentação inspirada a princípio no livro “Alison Yarrow’s 90s Bitch”, para discutir o sequestro do feminismo pelo marketing na década, e terminar em peças de jeans em upcycling. “Eu adquiri jeans de fora de Paris que são da época [década de 1990] e nós os separamos e os reformulamos. Eles são todos únicos e há uma raridade, mas também uma autenticidade para eles. É uma peça de vestuário que viveu outra vida”, conta. A alternativa, perante atitudes passadas da casa, é um salto interessante em direção ao discurso do impacto da marca.

Jeans em upcycling no desfile Givenchy/ foto reprodução (Armando Grillo)

MILÃO FASHION WEEK

Prada: Na semana de moda mais trendy de todas, o que chamou a atenção para quem queria forçar um discurso de sustentabilidade foi o apelo atemporal do que antigamente abrigava coleções extravagantes e datadas. O caso máximo foi a apresentação da Prada, que ainda teve uma Miuccia, no showroom, declarando que “a pessoa deve ser mais importante que as roupas”, para ainda completar após um desfile em tons e recortes sóbrios: “precisamos fazer menos. Há muita moda, muita roupa, muito de tudo”.

Gucci: Pouco antes da apresentação a marca tão característica de Alessandro Michelle declarou-se neutra em pagada de carbono via redes sociais. Setembro marcou o início de uma nova Gucci, mas não em termos estéticos. Na passarela, apesar de um início provocativo, ainda vimos a exuberância do exagero lúdico criado na casa. A nova Gucci está na sua cadeia produtiva, rastreada e “carbon neutral”, como comentamos na tradução postada há alguns dias por aqui.

Desfile mais sóbrio da Prada / foto reprodução (Andrea Adriani)

LONDRES FASHION WEEK

Victoria Beckham: Não pelas roupas, mas por outro lançamento que o desfile da ex-Spice Girl chamou a atenção. Com assinatura de beleza de ninguém menos que Pat McGrath, Victoria lançou a nova linha de maquiagens naturais numa passarela de semana de moda marcando um novo momento do nome. Pat teve a missão de criar olhos sofisticados e fáceis nos modelos. A linha de maquiagens de luxo usa o mínimo de plástico e, as embalagens secundárias são feitas de resíduos pós-consumo – os pedidos serão enviados em bolsas de lona reutilizáveis.

Burberry: Também na onda da compensação, a Burberry anunciou durante a semana de moda londrina que doaria o valor referente à emissão de carbono gerados tanto pelo desfile, quanto pelos voos de convidados que se deslocaram até Londres para acompanhar a coleção Spring-Summer 2020 da casa. A organização escolhida tem como causa o desmatamento da Amazônia.

O anúncio, feito via redes sociais, assim como a Gucci, marca uma sequência de transformações da marca que vem da retirada de pele animal das coleções, ao compromisso de não mais queimar os excedentes de produção – como comumente era praticado por marcas de luxo. Ricardo Tisci, o diretor criativo, ainda comentou à imprensa: “esta é uma coleção inspirada em nosso passado e dedicada ao nosso futuro”. Era sobre a estética, mas poderia ser muito mais.

Beleza do desfile, assinada por Pat McGrath, com nova linha de beleza natural de Victoria Beckham/ foto reprodução Victoria Beckham Beauty

NOVA YORK FASHION WEEK

Gabriela Hearst: A garota prodígio do line-up norte-americano foi estreante da onda de carbon neutral. Gabriela assinou, no início da temporada de verão internacional, o primeiro desfile de pegada de carbono neutra da história. A marca, conhecida também pela preocupação com redução de impacto, recebeu ainda em 2019 investimentos do grupo LVMH (onde está Stella McCartney) para seu desenvolvimento no mercado de luxo.

Junto com a empresa de produção Bureau Betak e a consultoria EcoAct, Gabriela desenvolveu um desfile pensado antes de mais nada em evitar, ao invés de compensar, sua pegada de carbono. Os modelos foram contratados pensando a necessidade de locomoção, evitando voos; o serviço de catering utilizou alimentos locais e sazonais; e foi exigida a redução de uso de eletrodomésticos nos bastidores. As demais atividades que geraram impacto foram contabilizadas e revertidas em doação para o projeto Hifadhi-Livelihoods no Quênia.

detalhes da coleção Collina Strada / foto reprodução

Collina Strada: O show da marca de Hillary Taymour criou uma imersão lúdica de fazenda sob o título “Muito obrigado por me ajudar”. Uma mesa com pães e frutas convidaram os participantes a se servirem após um desfile produzido com materiais de origem mais sustentável. Os cristais foram reaproveitamento da marca Swarovski, e parte das roupas foram criadas a partir de materiais já existentes, ou seja, sem tecidos virgens. Na cadeira dos convidados havia uma lista de maneiras sugeridas para ajudar a cuidar da Terra, escritas pela ativista de moda Celine Semaan, da Slow Factory, junto a uma ecobag. ““Sustentabilidade é um caminho, não um destino”, declarou a designer após o show.

 

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