O normal da Vogue Brasil serve a quem?


Querer estabelecer parâmetros de normalidade já é uma premissa excludente. Uma que não cabia num mundo anterior ao vírus, mas é escancaradamente mais problemática no momento de agora. De todo o papel histórico que a comunicação poderia ser prestar a registrar, mesmo a de moda, neste momento, os títulos da Vogue Brasil e EUA têm sido constantes frustrações pessoais, e tem muita gente que compartilha comigo dessa visão, ainda mais agora.

Já tinha sofrido uma morte lenta com uma comemoração da edição 500 em abril, num mês auge sobre a pandemia de coronavírus no mundo e uma Ivete Sangalo de paetê numa capa que entrará para a história mais como um erro do que como uma comemoração. Daí que na sexta 01/05, tudo parece piorar e a capa de maio contendo a modelo Gisele Bünchen, vestindo grifes internacionais com o título “novo normal” colocou novamente a Vogue Brasil no epicentro de uma discussão sobre as abordagens já defasadas da revista num cenário de readequação da moda em âmbito social. A discussão tomou proporções ainda maiores com o vídeo endereçado à revista gravado pela comunicadora de 19 anos, Lele Santhana, do portal Das Modas (assista aqui) elencando suas frustrações pessoais e a inadequação da revista (e seus representantes) frente ao momento presente e até mesmo às atitudes de diversos outros títulos ao redor do mundo que parecem entender que não é o momento de querer emplacar certas coisas.

A meu ver, a revista ainda parece viver nesse delírio ultrapassado de ser a detentora de tendências, pautas e guardiã do portão da comunicação de moda. Não só ela, mas um recorte amplo da comunicação de moda tradicional brasileira, vamos ser justos e não esquecermos do recente editorial do Estadão, assinado pela FHits, com dicas de joias (uma delas de 40 mil reais) para usar em casa (?). A gente sabe que há tempos não é mais assim, mas infelizmente uma conveniência de muitas marcas e atores da cena de moda nacional empurra essa sujeira que até a semana passada parece ter estado bem confortável abaixo do tapete. Acontece que agora, essas abordagens mais elitistas do fashion se debatem para tentar achar uma pertinência num novo cenário.Mas para a Vogue, o estopim foi uma capa, que resgata símbolos e de uma normatividade padrão, há muito combatida, como referência à um possível cenário pós-pandêmico.

Sim, criar uma campanha com nomes importantes dá um trabalhão. Sim, adiar seria um prejuízo. Mas convenhamos que mais do que nunca vivemos num momento de sensibilidade em que corporações, de moda ou não, deveriam ao menos fingir que se importam mais com pessoas do que com números/anunciantes. O mais desapontador (mas não impressionante), como bem apontou Lele no vídeo, é a aparente falta de tato que permitiu, numa consequência permissiva em cadeia, que essa capa surgisse no mundo real, neste momento. Mas isso nós sabemos que é uma realidade não apenas sobre quem tem voz dentro das decisões do título, como da falta muitas vezes de uma representatividade não normativa que coloque em xeque algumas abordagens a partir da perspectiva individual.

Sem querer me alongar muito em discussões que há pelo menos 7 anos levantamos por aqui, acredito que a grande pergunta é: por quanto tempo o questionamento perdurará? Sabemos que a conveniência que trouxe a execução dessa capa dificilmente será combatida com mais um escândalo pontual, e temos o caso Donata Meirelles ali para lembrarmos dos mais recentes. Quem de fato toma frente contra a afronta, não causa um real impacto diante de tantas marcas, leitores e consumidores que apenas surfam na onda. Uma resistência e mudanças são construídas todos os dias. Naqueles inclusive que nada de repercussão acontece, em decisões que não aparecem viralizadas online, em “nãos” que impactam um círculo pequeno, mas de mudança concreta.

Torço muito para que a bandeira e o questionamento levantados com a completa dissociação do real que essa capa representa tenha um impacto a longo prazo e a gente não recorra novamente ao meme “nada acontece, feijoada”. Que responsáveis não apenas acolham e se desculpem (como temos visto muito por aí nos últimos tempos), mas repensem e melhorem suas estruturas para que sejam mais alinhadas com um pensamento que nem é de futuro, é presente.

Eu disse ainda esse ano durante uma conversa particular com uma amiga: “não acredito mais que uma era de transparência seja a abordagem correta, porque é involuntária. No meu ver, entramos numa era de responsabilidade em que a transparência radical acarretará numa verdadeira prestação de contas de marcas com suas comunidades e com a vida do seu entorno”.

Campanha de apoio a moda nacional com capas evocando anunciantes de fora, uma beleza normativa e estigmatizante simbolizando a simplicidade e o “rosto” de novos tempos são muito mais preocupantes que apenas um erro editorial. A raiz da escolha que se vê desconectada do real, mostra um conforto grande em atuar sem medo das consequências. E boa parte dessa culpa também é nossa.

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