NeoNyt: sustentabilidade para além da matéria-prima


Camisetas de algodão orgânico (simplesmente) ou um produto de garrafa PET retirado dos oceanos, essas muletas voltadas para o marketing têm impacto real no tema sustentabilidade hoje?

por Carmela Scarpi

Quando falamos sobre práticas sustentáveis, que partem das marcas, é recorrente cair no assunto matéria-prima. E, enquanto estudava os movimentos sobre o tema pelo Brasil, volta e meia me frustrava com alternativas apresentadas por pequenos e grandes nomes da indústria.

É evidente que incluir na compra de uma marca pequena tecidos com valor agregado pelo cuidado na produção, seja um passo significativo. Mas, a pesquisa de matéria-prima é um ponto de partida, não uma revolução. Infelizmente (ou não), em 2019, se apropriar do discurso de sustentabilidade com segurança implica em estudar para além dos títulos que agradam à campanha de marketing.

E por isso, na viagem a Berlim, a expectativa era me deparar com mais alternativas voltadas à economia circular – ao meu ver uma saída bem mais inteligente para a sustentabilidade que qualquer outra. Mas, para minha surpresa, diversas das marcas com que conversei dentro do galpão principal ofereciam apenas o algodão orgânico como justificativa para uma produção sustentável.

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Se antes via, de longe, a acomodação com o título orgânico como um problema estrutural de marcas nacionais (pelo difícil acesso ou pela nossa história tão ligada à agricultura), hoje penso em como a indústria se atem à superfície dos discursos em nível mundial, talvez apenas para se adaptar às expectativas de um nicho de mercado em ascensão.

Orgânico, natural, sustentável

O algodão orgânico, vamos tomar de exemplo, é um case muito interessante de estudar. Afinal, com um acesso bem mais facilitado hoje ele se torna a primeira alternativa nos discursos de posicionamento – ou reposicionamento – de inúmeras marcas no mercado. Porém, o estudo sobre a utilização desse têxtil ainda é muito básico. Diversas marcas apenas usam.

NeoNyt – 2019

A maioria não sabe que, na realidade, o título de orgânico se refere à inexistência de pesticidas e métodos naturais de cultivo, mas que isso não necessariamente se reflete em uma alternativa menos nociva, ao observar a totalidade da cadeia de produção ou finalidade do produto. Segundo a organização sem fins lucrativos, Cotton Inc., o algodão convencional vem sendo geneticamente modificado para render até 42% mais na etapa de fiação que o algodão orgânico. Isso poderia, de certa forma, compensar a utilização de água na fase de plantio – tema recorrente na justificativa do uso da opção orgânica.

E veja, não é uma questão de dizer qual é o melhor, ou que ter produtos orgânicos seja incoerente. Pelo contrário, é entender de que forma o desenvolvimento de uma indústria tradicional poderia ser aproveitado para aprimorar alternativas que reflitam uma sustentabilidade em todo o processo, não apenas em um. Evidente que a ausência de mutações e pesticidas auxilia na oferta de produtos hipoalergênicos, por exemplo – problema recorrente devido à nossa constante exposição a químicos. E inclusive, o método de cultivo tradicional de algodão hoje é ineficaz em termos de sustentabilidade da terra. Ou seja, tudo precisa ser avaliado e escolhido conforme uma justificativa completa, não apenas pelo título.

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Limpar os oceanos?

Outro ponto que é uma correspondência entre o que vemos por aqui e pude observar na NeoNyt, é a utilização de fibras com percentual de plástico retirado dos oceanos. Apesar do problema urgente das sacolas e garrafas que inundam o mundo inteiro, é preciso – mais do que nunca – desmistificar esse tipo de reciclagem como solução. A quebra da cadeia geradora do lixo não só dificulta a responsabilização de cada indústria, como cria outro problema ainda maior que é o microplástico.

A utilização de PET para composição de fibras têxteis é relativamente simples. Porém, com componentes de plástico nas roupas, a cada lavagem micropartículas são liberadas nos sistemas de água e esse tipo de componente não pode ser coletado e acaba sendo ingerido por animais e por nós. O trabalho científico que identificou que 85% do plástico do oceano tem como fonte estas fibras plásticas em micropartículas foi publicado em 2011, no Jornal Environmental Science and Tecnology. Em 2019, numa feira internacional sobre moda e sustentabilidade, ainda vemos marcas expondo produtos com essa tecnologia como solução.

Não há como esperar um futuro

Encarar a complexidade de se pensar uma cadeia de moda coerente com um mundo sustentável hoje é o grande desafio. Com alternativas em mesa é preciso esforço das marcas, designer e entusiastas para questionar a melhor forma de se trabalhar recursos, visando um panorama muito mais amplo que a matéria-prima.

Circularidade e descarte são talvez as palavras-chave mais importante deste momento. E, para desmembrarmos algumas soluções que são colocadas em prática – tanto pelo Brasil, quanto na Alemanha – no dia 20 de agosto teremos a palestra “Negócios do amanhã: sustentabilidade como saída para um mercado em crise”. Eu e Ly Takai vamos usar um report feito durante a NeoNyt para interpretar soluções possíveis dentro da nossa realidade de recursos, a partir de um ponto de vista estratégico.

Se você quer saber mais sobre o assunto ou discutir as iniciativas da sua marca com a gente, as inscrições podem ser feitas pelo link: http://bit.ly/negóciosdoamanhã.

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