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Entrevista exclusiva com Francisca Vieira, CEO da Natural Cotton Color

21 de agosto de 2018 - 10h54
Por Even More

Em Curitiba para o Fórum de Sustentabilidade e Governança, Francisca Vieira integrará nesta tarde (21) o painel “Tendências em Sustentabilidade”. A CEO da marca Natural Cotton Color, fará parte da sétima edição do evento que tem como tema central “Estratégias que impactam negócios e norteiam o amanhã”.

Apresentar o case da marca paraibana é trazer à tona a discussão de boas práticas que estão impactando negócios e impulsionando a inovação para diferentes setores da economia, inclusive o da moda – uma das indústrias mais poluentes do mundo (há estudos que apontam estar em 5º lugar, sem confirmação).

Leia também: Ações positivas em cadeia trazem sustentabilidade real para moda

Criada em 1995, desde 2005 a Natural Cotton Color trabalha estritamente com produtos desenvolvidos com algodão orgânico colorido para os setores de moda e decoração. Seguindo a cadeia produtiva do grupo há desde a plantação do algodão, tecelagens, artesãos, costureiras, estilistas e designers em associações. A organização da empresa bem como a matéria-prima fecham um ciclo produtivo que elimina etapas e contribui para reduzir o impacto ambiental e social do grupo.

Confira nossa entrevista exclusiva:

foto reprodução

Como começou a relação da Natural Cotton Color com o algodão colorido orgânico?

Eu sempre namorei o algodão, por conta das minhas alergias. Por isso sempre fui mais próxima das fibras naturais. E no começo dos anos 2000 via que com a importação da China, minha marca que era streetwear ia sofrer, então comecei a pesquisar. Esse algodão colorido teve um começo controverso. O desenvolvimento estava amarrado com um grupo político, o projeto inicial não se sustentou e começou a ter excedente, e nós tivemos acesso a esses excedentes. Não era para termos esse acesso e eu mesma fui autora de todas as denúncias feitas no Ministério da Agricultura, Embrapa e do próprio Governo do Estado. Quando eu fiz essa denúncia, mudou o Governo e eles começaram a olhar com mais atenção para a situação e com isso conseguimos tirar o cartel que havia lá dentro e democratizar o algodão.

E porque decidiu sair só da confecção e formar o grupo que percorre toda a cadeia de beneficiamento da fibra?

Eu percebia que o Brasil estava muito preocupado com a produção de matéria-prima e o beneficiamento, fiação e tecelagem, desse material era feito fora. Então o valor todo é agregado lá fora. Hoje, com a venda do tecido pronto, todo o dinheiro vai para a cadeia que está lá na Paraíba. É o que a gente chama de deixar o dinheiro aqui no Brasil. Não podemos deixar morrer nossa cadeia produtiva em outras fibras. Cadê as fiações? Tecelagens? Esse país é um contrassenso no setor têxtil. O professor Mário Queiroz já dizia “o setor têxtil brasileiro virou um dinossauro”. Ao invés de acompanhar as demandas da moda, as empresas estão interessadas em produzir toneladas de matéria-prima sem valor agregado, para depois importar novamente. E isso dificulta os modelos sustentáveis de negócio, além de deixar o dinheiro fora do país.

Dentro da questão da sustentabilidade, como você vê o mercado interno brasileiro hoje?

Eu acho que, no Brasil, ainda falta muita conscientização. E nós temos dois problemas: a falta de cultura e informação do pessoal jovem, que não liga para sustentabilidade; e a falta de vontade da classe média que tem poder de compra. Essas pessoas estão mais interessadas em importar a cultura de fora, do que valorizar o que é feito por aqui, com a nossa cultura. É uma inversão total de valores. E a gente sabe que isso não é uma realidade fora daqui, principalmente na Europa. Portugal, por exemplo, é um país que se reergueu valorizando a produção interna, a camiseta de souvenir de Portugal não é da China.

Isso é muito grave, é uma coisa de país de terceiro mundo e uma dificuldade grande que temos com o mercado brasileiro. Nossa esperança é que a mídia hoje cuida desses temas, de sustentabilidade e produção nacional, e é com isso que começamos a transformar esse pensamento.

E fora o mercado interno, que outro tipo de resistência você acredita que exista para que mais marcas sigam num caminho sustentável?

Eu nem sei se é resistência, eu acho que é dificuldade mesmo, de matéria-prima, de tudo. Não temos, por exemplo, viscoses com certificado de procedência. A Turquia está fazendo viscose limpa, já mudaram os moldes de produção desse tecido que é altamente poluente. E mesmo que seja produzida aqui de forma limpa, precisa mandar de avião para outro país para beneficiar e já aumenta a pegada de carbono. Nossa cadeia na NCC, até a peça acabar, tem uma pegada de carbono minúscula, porque nosso raio é de 120km. É insignificante quando pensado, por exemplo, na seda que tem uma produção limpa, sustentável, mas precisa ir para o outro lado do mundo para importar novamente, imagina aí o que ficou no caminho. Quando você olha pelo lado da sustentabilidade a dificuldade está em tudo. Por exemplo, investimento em tintas vegetais, cadê os projetos? A Flávia Aranha está avançadíssima, cadê os apoios àquela menina? Era para empresas estarem investindo naquela menina, porque vão precisar dela daqui 10 anos. Falta pensamento a longo prazo. É o vício de vender o almoço para comprar o jantar, daí não vai para frente.

E que conselho você daria para marcas que querem começar a trilhar este caminho?

Quem não está investindo na sustentabilidade a longo prazo terá um custo muito mais alto no futuro, financeiro mesmo. As confecções precisam se perguntar: o que eu vou fazer pelo meio ambiente? Se ela não tiver essa resposta ela não tem nem como começar.

Natural Cotton Color

O grupo, gerenciado por Francisca, hoje adentra ao mercado internacional pela categoria Sustainable Luxury (Luxo Sustentável) em mais de 10 países como Japão, EUA, Canadá, Alemanha, França, Arábia Saudita.

Com design contemporâneo, os aviamentos e acessórios feitos por artesãos da região Nordeste do Brasil, e a marca incorpora o trabalho manual como forma de aumentar o valor agregado, tendo em vista sempre práticas de fair trade para oferecer um produto ético.

Pelo Brasil, o tecido criado pela NCC já subiu às passarelas pelas criações de estilistas como Flávia Aranha e João Pimenta. Desde 2015, eles também atendem o consumidor final pelo e-commerce da NCC Ecobrands, e escrevem sobre slow fashion, sustentabilidade e mais pelo blog: www.ecofriendlycotton.com.br

Serviço:

Fórum Sustentabilidade & Governança
21 e 22 de agosto
Auditório da FAE – Curitiba/PR
Inscrições: www.sustentabilidadegovernanca.com.br
E-mail: forum@stcp.com.br

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