Moda sustentável chega ao G7 com iniciativa Fashion Pact de Macron


O presidente francês apresentou no encontro em Biarritiz, pela primeira vez, seu programa que já conta com 150 marcas signatárias.

por Carmela Scarpi

No início da última semana, as reuniões do G7 em Biarritiz na França (24-26 de agosto) tiveram um interesse especial para aqueles que trabalham na transformação da indústria da moda. O presidente francês, Emmanuel Macron, apresentou pela primeira vez o Fashion Pact, um documento que reúne metas e objetivos pelos quais o segmento poderá trabalhar para reduzir seu impacto ambiental.

O ano de 2019 já havia marcado o comprometimento francês com as mudanças do setor, quando em janeiro foi anunciado a Paris Good Fashion, iniciativa com o objetivo de tornar a capital francesa, a capital da moda sustentável até 2024 – ano em que a cidade receberá os Jogos Olímpicos. Mas, dessa vez, o objetivo extrapola fronteiras e, segundo Macron, já reúne assinatura de 32 empresas, que detém cerca de 150 marcas.

Há pelo menos três meses, o CEO do grupo Kering (um dos maiores grupos de marcas de luxo do mundo), François-Henri Pinault anunciou que teria sido convidado por Macron para criar uma coalizão de marcas no Copenhagen Fashion Summit e estabelecer esses objetivos. Adidas, Burberry, Chanel, H&M, Gap, Inditex (Zara, Mango, Bershka, etc), Nike, Nordstrom, Prada, Kering (Gucci, Yves St Laurent, Balenciaga, etc), Puma, PVH (Calvin Klein, Tommy Hilfiger, etc) e a referência no tema, Stella McCartney, são apenas alguns dos nomes que compõem a extensa lista.

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Primeira iniciativa com esta magnitude a reunir nomes até então vistos como concorrentes, o Fashion Pact chama a atenção pelo princípio de colaboração. “Apesar do que estamos fazendo [para reduzir o impacto da Kering], as coisas não estão mudando. Nós realmente precisamos definir metas juntos. O primeiro estágio é escolher três ou quatro objetivos que são a principal prioridade do setor e nos comprometer a trabalharmos juntos para encontrar soluções. Estou [confiante] de que alcançaremos um nível que nenhum de nós poderia alcançar trabalhando sozinhos”, revelou Pinault em entrevista à Vogue Americana.

Presidente da França, Emmanuel Macron, apresentou a iniciativa Fashion Pact durante as reuniões do G7 que também discutiram as queimadas na Amazônia e mudanças climáticas num âmbito geral (reprodução – REUTERS/Philippe Wojazer)

3 pilares, objetivos claros

Esses objetivos foram, portanto, traçados a partir de perspectivas com respaldo científico em três diferentes áreas. A primeira delas, e tema amplamente debatido nas reuniões do G7, são as mudanças climáticas. O objetivo neste âmbito é reduzir à zero a emissão de gases do efeito estufa até 2050, com fim de manter o aquecimento global abaixo de 1,5 graus Celsius até 2100. Em segundo, vem a biodiversidade, que traz como foco ações positivas na restauração de ecossistemas naturais e a proteção de espécies. Por último, os oceanos vêm elencados no documento especialmente pela redução da utilização de plásticos descartáveis e de uso único na moda.

Em diferentes momentos na trajetória de engajamento ambiental, as metas podem significar investimentos e mudanças drásticas nas operações de diversos nomes da lista. Como exemplo, Stela McCartney já tem uma dianteira em soluções para a diminuição da entrada de plásticos nas suas criações, com utilização de poliéster reciclado, além do upcycling e aproveitamento de sobras de produção para novas coleções – o que diminui a emissão de gases em relação à utilização frequente de novos tecidos.

Campanha de julho/19 de Stella McCartney trouxe à frente da coleção de inverno o grupo ativista ambiental Extinction Rebellion (reprodução/ Stella McCartney)

Vemos também uma corrida dos grupos de fast-fashion para cumprir pautas mais alinhadas à redução de impactos ambientais como, por exemplo, o report da Zara com os objetivos até 2050 na utilização prioritária de tecidos orgânicos, estímulo à reciclagem com desenvolvimento de uma cadeia circular e ecossuficiência das lojas com redução do consumo de água.

Se ainda houver tempo, é suficiente?

Por promissores que os objetivos pareçam, e devam ser celebrados, resta, contudo, a crescente desconfiança quanto a efetividade do projeto. A primeira questão levantada por múltiplas plataformas na internet, logo após o anúncio de Macron, foi justamente relacionado ao tempo. 2050 parece um prazo não razoável frente, inclusive, às queimadas que ocorrem na Amazônia – uma das pautas do próprio G7. Com alternativas já disponíveis, por exemplo, de eliminação de plásticos de uso único é desconcertante pensar na necessidade de uma projeção tão longa para mudança (no documento há previsão de eliminar a uso até 2030 tanto em empresas B2B como B2C)

Além disso, a passagem do documento que transfere às marcas a escolha “de ações apropriadas dentre as possibilidades listadas como exemplos abaixo de cada compromisso, para atingir os objetivos definidos no Pacto”, criou uma ambiguidade em relação à obrigatoriedade e efetiva vinculação ao documento. Segundo Sienna Somers, coordenadora de políticas e pesquisas do movimento mundial Fashion Revolution: “Essencialmente, isso significa que o conteúdo do Pacto não é vinculativo ou não obrigatório, apenas sugestões. Nós, como cidadãos, precisamos responsabilizar as marcas por seus compromissos; caso contrário, essas declarações, pactos e contratos são simplesmente green washing. Também precisamos exigir legislação para responsabilizar essas marcas (e as marcas que não fazem nada), pois esse tipo de protocolo não vinculativo permite que o setor se autorregule”.

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E, claro, não podemos deixar de lado a questão que, por aqui, sempre apontamos diante de cada iniciativa nova sobre redução de impacto: o quanto as medidas aplicadas tocam na questão central que nos trouxe até aqui, que é justamente a produção de mais produtos, marcas e ansiedade de consumo do que podemos suportar. Esperamos que as medidas do Fashion Pact sejam eficientes no que se propõem, mas que sejam encaradas com o fator emergencial que têm. Não é como se estivéssemos discutindo ainda o problema em si, mas as consequências dele.

Precisamos primeiro tentar evitar o pior, mas sem esquecer que só isso não é o suficiente. Discutir consumo e modelo de produção fast-fashion ainda será a única alternativa para lidar com o que enfrentamos hoje. “As marcas não querem falar sobre superprodução, mas isso não é mais aceitável. Se quisermos enfrentar as mudanças climáticas, a moda precisa desacelerar”, alerta Orsola de Castro, co-fundadora do Fashion Revolution.


*A iniciativa Paris Good Fashion teve como ponto de partida um encontro do Institut Français de la Mode em janeiro de 2019, com a presença do vice-prefeito de Paris, Frédéric Hocquard, Anne Hidalgo, responsável pela diversidade cultural e da vida noturna; Antoinette Guhl, adjunta de economia social e solidariedade e a ex-jornalista de moda, Isabelle Lefort.

Num prazo de 5 anos, o projeto pretende reunir players da moda para a colaboração no desenvolvimento de uma indústria mais responsável. A prefeitura de Paris, o Institut Français de la Mode, a Fédération de la Haute Couture et de la Mode, a plataforma Eyes on Talent, a fundação Ellen McArthur  e a incubadora Les Ateliers de Paris integram a iniciativa, que conta ainda com o apoio do grupo LVMH e da Galeries Lafayette.

 

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