Marcas independentes navegam para se adaptarem às mudanças nas semanas de moda


GIF linha final Projeto Estufa, SPFW n48 via Metrópole

Há algumas semanas o Even More escreveu uma matéria sobre a nova organização do calendário nacional e a digitalização das semanas de moda, devido à pandemia do novo Coronavírus. 

Após a publicação da matéria, que você pode ler clicando aqui, algumas delas deram mais informações sobre como acontecerão os eventos futuros. O São Paulo Fashion Week, que precisou adiar a edição comemorativa que aconteceria em abril, confirmou programação totalmente online entre os dias 04 e 08 de Novembro. Indo contra a maré das outras semanas de moda nacionais, o evento chegou a anunciar uma edição híbrida, que consistiria no formato físico com convidados reduzidos e também abordagens no digital. Após o anúncio, a produção repensou e deixou a comemoração dos 25 anos para o próximo ano. A edição de novembro consistirá em conteúdos históricos e inéditos, amplificados pelas redes e compartilhados em projeções na grande São Paulo.*

Já a Casa de Criadores teve a 46ª edição adiada para 26 a 30 de novembro e terá 35 marcas participantes. Gui Amorim, diretor criativo da marca paulistana Estúdio Traça (@estudiotraca), que integra o line up do evento, conta que as principais dificuldades de preparação para o desfile tem sido a procura de novos fornecedores. “Como trabalho com jeanswear, tive uma grande tristeza com lavanderias industriais de 30 anos fechando as portas, parceiros que nos atendiam. Algo muito difícil de se achar, quando se produz pouco”, completa. 

“As maiores [dificuldades] foram encontrar empresas dispostas a colaborar com o projeto, pois a pandemia acabou desestabilizando todos os níveis da indústria”, completa Jorge Feitosa (@jorgefeitosa_jf), estilista a frente de sua marca homônima. Também parte da line da Casa de Criadores, Jorge revela que o estudo sobre a coleção começou em maio. “Atualmente estou na fase de pré-produção, produzindo e organizando o material que utilizarei no vídeo que será apresentado”. O projeto para o evento conta com a colaboração da Oficina Santista Jeanswear, que dará acesso aos processos de desenvolvimento da coleção para os participantes da oficina, além de uma consultoria individualizada.

Editorial Coleção “#DEZemCAPSULAR” (Reprodução/Jorge Feitosa/ foto: Lud Lower)

Diego Malicheski, diretor criativo da marca curitibana Rocio Canvas (@rociocanvas), também está em preparativos para a edição da Casa de Criadores, mas ainda incerto sobre o formato de apresentação. Das conversas, muitas, com criativos e marcas independentes do Brasil, o consenso aparece quando o tópico “reavaliação do formato tradicional de semanas de moda” chega à conversa. 

“A pandemia acabou desestabilizando todos os níveis da indústria.”

“É preciso repensar o modelo de apresentação e mantê-la imersiva, mesmo dentro das limitações atuais” , afirma Ana Luísa, estilista da marca ALUF (@aluf_____).

A nova era de independência das marcas

“Cada um sede às “pressões” até onde lhes convém. Acredito, ou gosto de acreditar, que esta mudança de calendário reflete e influencia uma mudança de mentalidade das marcas de acreditarem e criarem sua própria autonomia de calendário”. Ana Luísa se refere às mudanças de calendário do varejo propostas pela ABEST, no final de Abril. A associação questionou a periodicidade de lançamentos e também as datas em que as marcas realizam as promoções anualmente. Acredito que questionar calendários e modelos pré-estabelecidos pelo formato antigo do varejo seja essencial, não somente agora”, completa Ana.

Com a pandemia e o cancelamento das semanas de moda do primeiro semestre, muitas marcas lançaram suas coleções digitalmente em projetos individuais, dando início à uma certa independência do calendário de varejo e de certa forma também das semanas de moda. 

Para Diego Malicheski a pandemia evidenciou a forma como as marcas, principalmente as pequenas, acabam cedendo à essas pressões. “Quando a gente é pequeno devemos nos preocupar com o que a gente investe e naquilo que almejamos de retorno, pois é muito fácil se endividar (falando bem à grosso modo) e criar contas que não cabem na sua estrutura”, comenta o estilista. “A Rocio sempre esteve no calendário, sempre quisemos estar no calendário, mas acabei percebendo, que por ainda ser pequeno, às vezes não precisamos ir com muita sede ao pote”, completa.

Além do e-commerce online, a Rocio Canvas possuí venda na loja de multimarcas digital Shop2Gether. (Reprodução/Rocio Canvas/ foto: Angélica Bucci)

Ana Luísa da ALUF acredita que essas mudanças refletem uma necessidade do próprio mercado e, assim como Diego, também enxerga uma vantagem para as marcas menores. “Para as marcas pequenas e médias, que tentam seguir a velocidade do mercado, o calendário novo pode sim, ser um alívio momentâneo”, conta.

Para outras marcas, como a de Jorge Feitosa, essas mudanças de calendário não trouxeram muitas surpresas. A marca trabalha com foco no varejo e possui produção enxuta e sob encomenda, por isso não segue muitas datas tradicionais. “Apesar de participar desde final de 2018 da Casa de Criadores, nossos desfiles nunca foram pensados como “lançamento dessa ou daquela estação”, completa Jorge. 

Gui Amorim segue o mesmo raciocínio pela Estúdio Traça em relação aos lançamentos de coleções. Ao invés de 2 coleções anuais, como é de costume da marca, este ano apenas uma foi projetada com lançamentos pontuais e pré-venda. “Somos uma marca pequena, não acompanhamos os calendários como as grandes marcas e estamos em algumas multimarcas que também acompanham esse ritmo de produção mais slow”, conta.

As adaptações ao digital impostas pela pandemia

Mas se as vantagens competitivas em relação à produção são uma realidade, nem sempre os pontos de contato com o público, o são. Com o fechamento do comércio não essencial a partir de meados de março, a adaptação para o digital foi o real desafio para algumas marcas que não estavam preparadas.

A boa notícia é que, segundo pesquisas, a alta nas vendas online continuará mesmo após a flexibilização e abertura do varejo físico. O relatório “Setores do E-commerce no Brasil” realizado pela consultoria Conversion, constatou que as vendas digitais continuam em alta mesmo após a reabertura do comércio. Segundo a pesquisa, o mês de julho deste ano teve alta de 25% nas vendas online, se tornando o terceiro maior mês de toda a história do Brasil em vendas por e-commerce.

“Como consequência da pandemia ficamos sem o nosso único ponto de vendas físico fora do ateliê e tivemos que pensar estratégias e ações relacionadas ao digital”, comenta Jorge Feitosa. “A dificuldade maior é ter que começar uma nova atuação a partir do Instagram e pelo nosso site, tendo que se adaptar a esse novo universo para a marca, já que até então praticamente 100% das nossas vendas eram geradas a partir do contato presencial do cliente”, completa.

Para a marca Estúdio Traça, que produz peças sob demanda e já estava adaptada ao online, a segunda maior dificuldade depois de ter que modificar a comunicação digital da marca, foi a demora de postagem dos correios. “O prazo de postagem nos correios aumentou para 5 dias, o que às vezes pode dificultar a compra, pois muitas pessoas querem numa data específica , mesmo em quarentena.”, completa Gui Amorim.

Enquanto isso, a Rocio Canvas enxerga esse momento como uma oportunidade de rever o plano de negócios. “A adaptação para o online era uma coisa que a gente já estava pensando e que já era falada e acho que tem sido bom de certa forma. […] A captação de novos clientes talvez esteja sendo uma dificuldade, mas estamos nos adaptando.”, conta Diego Malicheski. Neste sentido, as novas abordagens digitais de semanas de moda que esperamos para acompanhar, podem ser uma alternativa de alcance além do físico para o nicho. Mas isso o tempo dirá. 

*O Even More entrou em contato com a assessoria do SPFW, mas não conseguiu maiores informações sobre o evento.

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