Iniciativas de reinserção de resíduos amenizam o impacto da cadeia pulverizada da moda


Iniciativas como logística reversa, upcycling e reciclagem na moda reafirmam a importância da indústria projetar peças para reinserção da própria cadeia.

Toneladas de peças de vestuário chegam até os aterros todos os anos. Se antes as empresas se preocupavam em ter ações sustentáveis apenas na hora da produção, hoje elas precisam também saber para onde as peças estão indo após o consumo.

A logística reversa tem como propósito diminuir os impactos de resíduos no meio ambiente. Grandes varejistas globais como a L’Oréal, Unilever e Coca-Cola já tomam essas iniciativas onde, após serem usados pelo consumidor, os produtos são recuperados, tratados e reinseridos novamente na produção. Além do benefício financeiro com práticas como essa, a empresa também reforça aos consumidores de que está reduzindo o desperdício e se preocupa com os danos ao meio ambiente.

Leia também: NeoNyt, sustentabilidade pensada para além da matéria-prima

E enquanto não temos um botão de reset para mudar de vez o consumo e a produção têxtil, iniciativas surgem para tentar amenizar esse problema na Indústria da Moda. Apenas no Brasil, de acordo com o ABIT – Associação Brasileira de Indústria Têxtil e de Confecção, em 2017 foram confeccionadas 8,9 bilhões de peças. Como então reintroduzir o descarte dessa produção sem que ele acabe virando mais resíduo têxtil?

Quando o resíduo se transforma em valor compartilhado

A Retalhar surgiu a partir da implantação de um setor de sustentabilidade em uma confecção de uniformes profissionais de São Paulo. Após a percepção da real demanda dos resíduos têxteis em toda a cadeia, Lucas Corvacho e Jonas Lessa transformaram juntos o projeto em um empreendimento oficialmente em 2014: ”[…] percebemos a complexidade e extensão do problema envolvendo os resíduos têxteis e decidimos empreender de forma a criar um processo ambientalmente correto para a gestão destes resíduos, de forma a criar oportunidades e agregar valor social à iniciativa.”  Jonas Lessa, um dos idealizadores da Retalhar.

Hoje a empresa atua prestando serviços às empresas que geram resíduos e queiram dar uma destinação correta a eles. Segundo Jonas, cada caso é tratado de forma diferenciada: “Aqueles que queiram dar uma destinação correta, segura e socialmente inclusiva aos uniformes em desuso devem procurar a Retalhar para compreendermos a demanda e apresentarmos a alternativa mais apropriada para cada caso.“ 

Com 5 anos de história a Retalhar já superou a marca de 100 toneladas de uniformes reaproveitados, o equivalente à mais de 300 mil peças de roupas, e hoje trabalha com uma média de 5 toneladas mensalmente. Segundo Jonas os resíduos que chegam até a Retalhar podem seguir diversos caminhos: podem se transformar em cobertores populares ou até novos tecidos por meio da reciclagem ou então por meio da reutilização se transformar em novos itens. A produção dos cobertores ou de novos produtos é feita com projetos de upcycling que a Retalhar possui com grupos de costureiras da periferia da grande São Paulo. A maior escala de reaproveitamento se obtém do setor automotivo, mas ainda existe a rejeição: “Infelizmente, ainda temos uma pequena taxa de rejeito – material que não pode ser reaproveitado e é encaminhado ao co-processamento, considerada inclusive pela lei como a melhor alternativa quando impossível a reciclagem do material.”, nos conta Jonas Lessa.

Em sua cartela de clientes a Retalhar possui empresas como LaTam, FedEx, Leroy Merlin, Unimed, C&A, Itaú e um de seus princípios é garantir a segurança de seus processos para que as peças não sejam extraviadas e não caiam nas mãos de pessoas descompromissadas com a reputação da marca dos clientes. Outra garantia oferecida é o chamado “Certificado Triplo” que garante que todo o material passou pelo processo de manufatura reversa e descaracterização (segurança à marca), gerou renda para trabalhadores em situação de vulnerabilidade social e gerou impacto ambiental positivo.

O movimento chegou na fast fashion

Um dos maiores varejos de moda no Brasil, a C&A iniciou o movimento ReCiclo há dois anos com o objetivo de oferecer aos clientes, e qualquer interessado, uma alternativa para o descarte das peças de roupas que por algum motivo não são mais úteis. O único critério é que as peças estejam higienizadas. “Trata-se de uma iniciativa conectada a um dos compromissos da nossa Plataforma Global de Sustentabilidade, de impulsionar a economia circular na C&A”, conta a empresa.

 

 

O Movimento ReCiclo conta com a parceria da Retalhar para a desfibração das pecas sem condições de uso. (Reprodução/C&A).

A coleta de peças da C&A começou em 2012 na Holanda e hoje também está disponível em países como Alemanha, Bélgica, Espanha, México, Portugal entre outros. No Brasil, o Movimento ReCiclo está em mais de 140 lojas da C&A espalhadas por todos os estados. As peças coletadas em boas condições são encaminhadas para o Centro Social Carisma e as peças sem condições de uso são encaminhadas para a Retalhar, onde passam por um processo de desfibração, tornando-se matéria-prima para outras indústrias. Segundo a C&A, a administração da logística reversa numa escala grande como a produção de uma fast-fashion pode ser feita com o apoio de diversos parceiros: “[…] aproveitamos a própria logística de entrega de produtos para o retorno das peças do Movimento ReCiclo, que são entregues em nosso Centro de Distribuição para triagem e posteriormente encaminhar aos parceiros.” 

Leia também: Festa-fashion sustentável e o crescimento de 800% do lixo têxtil

Por enquanto, a C&A não possui nenhum projeto para fechar o ciclo e trazer o reaproveitamento desse resíduo pós-consumo dentro da própria empresa, seja com iniciativas de upcycling ou de design, mas garante que o Movimento ReCiclo está expandindo gradativamente e estará disponível em cada vez mais lojas: “Atualmente cerca de 70% das peças estão em boas condições e são encaminhadas para reuso, o que entendemos como um resultado positivo, pela oportunidade de prolongar a vida útil das peças. Com os 30 % que não tem condições de uso, acreditamos que há oportunidades, mas entendemos que encaminhar para desfibração e tornar insumo para novas matérias-primas já é um bom começo”.

Os clientes que quiserem participar do Movimento ReCiclo podem depositar as peças nas urnas espalhadas pelas lojas C&A no Brasil. (Reprodução/C&A)

De acordo com dados da C&A, apenas em 2018 foram arrecadados 2.630 kg de itens, o equivalente à 14.256 peças. Desde 2017, mais de 36 mil peças foram encaminhadas aos parceiros do Movimento ReCiclo. Os meios para comunicar os clientes do projeto se dão através das urnas disponibilizadas nas lojas físicas – onde as peças podem ser depositadas -, além de uma página especial online dedicada à iniciativa A marca também realiza engajamento com os funcionários via treinamentos, visitas nas lojas e divulgação de comunicados para que a informação do projeto chegue de forma clara ao consumidor. “Sabemos que se trata de uma jornada e que já começamos essa construção, mas ainda vem muito mais pela frente, pois nosso grande objetivo é fazer uma moda com impacto positivo”.

No Rio de Janeiro outra iniciativa

E das diversas escalas possíveis para a reinserção dos resíduos na própria indústria, a carioca Think Blue é um exemplo de empresa que emprega os princípios da economia circular através do resgate de jeans para a realização do upcycling. A marca encontra maneiras de prolongar a vida útil do material transformando peças existentes em novos produtos. A loja online possui um campo especial, onde o consumidor pode fazer a logística reversa enviando produtos jeans para serem reutilizados. “Apesar de recebermos poucas peças, não temos nenhum critério. […] Nosso objetivo é sempre que possível pegar calças sem elastano e 100% algodão, mas não tem critério, a calça pode estar em qualquer estado, com algumas manchas em lugares pontuais ou rasgos e furos. No fim eu me preocupo mais com a qualidade do tecido.”, nos conta Mirella Rodrigues, designer da marca.

Leia também: Economia circular e uso acima de propriedade são apostas da holandesa Mud Jeans

As clientes que enviam peças podem receber um desconto de 5% na compra de uma peça nova da marca. No entanto, Mirella confirma que a maioria das peças são garimpadas em brechós beneficentes em igrejas, centros espiritas ou Instituições que ajudam pessoas carentes da Zona Norte do Rio de Janeiro. Os garimpos acontecem em locais beneficentes para garantir que o dinheiro pago nas peças seja revertido em alguma causa social. “A cliente também tem a opção de doar as peças em alguma das feiras que participamos, mas essa não é nossa maior fonte, já que a maioria das peças que recebemos contém elastano ou possuem modelagem slim e aí não conseguimos trabalhar nelas”.

A produção da Think Blue é feita a partir de jeans resgatados em bazares beneficentes do Rio de Janeiro. (Reprodução/Instagram Think Blue).

Pensando mais a fundo

Iniciativas como a Think Blue e a Retalhar, no entanto, não são capazes – e nem são obrigadas – de absorver todo o excedente da Indústria têxtil. Para Jonas Lessa, falta na sociedade uma visão ampla e um entendimento maior sobre a economia como um instrumento de regulação entre sociedade e o meio ambiente. “Isso permitirá decisões racionais acerca de modelagens, materiais, custos, preços e práticas junto a clientes e fornecedores. O lixo é um erro de design, então a conscientização dos profissionais deste segmento é urgente e deve ser levada a sério”, explica.

Assim como Jonas, Mirella acredita que um dos meios para se reduzir a produção de resíduos é tendo mais atenção na hora do design da coleção, desde o uso de ferramentas que fazem modelagens “zero waste” até a diminuição da quantidade de produção, além do uso de peças atemporais serem cada vez mais necessárias: “É um problema de planejamento de coleção, resíduos e também da quantidade de produção que precisa diminuir.”

 

foto de capa: Reprodução/Retalhar

Previous Conversamos com Ligia Baleeiro sobre pensar o estilo para mudar o consumo
Next Marcas de maquiagem natural oferecem redução de impacto em toda a cadeia

No Comment

Leave a reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *