Iniciativas acessibilizam de forma simples a transformação sustentável para marcas brasileiras


Conversamos com diversas iniciativas brasileiras que têm como intuito tornar simples o acesso às informações teóricas e práticas para te ajudar a transformar o mercado brasileiros

Muito se fala sobre a necessidade de mudança, ao mesmo tempo em que a maioria das marcas não entende necessariamente por onde começar. Se a redução de impacto na indústria da moda como um todo é o assunto do ano de 2019, nada mais importante que apontar os caminhos pelos quais é possível percorrer, sem grandes budgets de investimento em inovação e tecnologia.

Para atender a uma demanda crescente, a Abit (Associação Brasileira de Indústria Têxtil) criou em 2017 um núcleo para debate exclusivo de pautas sobre sustentabilidade e inovação nos setores têxteis e de confecção. A intenção, segundo a responsável pelas reuniões, Luiza Lorenzetti, é gerar conteúdo e troca de experiências entre marcas, empresas e iniciativas possibilitando o desenvolvimento conjunto enquanto trabalham uma imagem mais positiva do setor.

Grupos de discussão

“Desde seu surgimento, foram organizados 12 encontros, nos quais se discutiram diversos assuntos, desde inovação em materiais às mudanças que serão provocadas pela nova tendência de consumo, sob o foco da economia do compartilhamento e circularidade”, explica Luiza. Com grande número de participantes já munidos com certificações conforme o perfil de mercado, a corrida por essas validações também já foi apontada como consequência de uma tendência mundial na busca pela transparência e o comércio justo.

Apesar não configurar uma pessoa jurídica institucionalizada, nem uma plataforma impulsionadora (pelo menos não neste momento); as reuniões do Núcleo de Sustentabilidade e Inovação da Abit permitem que seus participantes cruzem informações externas com a experiências individuais dentro de diversos níveis de atuação do setor.

“As empresas estão não somente buscando conhecimento de maneira “remota”, mas também procurando participar de diversos fóruns que abordam temas ligados a práticas sustentáveis e à inovação no setor. Com esse movimento e com a troca de vivências e informações que esses espaços possibilitam, começaremos a ver cada vez mais empresas se destacando nesse cenário”, aposta.

imagem reprodução

Plataformas digitais

E se em grupos há possibilidade de debates, hoje, a internet tem permitido o surgimento de plataformas que impulsionem de maneira simples os caminhos para sustentabilidade. O Moda Limpa surgiu em 2016 deste espírito de colaboração. “A Marina [de Luca] postou no Facebook uma planilha com todos os contatos de fornecedores sustentáveis que ela conhecia. Várias pessoas passaram, então, a adicionar contatos de outros fornecedores e a lista foi crescendo de forma orgânica”, lembra Kaio Freitas, parceiro do projeto com Marina.

Hoje o site, que era fruto de um template pronto, ganhou novos filtros, estrutura e nome: Modaly. Por lá, é possível ter acesso a uma lista de empresas que operam por pilares de redução de impacto, e há nomes em toda a cadeia produtiva. A navegação é facilitada por diversos filtros que direcionam as necessidades de quem pesquisa. São mais de 450 marcas e empresas, além do conteúdo gerado pelas “Coleções” que organizam as buscas mais citadas como: estamparias digitais, fornecedores de algodão orgânico e cooperativas de costura.

Para manter a fiscalização, Kaio diz que o projeto colaborativo usava a avaliação da própria comunidade no início. “Atualmente oferecemos um plano de assinatura mensal (R$39,00) para empresas interessadas em se tornarem ‘Empresas Verificadas’ e desfrutarem de mais funcionalidades, como prioridade nas buscas, catálogo de produtos, mensagens diretamente pela plataforma, entre outros”, explica.

Para entrar neste rol, a empresa interessada deve enviar sua documentação para análise e responder a um questionário se comprometendo com veracidade das respostas. É possível também anexar em seu perfil certificações de outras organizações. “Mas é importante ressaltar que hoje o Modaly não atua como uma certificadora e nem audita as empresas cadastradas, somos apenas uma plataforma de conexão e transparência na moda”, lembra.

E foi na onda de criar lugares em que pessoas e empresas encontrem respostas de forma independente, que o Programa Texbrasil (mantido por convênio da Abit e da Apex Brasil), criou o Tex Index. A plataforma integra um autodiagnostico de avaliação de práticas em sustentabilidade. “Com essa ferramenta, empresas brasileiras do setor têxtil e de confecção podem descobrir seu nível de maturidade e traçar planos de ação, visando a melhorias nas áreas de governança, meio ambiente e responsabilidade social”, explica Luiza.

Além de promover uma avaliação instantânea que auxilia no direcionamento de ações, a plataforma também recolhe dados importantes para a análise do mercado brasileiro em termos de sustentabilidade hoje. “Quanto mais empresas preencherem, maior será nosso entendimento sobre o nível geral de maturidade em práticas de sustentabilidade do setor”, diz Luiza que ressalta não existir ainda uma massa crítica suficiente para criar algum dado sobre mapeamento de marcas ou mesmo dos impactos de ações sustentáveis no setor de confecção brasileira.

foto reprodução/ @_modaly

No ensino é que está a verdadeira revolução

Mas, apesar de importantes, ferramentas de debate e plataformas de análise e suporte para conexão de empresas precisam estar fundamentadas em um novo tipo de conhecimento. Pensando nesse ensino através de uma desconstrução, Marina de Luca (parceira de Kaio no projeto Modaly), migrou o antigo nome “Moda Limpa” para uma formatação de curso, hoje disponível pela Afeto Escola.

“O curso dá um panorama geral, em 4 dias de aula presencial, ou 11 aulas online, sobre os impactos causados pela forma ‘tradicional’ de fazer moda, e quais iniciativas e caminhos mais sustentáveis já existem para serem adotados”, explica. Para ela, existem formatos que podem ser aderidos já de maneira mais imediata pelas empresas, como trabalhar com resíduos no lugar de tecidos virgens, escolher matérias-primas mais sustentáveis, ou seja, adquirir esse conhecimento e fazer boas escolhas; e ainda pensar no ciclo de vida completo do produto – desde escolher o que fazer com seus resíduos à roupa quando não tiver mais uso.

Partir para outros caminhos, segundo Marina, como uma modelagem zero waste já pressupõem mais investimentos em estudos e testes, mas é uma grande chance de inovar no design. Enquanto isso, o tingimento natural ainda configura uma mudança mais difícil a custo baixo e em média ou larga escala. “A própria destinação correta de resíduos para pequenas e médias empresas também não é fácil, e não tem muitas opções ainda”, revela.

Pensando de maneira global, porém, ela crê que a real mudança está no pensamento sobre o trabalho partindo de uma perspectiva de enriquecimento social e coletivo, diferentes de ambições econômicas estabelecidas hoje. Para Marina é preciso aprender a desaprender, em não procurar métodos prontos visto que o mercado tem uma premissa individual muito forte, e não há receitas.

“Estamos vivendo a mudança de paradigma. Diferente de 30 anos atrás, que você chegava no mercado de trabalho e repetia as ações sem questionar, usava as mesmas fórmulas, hoje não temos as respostas. Estamos inventando, e isso é muito legal! Quem sabe daqui a 10 ou 20 anos, a geração que chegar ao mercado de trabalho vai encontrar novas ‘receitas’ de como trabalhar a moda. Ou talvez não, afinal o mundo está mudando tão rápido que talvez a nova forma de trabalhar seja desvendar novas formas o tempo inteiro”. Quem sabe?

Núcleo de Sustentabilidade e Inovação – ABIT:
Para participar não há restrições, exceto ser uma empresa associada direta ou indireta da Abit ou do Sinditêxtil-SP ou, ainda, ser participante do Programa Texbrasil. Ainda não há calendário de 2020 definido.

Modaly:
https://www.moda.ly/
@_modaly

Tex Index:
http://www.texindexbrasil.com.br/Home/Index

Curso Moda Limpa:
Nova turma em dezembro/2019.
Inscrições: https://afetoescola.com.br/moda-limpa-online/
@cursomodalimpa

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