Independência financeira de mulheres pode estar no mercado de Moda


Projetos alinham negócio, moda e empreendedorismo para capacitar mulheres para inserção no mercado de trabalho, desenvolvimento cultural e independência financeira.

Mariana Rosa

A conquista feminina pela independência financeira e o direito do trabalho é significativamente recente. Ainda há muito a se percorrer antes que todas as lacunas criadas pela desigualdade sócio-econômica histórica entre os gêneros sejam preenchidas. Porém, não é novidade histórias de mães, avós ou vizinhas que, por exemplo, costuravam para complementar a renda familiar. O que difere na atualidade, entretanto, é o acesso à capacitação e à informação, que dá a essas mulheres ferramentas para se tornarem empreendedoras de moda e design.

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Em Curitiba existem projetos de moda que, além de serem empresas lucrativas, nasceram com o objetivo de retribuir para a sociedade com educação. Após perder a avó, a quem dedicou dois anos de cuidados, e passar por uma depressão profunda e dificuldades financeiras, Ariane Santos encontrou terapia na confecção de cadernos costurados em tecido. Vendo recuperação, ela resolveu levar o artesanato para mulheres que passavam por situações semelhantes. Assim nasceu a Badu Design (@badudesign), entre o final de 2012 e o início de 2013. “Eu criei a Badu inicialmente com propósito de reconexão das pessoas através da arte. Eu comecei com 3 mulheres, depois foram 10, hoje nós já capacitamos 486 mulheres. Em sua maioria de comunidade, mães de crianças com deficiência e mães que querem ficar em casa para cuidar dos filhos”, conta Ariane.

Ariana santos (Badu Design – reprodução)

Nos anos de atuação, a Badu já foi premiada pelo Instituto Legado, pela Natura, Red Bull e pelo Prêmio Hora de Brilhar da Unilever. Para Ariane, o que move o projeto é a preocupação com as mulheres capacitadas, para que ocorra uma resposta efetiva a longo prazo: “A gente encontrou muitas mulheres que sofreram abuso ou que ainda sofrem. Vimos que o nosso papel é mostrar que com a educação elas têm a possibilidade de mudar o desenvolvimento econômico delas e de suas famílias. Nós queremos que elas se reconheçam enquanto mulheres, enquanto comunidade e que elas se fortaleçam.”

A designer Suelen Matos (@suelenmdesign) compartilha com Ariane a importância da educação para objetivos a longo prazo. Antes mesmo da graduação em design de moda, ela se dedicou a estudar moda como um fenômeno social. “Hoje nós vivemos um cenário político em que a capacitação, a educação e o conhecimento estão sendo bombardeados”, compartilha. Especializada em Africanidades e Cultura Afrobrasileira pela Universidade do Norte do Paraná, desde de 2017 Suelen dá palestras sobre a representação da mulher negra, e oferece oficinas e workshops de design de afrojoias: “quando a gente começa a estudar, quando se tem uma capacitação, não muda só a nossa vida no sentido de ter um ofício, um trabalho prático. Muda a nossa maneira de ver o mundo. E isso é necessário.”

Suelen Matos Design (foto: Ana Paula Martins)

Negócio Social

Mesmo apresentando o objetivo de causar uma transformação ativa na sociedade, negócios sociais devem produzir um produto que o mercado receba. Após a empresa que trabalhava com o marido fechar, Christiane Acerga teve que se reinventar. Mas queria algo que lhe preenchesse além das questões financeiras. Após o primeiro contato com as joias feitas à mão, ela teve a ideia da V.Luxo (@v.luxo) . “Ali eu já sabia que queria montar um negócio que fosse livre, que respeitasse as pessoas e que eu acreditasse. Então eu desenvolvi uma modelagem a partir de uma técnica oriental”

Tendo sua mãe como principal inspiração, Christiane pensou em ensinar mulheres em situação de vulnerabilidade as técnicas da joalheria para confeccionar as peças da marca. Seis meses foram de capacitação do primeiro grupo de mulheres e produção de peças, com remuneração inicial retirada de recursos pessoais da família. Até que em outubro de 2015 a V.Luxo foi inaugurada. “A gente forma as artesãs não para serem fornecedoras, mas para serem autoras de seus caminhos e de suas escolhas. Temos artesã que virou costureira, artesã que virou fotógrafa. Tivemos um homem que foi capacitado pela esposa, de maneira orgânica”, conta.

V.Luxo (foto reprodução)

Além dos produtos confeccionados pela Badu Design, a empresa de Ariane compõe uma rede de atuação para capacitar ainda mais as mulheres participantes do projeto. Em parceria a Aliança Empreendedora, são oferecidas aulas de empreendedorismo para que as alunas possam criar seus próprios negócios. E, caso desejem, elas podem prestar serviços para a Badu. “Para fazer parte da rede, ela tem que ser uma empreendedora, ter o seu CNPJ, prestar notas. Então valorizamos muito o empreendedorismo como uma questão de crescimento para que ela não tenha só a Badu, e que esteja aberta a fazer suas próprias produções”, explica Ariane.

A Badu Design também oferece palestras e workshops e conta com o Espaço Maker no centro de Curitiba, que reúne marcenaria, grafite e costura e é disponível para a locação e eventos.

Resgate Cultural

Mas além da independência financeira, há uma intersecção cultural e racial quando se trata da trabalho feminino. Ao começar pela herança escravista e de já se dedicarem ao trabalho fora do lar há mais tempo, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, desde o início da crise econômica em 2014, mulheres negras são 50% mais suscetíveis ao desemprego do que outros grupos (IPEA, 2018). Em busca de renda, essas mulheres muitas vezes acabam recorrendo ao empreendedorismo, como afirma Suelen que iniciou mestrado em Antropologia Social da UFPR e tem como projeto de pesquisa estudar a ascensão social de mulheres negras que trabalham com moda em Curitiba.

Em sua pesquisa Suelen traçou um paralelo cultural entre o afroempreendedorismo atual, e a realidade negra no Brasil colonial dos séculos XVIII e XIX por meio das afrojoias. As afrojoias crioulas eram acessórios usados por mulheres submetidas ao regime escravocrata que conseguiam comprar suas liberdades. Peças grandes, argolas, contas e braceletes de ouro que as diferenciavam e mostravam que eram libertas e que tinham um mínimo de mobilidade social.

Suelen Matos Design (foto: Ana Paula Martins)

Hoje em dia, Suelen explica que existem as “afrojoias contemporâneas”. Por não exigirem a mesma capacitação técnica para confecção quanto a de uma peça de roupa, elas são de simples manuseio e produção e, mesmo que muito diferentes das afrojoias coloniais, a simbologia por por trás é semelhante. “Quando uma mulher abre um negócio ela quer ter ascensão social, quer poder pagar suas contas. Então a principal ideia da produção dos acessórios é a questão de mobilidade, de independência financeira. De sair do estado de vulnerabilidade. De ocupar um espaço de valor na sociedade. E essa relação de liberdade que associa as joias de hoje e as coloniais”, explica.

Em seus estudos, Suelen percebeu que grande parte dos empreendimentos de moda e design comandados por mulheres negras nas últimas décadas iniciaram por meio dos acessórios. A designer e pesquisadora também se dedica a ministrar oficinas de confecção de afrojoias.

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