Opinião

ID Fashion: olhar único ou único olhar para a moda do Paraná?

03 de outubro de 2018 - 10h56
Por Even More

Na última semana estivemos pelo ID Fashion, quarta edição do que se propõe nosso evento de identidade paranaense no setor de vestuário. Fomos entrevistar Luiz Arruda, diretor do Mindset da WGSN Brasil, plataforma que busca entender e formatar o comportamento de consumo, entre outros nichos, na moda.

Convidado do ID para o talk “O Consumidor do Futuro”, Luiz nos recebeu para falarmos sobre ativismo local, comportamento crescente de grupos ligados à preservação e fomento de culturas regionais, em detrimento de fluxos globalizados, seja por estímulo à economia criativa, ou ações de incentivo àquilo que acontece à nossa volta em conexão com o mundo.

Traduzir (e aqui coloque a perspectiva que quiser) nosso olhar de dentro para fora, nos dá a oportunidade de contar a história através da narrativa de quem vive, não de quem observa. Seguindo este pensamento, era o que estávamos fazendo ali em um evento patrocinado por uma iniciativa do Estado que tem como objetivo, segundo o site, ser “uma vitrine para as marcas paranaenses com identidade própria, além de uma oportunidade rara de estabelecer contato e conhecer a opinião do consumidor final e de especialistas”.

Confira: EMMAG 1D14 – Produzida exclusivamente para o evento ID Fashion 2017

Em sua quarta edição o ID mantém a ideia de ser um evento para aproximação do público. Mas qual público?

reprodução (desfile Transmuta/Gelson Bampi)

Consumidor final e especialistas

Num formato bem mais tímido que os anteriores, a versão 2018 sofreu o êxodo fashion das marcas de maior renome em identidade, que eram comuns às edições anteriores, e apresentou um line-up onde predominavam jovens iniciantes e indústrias de apelo comercial. Um ou outro nome da lista de participantes conseguia carregar a bandeira da identidade da moda do Paraná somada à trajetória como marca que afirmasse a possibilidade comercial.

Nada contra as iniciativas que dão abertura para que novos talentos mostrem seu potencial e produto, é fundamental, mas ter nomes de apelo fashion com tempo de estrada é ainda mais para não transformar o evento em uma curadoria de novos nomes ou apenas um desfile de indústria – afinal, a intenção principal, como diz no site, não é esta. Falar da nossa moda de dentro para fora, é saber equilibrar tradição e inovação para contarmos uma história coesa e com peso. É preciso um equilíbrio na disposição para atrair não apenas o público, mas também imprensa e, em especial, compradores.

E aqui chegamos ao ponto, massivamente, universitários e acadêmicos preenchiam os corredores do evento. Sentimos falta da mistura não apenas no line-up como no evento em si. Raras foram as exceções e queríamos que mais e mais pessoas do nicho, especialistas e comunicadores de fora viessem a Curitiba para entender o conceito do que é feito por aqui. Afinal, como se comunica para fora, o ID é o evento de moda do Paraná em uníssono.

reprodução (backstage Soraya da Piedade/Mel Gabardo)

O alcance de nome

Um evento que fomenta sua comunicação como detentor da identidade de moda paranaense atrai um certo público à armadilha de não entregar uma porcentagem mínima do que caracteriza de fato a moda daqui. E isso passa a impressão, para fora, de que ou somos formados por um mercado laboratório que ainda não comprovou sua validade comercial, ou somos indústria, apenas.

E claro, não falamos sem ciência de todas as dificuldades que envolvem um acontecimento desse porte, e também não achamos que a solução seja criar outros milhões de eventos que diluam essa atenção, mas buscar refletir e construir de forma mais responsável essa visão sobre o ID.

Afinal, o mix de público e expositores é fundamental para criação de uma força que elevará todos em conjunto. Sem desmerecermos de qualquer maneira nenhuma das marcas que participavam desta edição – que brilhantemente apresentaram suas propostas – sentimos falta justamente do empuxo que caminhávamos para conseguir ao longo dos últimos três IDs.

reprodução (desfile Vale da Seda/ Gelson Bampi)

Começamos por um lado, precisamos do outro

Pegando como referência, em paralelo, o Minas Trend, temos um salão de negócio patrocinado pela iniciativa semelhante do Estado de Minas que fomenta e incentiva seu mercado a não só expor características, como a vender e se profissionalizar. O resultado é um setor de moda bem segmentado, um nome fortalecido e a criação de um selo criativo como o da moda em Minas. A estratégia? Pensar em unir os prós do segmento e oferecer atenção a especialistas através de um salão de negócios.

A próxima edição, segundo o site do Minas Trend, quer agora aproximar o público – ponto que nosso ID já realiza muito bem. Colocar a população para conhecer a moda que se faz na região é o próximo passo, mas já com a solidez de mercado conquistada ao longo de 22 edições anteriores. “O que vamos fazer é dar mais acesso ao público geral aos eventos e aos desfiles, para mostrar um pouquinho o que acontece no processo criativo e integrar a moda à sociedade”, diz o presidente da FIEMG, Flávio Roscoe – muito embora a parte de business continue restrita a compradores.

Com Ronaldo Fraga como novo diretor criativo, unem-se as características vibrantes de criação do Estado com o público, justamente o que falávamos com Luiz Arruda em nossa entrevista da última semana. O ativismo local como fomento e manutenção de características únicas de cada perspectiva regional, de falar de dentro para fora. Mas o dentro está bem estabelecido para Minas, é conhecido é visitado e disputado. Se Minas vem construindo o caminho de atrair um público de casa, depois de criar desejo pelo Brasil; nada nos impede de refletir sobre o caminho inverso que se configura para alcançar reconhecimento nacional para a moda do Paraná, ou estaremos fadados a falar apenas com nós mesmos.

por Carmela Scarpi

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