“Acho que o futuro é mais livre, mas que o desfile não vai acabar”, conta Giu Mesquita ao Even More


A jornalista de moda Giuliana Mesquita conversou com a gente sobre como vislumbra o futuro do formato e como resgatar a crítica como algo importante para o mercado.

Chegamos ao final do primeiro mês com temática especial pelo Even More. Um mergulho pelo mar de conteúdo sobre fashion weeks foi nosso primeiro fôlego por aqui. Em meio a tanta informação, quisemos trazer análise e questionamento, para não sermos apenas narradores do nosso tempo. Essa descrição, inclusive, serve à entrevistada que hoje encerra o tema de outubro sobre semanas de moda.

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Giuliana Mesquita, que a gente acha pelas redes como Giu, é a jornalista de moda que integra uma pequena grande revolução em seu tempo – a do resgate das críticas com uma percepção mais intrigada sobre o papel da moda, afinal, nesse mundo. Um nome que assina as mais diversas pautas em grandes veículos como L’officiel, Marie Claire, Revista TPM e Folha de São Paulo, para citar alguns; nos últimos dias decidiu criar o seu próprio.

Foi com a Giusletter – newsletter criada por Giu – que parte da sua audiência na internet se informou sobre desfiles do último SPFW. Pegando esse gancho e o frescor das análises, conversamos com ela sobre afinal, como foi essa edição e como ela enxerga essa transição de discursos nas semanas de moda em um momento tão vibrante como o nosso.

Even More: Essa edição do SPFW veio com muitas ressalvas, um luto ainda pela morte da Tales na edição anterior, uma edição enxuta e uma avalanche de discursos sobre sustentabilidade vindo das semanas internacionais. Numa visão geral, como você acredita que a SPFW da última semana se saiu diante de todo esse movimento e expectativa?

Giuliana Mesquita: Eu acho que tivemos coisas muito legais, apesar de tudo. É difícil porque faz tempo que a SPFW perdeu relevância, a morte do tales foi meio que a gota d’agua. Mudaram o espaço de lugar, o que foi essencial. Os discursos de sustentabilidade vieram escondidos, sem alarde. Quem alardeou, fez um discurso vazio.

EM: A representatividade foi a pauta que mais permeou a mídia que cobria os desfiles. Quais momentos para você foram os mais impactantes dentro desse recorte? E de que forma você acredita que isso possa refletir para fora da semana de moda?

GM: Os momentos mais impactantes com certeza foram o desfile do Isaac, da Amapô, do João Pimenta e da Angela Brito. Esse momento é muito importante para trazer essa relevância de volta. Enquanto a moda era um clubinho fechado, era uma coisa. Hoje, com esses desfiles sendo veiculados na internet, todo mundo tem acesso. E as pessoas não se sentiam representadas por aquela beleza branca eurocêntrica e magra – quase ninguém se sente. Mas também não adianta fazer discurso de inclusão vazio. Fica muito na cara.

EM: Na pauta de sustentabilidade que tanto vimos surgir na temporada internacional, o que você observou dentro da semana de São Paulo? E, qual sua opinião sobre essas demandas sobre sustentabilidade que parecem ter ganhado uma força muito grande sobretudo neste último ano, é possível acreditar na permanência ou eficácia do discurso fora dos holofotes?

A jornalista que assina matérias em diversos veículos grandes do segmento, criou neste mês o seu próprio: Giusletter. (reprodução instagram)

GM: Como eu disse antes, há iniciativas sustentáveis bem legais. A Aluf é um ótimo exemplo, já que usa tecidos recicláveis; a Korshi, que trabalha um guarda-roupa modular e não apresentou nenhuma peça feita do zero na sua passarela; e a Beira, que usou tecidos de estoque e criou um linho tingido que emula jeans.

O que não foi legal foram as marcas que se sentiram na “obrigação” de falar sobre o assunto, mas não de olhar para o próprio umbigo e entender onde está o problema. Uma delas foi a Ellus. A Ellus é um ótimo exemplo do que não fazer quando falamos de sustentabilidade.

EM: Viemos de um momento de saturação do modelo desfile, e hoje vemos marcas reafirmando seus discursos cada dia mais integrados (como a moda deveria ser sempre) com pautas sociais e políticas. Como você observa essa transição (se é que acredita que ela exista) e qual futuro vislumbra para o formato?

GM: Na minha opinião, o modelo desfile ainda não foi ultrapassado. Simplesmente porque não tem outro formato que funcione tão bem para tantas marcas. Isso não significa que ele funciona para todas as marcas. E é isso que as pessoas não entendem.

Acho que o futuro é mais livre, mas que o desfile não vai acabar. Porque ele ainda funciona muito bem, principalmente se pautado nessas questões sociais e políticas.

EM: E a crítica de moda, qual seu parecer sobre as resenhas dos desfiles dos últimos anos? E, qual foi o insight para criar a Giusletter, como vem sendo a recepção das pessoas?

GM: As pessoas amaram a Giusletter e isso é muito legal para mim. Fico muito feliz de ver gente que entende e gosta do jeito que eu enxergo e escrevo sobre moda. A crítica de moda ficou esquecida por muitos anos no Brasil e os estilistas se acostumaram a não receber feedbacks negativos – quando não era bom, muita gente simplesmente não falava sobre (o que também é se posicionar, é uma linha editorial, mas acabou acostumando mal eles hehe). Enfim, espero que continuem aparecendo novas vozes nos próximos anos. O mercado inteiro agradece.

foto de capa: reprodução/ Universa Uol (Naira Mattia)

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