Feito aqui: a aceleração do desejo pelo fortalecimento local


Pela perda contínua de essencialidade no momento em que vivemos, a moda mesmo num contexto digital se debate. Acreditamos que nem seja o momento sobre discursos acerca de produtos em si. Seria supérfluo. Mas é tempo para identificar a aceleração do comportamento voltado ao consumo local, que oscila há anos, e hoje encontra mais defensores num universo online, potencializado pela crise.

O Brasil é hoje a maior cadeia têxtil completa do Ocidente, o que significa que temos operando desde a produção de fibras, fiação e tecelagem, beneficiamentos, confecções, um varejo expressivo até desfiles de moda; segundo dados do “perfil do setor” atualizados ao final de 2019 pela Abit (Associação Brasileira de Indústria Têxtil).

São 8,9 bilhões de peças ao ano pegando apenas o recorte da confecção (incluindo vestuário, cama, mesa e banho). Uma produção gigante. Em que 97,5% da produção é para abastecimento do mercado interno, segundo a pesquisa do Febratex.

A força motriz dessa produção é gerada por 32 mil empresas de confecção (das formalizadas, claro), e destas, 80% são pequenas e microempresas. A paralisação forçada, e muitas vezes a falta de preparado para o omnichanel, compromete a sobrevivência de muitas delas. Em contrapartida, nunca se falou tanto sobre o consumo de produtores independentes, neles incluídos, a moda. Mas a questão é: manteremos o mindset depois para esses produtos em questão?

A construção do sentimento local

Longe de ser um sentimento ou previsão de comportamento novo, a busca pelo fortalecimento de microeconomias retrocede em anos. Como uma contra tendência ao volume do fast fashion, o boom de diversas marcas independentes data do início dos anos 2010, junto com discursos sobre sustentabilidade, transparência e slow fashion que ganham maior protagonismo na moda. Os percalços econômicos do país, contudo, dão toque extra ao desafio de competir como independente com volume, campanhas massivas e preço de grandes nomes ou conglomerados do setor (mesmo que nacionais). A resistência se mantinha, e os projetos vinham crescendo em maturidade comercial e experiência, até 2020.

A pandemia reconfigura diversos níveis sociais e com a potencialização do sentimento previsto pela WGSN de isolamento emocional, afinal hoje ele também é físico; características como proximidade e conveniência serão importantes na busca por produtos daqui para frente. O cenário desenha uma oportunidade para comércios que sobrevivam à crise. “[…] os consumidores procuram comprar marcas locais que são impactadas negativamente por interrupções nos gastos devido ao coronavírus”, comenta o relatório Coronavirus: Global Change Accelerators da agência de pesquisa de tendências mundial.

E esses caras, os localtivistas, falam justamente da sobrevivência do micro versus esse olhar mais dominante. (Luiz Arruda, WGSN)

LOCALTIVISMO

A ânsia pela divulgação e compartilhamento de iniciativas que nos cercam também já era mapeada pela WGSN. Localtivistas foi nome que surgiu em reports lá por 2018, ano em que também entrevistamos o head da Mindset WGSN, Luiz Arruda. “Os localtivistas, especificamente, são o público mais engajado e têm uma questão de causa, que é a da sobrevivência do micro. E esse micro depende do ponto de vista. Você pode estar falando da sobrevivência de um país versus o mundo, ou de um bairro versus um município. A questão é entender que a aldeia global, que veio lá trás e deixou todo mundo conectado, talvez tenha construído uma cultura dominante com mais poder, voz política e econômica. E esses caras, os localtivistas, falam justamente da sobrevivência do micro versus esse olhar mais dominante”, nos contou em entrevista (confira o conteúdo completo aqui).

Em 2013, quando iniciamos nosso conteúdo de mapeamento de marcas locais, criamos o guia como uma possibilidade de acesso por vezes incompreendida ou até subestimada por parte de um público. Em 2020, está claro. Diversas iniciativas que se somam dia a dia no universo online vêm de encontro ao pensamento de fortalecimento da corrente de microeconomia. A exemplo, a Buy Local Cwb (@buylocal_cwb) de Jo Morsink. Em contato com o consumo de moda local há cerca de 3 anos, as feiras e eventos foram a plataforma que impulsionaram o desejo de conhecer mais.

Hoje, já com um pré-mapeamento em mente, ela viu a oportunidade desenvolver uma versão beta do guia a que se pretende, pelas redes sociais visto que os eventos físicos foram interrompidos. “Durante a quarentena já tem muita gente se conscientizando da necessidade de ajudar o mercado local, eu acredito que essa consciência do consumidor vai continuar depois que tudo isso passar. Agora temos a oportunidade de ver o quanto ser colaborativo e solidário importa e faz diferença no mundo”, conta ao Even More.

EFEITO DOMINÓ

Mas, o efeito tem proporções mundiais. Como disse Luiz Arruda, é uma questão de perspectiva. A campanha FORTALCE.CWB, que em uma semana se espalhou pelo Instagram, surge com o objetivo de ser replicada em diferentes cidades. “Mas não imaginávamos que, em uma semana de @fortalece.cwb, já tivéssemos o projeto rodando em doze cidades no Brasil e duas no exterior: Cidade do Porto e Nova York. É muito animador acompanhar esse crescimento”, conta Carlos Franco, um dos publicitários por trás da iniciativa.

 

Com o objetivo de divulgar numa formatação de apelo online e facilmente replicável, o Fortalece se alimenta de indicações do público e o insight veio de um grupo com diversos outros publicitários que começaram a divulgar locais com delivery, por conta da necessidade de isolamento social. Em algumas horas, visto a habilidade no segmento, a identidade e projeto estavam ativos.

“Nosso critério principal é focar em um pequeno ou microcomércio. Também buscamos promover uma série de produtos e serviços que vão muito além do segmento de bares e restaurantes”, explica. Hoje algumas iniciativas pontuais de vestuário já integram a seleção da conta em Curitiba. Os @s de São Paulo, Porto Alegre e até mesmo em Porto, Portugal, já contam também com algumas iniciativas de têxtil e moda.

O QUE FICA?

Quem se motiva a compartilhar em meio a essa ânsia pelo local acredita na permanência mais enfática do comportamento num cenário pós-pandemia. “Tendo as marcas locais por categoria em mãos já vai facilitar saber onde e como comprar de maneira consciente. Nisso vai criando um costume de comprar local”, comenta Jo. Para além de uma ajuda momentânea, a consolidação de um comportamento que privilegie o entorno depende da identificação íntima com o que é produzido pelas marcas e a oportunidade de compra.

“A preocupação com o bem-estar vai mudar a equação de valor para muitos consumidores no consumo discricionário (aquele sensível aos fluxos econômicos). Eles estarão preocupados com preços tanto quanto com a busca de produtos que refletem seus valores pessoais, enquanto também cria-se um senso de estabilidade”, afirma o relatório recente da WGSN. O salto entre uma previsão de comportamento nichado para algo massivo ainda dependerá de algum tempo, pouco, para confirmarmos. Uma das poucas afirmativas é a de que esse mercado não será mais o mesmo, assim como seus consumidores, antigo ou novos.

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