Feiras locais conectam marcas e consumidores agora no formato digital


As feiras locais talvez foram (e ainda são) uma das principais formas de se adentrar numa linguagem mais autoral na moda e cultura de regionalidades. Mas com a pandemia, e as restrições com ela impostas, muitas destas mesmas feiras foram temporariamente fechadas. Isso impactou não só o rendimento de micro marcas – que dependem desse intermédio para a interação e captação de novos clientes -,  como a própria organização destes eventos. Das múltiplas maneiras encontradas para continuar o caminho na curadoria e exposição de trabalhos locais, chegamos à criação de edições de feiras digitais. 

No início parecia que o susto era temporário. “A gente fechou até alguns dias antes da quarentena e ficamos assim um mês achando que duraria, no máximo, dois meses”, conta Claudia Kievel da Feira Jardim Secreto (@feirajardimsecreto) criada em 2013 para expor pequenos produtores autorais em São Paulo e que hoje se desmembra também no Galpão Jardim Secreto, espaço permanente da curadoria. Seis meses depois, levando em consideração que as restrições se iniciaram em abril, o cenário ainda inviabilizada a execução física de uma das maiores feiras da capital paulista. 

A ideia de criar a edição digital veio a partir de conversas em grupos de organizadores no Whats App. “Eu criei um grupo com outras mulheres de organizações de projetos colaborativos, eram mulheres de todo o Brasil, de várias regiões; e dessas conversas surgiram muitas trocas e nessas trocas a gente foi entendendo como faríamos alguma edição online”, completa Claudia.

Em Curitiba, o processo de criação da Feira das Feiras (@feiradasfeiras_) vinha se desenvolvendo antes, a partir da perspectiva pública como solução para desburocratização desses eventos na cidade. Com a inviabilidade na execução da primeira edição em 2020, ela se transforma numa plataforma digital para divulgação de diversos trabalhos, com a intenção de transformá-los em renda. “Entendemos que nesse período, sem as feiras que são um espaço de conexão presencial com o comprador, os pequenos negócios criativos locais precisam de incentivo e uma rede bem estruturada poderia fortalecer a todos”, conta Maria Leticia, vereadora e idealizadora da Feira das Feiras. 

Para ela, os primeiros passos foram entender as dificuldades e demandas em comum das marcas. “Um deles é a legislação municipal atual, que é bastante limitada e que não contempla essas iniciativas independentes. Além disso, quase se fala em artesanato, a lei tem um conceito ainda muito limitado, não reconhecendo as inúmeras linguagens e produções da economia criativa”, conta ao Even. A vereadora pretende utilizar seu cargo para mudar essa situação, e hoje no espaço digital abriga um mapeamento de feiras de economia criativa como ambiente que centraliza o debate, além que criar conversas pertinentes acerca do segmento para o público na online.

Há quem viva na pele a rotina para criar suas próprias soluções também, e esse foi o caso de Laura Pereira, uma das fundadoras da Nomad Mercado (@nomadmercado), feira que acontece em Florianópolis. O que tínhamos de feiras aqui eram feitas mais espontaneamente e até eu mesma já tinha feito. A gente juntava as amigas, fazia uma feira, chamava algumas pessoas e era isso”, conta ao EM. A solução encontrada por ela, juntamente com sua amiga Caroline Toledano, foi a de criar uma feira intencional e mais planejada. “É um volume de marcas maior, volume de público maior e consequentemente um valor de vendas maior. E é inacreditável como a gente conseguiu que a NOMAD vendesse tanto nos eventos, isso foi sempre um grande sucesso”, completa.

Com a chegada da pandemia e vendo novas dificuldades, a Nomad descobriu outra forma de interligar marcas e consumidores. A feira digital aconteceu no mês de maio por meio do site da feira. Nós notamos que as marcas não estavam vendendo e o público queria apoiar marcas locais, mas não sabiam como e não sabiam quais”. A experiência e a aceitação da feira digital foi tão boa que a Nomad talvez realize uma segunda edição digital, que seguirá o calendário tradicional da feira, em dezembro.

A adaptação das marcas ao digital 

A marca Stampa Store criada pela designer Camila Menezes, expõe na Nomad desde a primeira edição. “Eu tinha produzido minha primeira mini-coleção e as meninas estavam lançando a feira”, conta Camila. Apesar da marca não depender completamente deste intermédio financeiramente, a designer aponta que as feiras são a porta de entrada para marketing, divulgação, feedback e o contato direto com o público. “A maioria das pequenas marcas não tem ponto de venda próprio, então este contato direto com os clientes é super importante”, completa. 

Com a migração para o online integralmente, Camila revela que a distância das pessoas é a principal dificuldade, muito com a própria construção de confiabilidade na plataforma própria.. A marca participou da edição digital da Nomad, mas também mantém as vendas no próprio instagram. “Já era o terceiro mês da pandemia, as lojas estavam fechadas e ter um veículo conhecido, apesar de que em formato inovador, foi uma benção”, conta Camila.

A feira Nomad de Florianópolis também teve que se reinventar no digital para conectar marcas com consumidores. (Reprodução/Nomad Mercado)

Aliado à criação de conteúdo nas mídias sociais com maior constância, a Feira Jardim Secreto também criou um e-commerce estilo marketplace para as vendas. Outra solução, foi fomentar um canal do YouTube, que leva conhecimentos diversos para os clientes e as redes de relacionamento da feira. “Fizemos uma programação totalmente gratuita com pessoas da nossa rede, colaboradores, residentes, expositores; compartilhando um pouco sobre seus aprendizados, conhecimentos e ensinamentos também para inspirar as pessoas de diversas formas”, completa.

Mesmo com o fim das restrições severas, a Feira Jardim Secreto ainda não retornou suas atividades fisicamente. Claudia adiantou que o evento será reformulado e que os conteúdos digitais continuarão. “Estamos remodelando tudo, abrimos o galpão e estamos vendo o que fazer, estamos reabrindo bem devagar”.

A feira paulistana Jardim Secreto pretende continuar com a criação de conteúdo digital, mesmo após o retorno das feiras presenciais. (Reprodução/Feira Jardim Secreto)

A marca de acessórios homônima de Jéssica de Bortolo (@jessica.debortolo) tinha cerca de 70% das vendas provindas da participação de feiras, que chegavam até 4 ou 5 por mês. “Foi onde eu fui crescendo, conquistando clientes, muitos conheciam primeiro em feira e depois no instagram. Gosto bastante do contato com o cliente, ela podendo pegar na mão, provar e eu explicar”, conta. Para se adaptar durante a pandemia, Jéssica providenciou o lançamento do e-commerce em abril, que já estava nos planos da marca, mas foi antecipado, e com ele vieram novos desafios. “Outra coisa importante que fiz foram cursos para aprender mais sobre estratégias de venda online, conhecer termos como ROI, SEO, a importância de integração entre site e sistemas de vendas”, completa Jéssica.

Segundo a vereadora Maria Letícia, a adaptação das marcas que participam da Feira das Feiras ao digital também têm sido um desafio, uma vez que grande parte não possui uma equipe para cada função que uma marca marca exige. “Além disso, para quem está começando a entrar no espaço digital, além da estruturação de um site ou uma rede, existe uma dificuldade na construção de um engajamento com o público e na concorrência com marcas que já estavam ali faz tempo. Os desafios são enormes”.

De fato, a capacitação de pequenas marcas será determinante, mas Claudia da Feira Jardim Secreto enxerga que dessa forma esses projetos serão mais valorizados. “O que mais queremos passar com o projeto é que a gente precisa valorizar o que é feito aqui, na nossa cultura, o que é feito no Brasil. Capacitar pessoas e encorajá-las a colocar o seu criativo para fora, mas de forma consciente, sustentável, ecológica”.

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