Fast-fashion sustentável e o crescimento de 800% de lixo têxtil


Seriam os esforços das fast fashions na diminuição do impacto ambiental suficientes diante de números que revelam que o cerne do problema é outro?

por Carmela Scarpi

O esforço das marcas ao redor do mundo para se adaptar a demandas de sustentabilidade é uma realidade. Seja estratégia de marketing, para agradar parte de um público-alvo que aumenta exigências de consumo, seja para sobrevivência da própria empresa; a questão é que repensar a cadeia hoje é uma preocupação de nomes até pouco tempo considerados inabaláveis. Mas essas transformações são eficazes?

Enquanto julho marcou o anúncio de um plano de sustentabilidade da gigante da Inditex, Zara; agosto trouxe novas pesquisas que apontam o crescimento de 811% dos resíduos têxteis só nos EUA nos últimos 55 anos.

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Esse último levantamento, feito pela Agência de Proteção Ambiental (EPA) e publicado pelo Retail Dive, revela que a quantidade de resíduos que foi parar em aterros sanitários (ou seja, não foram reabsorvidos de alguma forma pela indústria ou sociedade), aumentou de 1,71 milhão de toneladas em 1960 para 10,5 milhões de toneladas em 2015.

reprodução (EPA)

De outro lado, até 2020, o report da Inditex prevê a eliminação de químicos pesados em toda a cadeia da Zara, com implementação de containers de coleta de peças usadas em todas as lojas e treinamento dos designers em circularidade. Mas apesar de caracterizar uma evolução, é preciso cuidado, mais do que nunca, na análise das promessas.

Já tentaram e não deu certo

Um exemplo é o ceticismo sobre programas de coleta e reciclagem de fast fashions.  Dados da H&M, que tem um dos mais extensos programas neste sentido, com pontos de coleta em mais de 4 mil lojas ao redor do mundo; mostram que das roupas recolhidas cerca de 1% apenas é transformado em novas peças. Segundo a I:Collect, empresa que cuida das doações da H&M, só 35% dos produtos consegue ser revertido em matéria-prima para produção de estofamentos, carpetes e demais subprodutos.

O restante das quantidades estrondosas de doações acaba indo direto para as estatísticas apontadas pela EPA. Um dos motivos principais é a dificuldade de reciclar materiais de baixa qualidade, ou que possuem mistura de fibras. O relatório da Zara enxerga a questão e aborda a transformação da matéria-prima como alternativa para o fechamento do ciclo e execução eficaz. Até 2025, eles preveem que todo o algodão usado nas peças seja orgânico e que 100% do poliéster seja reciclável.

Equilibrar a produção não é uma alternativa

Mesmo diante das novidades da Inditex é preciso lembrar que, no caso da H&M, seria necessário mais de uma década para que a própria empresa reciclasse o volume de produtos que vende em alguns poucos dias – tendo em vista inclusive que o programa de coleta oferece desconto em novas compras para quem leva às lojas os produtos usados. Esse mecanismo serve para nos lembrar que o modelo de negócio é a espinha central do problema. Enquanto o formato fast fashion não for revisto, infelizmente as iniciativas servirão apenas como paliativos.

E não é apenas o processo de reciclagem que se mostra ineficiente diante dos números que revelam o volume de desperdício. A alternativa de reabsorção social, pela venda de segunda mão, também possui atritos de interpretação. Segundo o Release Report 2018 da gigante de revendas Thred Up, até 2027 as pessoas terão mais peças second hand no armário do que de fast fashions, o que nos leva a pensar sobre o impacto que a mudança de comportamento de consumo terá na absorção da quantidade de novas peças fabricadas por empresas dentro deste modelo de tendências passageiras.

Apesar de ser uma notícia interessante para o mercado, a análise revela que não há sentido em inserir mais peças na velocidade em que acontece hoje, dentro de um mercado que tem potencial e interesse em se retroalimentar pelos próximos anos.

foto reprodução

Exportação de problemas

Para fechar nossa análise breve de hoje, é preciso enfrentar ainda outro fator diante dos anúncios recentes sobre sustentabilidade das fast fashions. As doações de peças que não são revendidas ou recicladas não acontecem da forma como muitas pessoas acreditam. Países como Quênia, por exemplo, que absorve grande parte das doações de roupas do Canadá tem problemas de vender quantidades grandes de peças em péssimo estado que chegam nos carregamentos. O que acontece? Roupas acabam sendo descartadas em aterros do outro lado do mundo, agravando problemas sociais e ambientais em lugares com baixo desenvolvimento tecnológico e governamental para lidar com este problema.

Hoje, segundo a I:Collect, há programas que investem em um sistema de coleta e reciclagem do lixo no Quênia, para lidar com o volume do descarte de lixo têxtil vindo de outros países. E é por isso que, voltando para os dados do começo, é quase ingênuo comemorarmos, por exemplo, a redução de plásticos de uso único em grandes cadeias como a Zara, frente a 811% de crescimento de resíduos têxteis.

Reduzir o consumo e pensar a circularidade da matéria-prima, alinhada com expectativa de vida das peças, continuam sendo as medidas mais eficazes para recuperarmos parte do impacto que a moda causou no ambiente nos últimos anos. Mas isso vai diretamente de encontro ao crescimento de lucratividade que baseia o modelo de negócio de gigantes do mercado. Há uma pressão evidente para mudanças e um esforço em urgências, mas infelizmente estamos longe de celebrar alguma evolução pelo tempo em que todos esses pontos já vêm sendo abordados.

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