Especialistas contam: como encarar a crise econômica na moda?


Inegável que, na fila do pão, a moda (em vestuário, fast ou slow, acessórios e calçados) esteja aguardando pacientemente sua vez, lá no fim. O consumo discricionário será impactado no presente e futuro de diferentes maneiras por conta das mudanças de comportamento e do isolamento social. Fugindo um pouco do discurso sobre apoio a pequenos comércios (que abordamos aqui) e a possibilidade de engajamento em marcas de propósito sólido na comunicação (como perpassamos aqui), hoje, queremos falar de números e a crise econômica na moda.

Segundo a pesquisadora e Ph.D. em economia, Raissa Bragança, com a queda drástica das vendas em diversos setores da economia, o cenário de crise é inevitavelmente aguardado por todos. No Brasil, hoje, vivenciamos uma taxa básica de juros (Selic/3,75% a.a.) e inflação baixas, dólar altíssimo (acima de R$5) e um mercado de trabalho com aproximadamente 12 milhões de desempregados e 38 milhões de trabalhadores informais. “Com todo esse diagnóstico, a projeção de um cenário ‘melhor’ e um ‘pior’, dependem essencialmente da capacidade governamental de possuir um bom plano econômico de recuperação da economia para atenuar os efeitos da crise”, aponta Raissa.

Contudo, somado à dependência de decisões externas, há que se considerar em conjunto o despreparo financeiro na gestão de empresas de moda do país. Uma empresa sustentável, precisa também o ser em âmbito econômico, mas infelizmente como cultura nacional, não desenvolvemos hábitos saudáveis de desde a base. Numa pesquisa da S&P GLOBAL FINLIT SURVEY de 2014, o país ficou em 74ª no ranking para orçamentos pessoais. “Quando olhamos para o Negócio é ainda mais complicado, pois muitos cursos de moda não possuem essa matéria de Gestão na Ementa, então os profissionais da moda começam suas marcas com todo o dom criativo, porém muitas vezes, não sabem que uma marca é uma empresa, e para ela viver ela precisa ser sustentável, principalmente nas Finanças”, explica Marina Santos, da empresa de soluções financeiras HerBig.

Sem um planejamento financeiro estratégico, muitas empresas deste recorte acabam calculando mal seu capital de giro, sem previsionar gastos e os períodos até o recebimento, que podem ser até 30 dias depois da venda, segundo Marina. “O ideal e a média para cada empresa é para ter 3 meses de caixa para capital de giro, porém isso não é a realidade”, lembra.

A disparidade com a realidade pode comprometer a empresa quando o assunto são mudanças de consumo. “Esta crise de demanda, pode ter ‘pegado muitas empresas de surpresa’ e sabemos que para muitos negócios, infelizmente, uma reserva de emergência nem sempre é uma realidade. Com a crise iminente, o que podemos falar agora são das melhores formas de perpassá-la”, avalia Raissa.

“Os profissionais da moda começam suas marcas com todo o dom criativo, porém muitas vezes, não sabem que uma marca é uma empresa e para viver precisa ser sustentável, principalmente nas Finanças” – Marina Santos, HerBig

3 PASSOS PARA OBSERVAR SOLUÇÕES

As especialistas concordam: a primeira medida é sentar e observar as contas. “Ver tudo o que dá para cortar, reduzir, economizar e postergar”, comenta Marina. “É hora de estudar o seu negócio e analisá-lo de ponta à cabeça. O isolamento social causado pelo COVID-19 é temporário, então, é necessário postergar pagamentos caso seja possível. Renegocie e postergue. Na análise, veja se existe algum custo desnecessário. Entretanto, tente manter os empregos, pois precisamos lembrar que a manutenção de empregos é fundamental para que os efeitos da crise sejam atenuados”, complementa Raissa.

A segunda demanda nessa análise de gestão é repensar o negócio em si. “É uma boa oportunidade para fazer uma análise 360º, avaliando portfólio, canais de venda, estrutura de custo, e margens”, explica Marina. Também entender de que outra forma é possível entregar seu produto, por exemplo: “agregando um serviço, trabalhando com online e entregas, vale compras, cartões fidelidade, entre outras, para você não ficar totalmente parado nos faturamentos, sempre sendo muito transparente com o seu cliente, para não soar oportunismo ou negacionismo”. Sugere Marina. Para Raissa, também há uma abertura para criar novas colaborações de fortalecimento do mercado. “Estude também a possibilidade de fazer parcerias com comércios locais para se ajudarem mutuamente. Inove no produto, na forma de alcançar e fidelizar seu público”, explica.

Para ambas as especialistas, uma crise econômica pode trazer algumas vantagens competitivas, porém, é preciso estar atento para encontrá-las e adaptá-las. “O dólar mais alto estimula a exportação e, ao mesmo tempo, desestimula a importação”, explica Raissa. Num cenário ideal, em que a produção de bens não-essenciais seja feita internamente (não sofra com aumento do preço de seus insumos) e tenha como foco a venda para o mercado interno, essa variação atual do dólar pode gerar uma vantagem comparativa aos concorrentes importados. “A persistência do dólar alto também abre um leque de oportunidades para a expansão para mercados externos”, aponta. Se possível, verificar a viabilidade de futura de exportação pode ser uma alternativa – avaliando também as questões sanitárias que se intensificarão no setor.

E, por último, acompanhar decisões de auxílio emergencial. “Ficar atento às medidas do Governo que também podem ajudar nesse momento”, alerta Marina. Mas é preciso entender os suportes de forma responsável.

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MEDIDAS GOVERNAMENTAIS E EMPRÉSTIMOS

Pela perspectiva de Raissa, as medidas que mais auxiliariam este cenário seriam: a injeção direta de renda, acesso a microcrédito com juros baixíssimos, apoio financeiro para manutenção dos empregos e isenção/redução ou até mesmo postergar a quitação de impostos. Muitas delas já vêm sendo estudas e algumas até mesmo aprovadas nas discussões governamentais.

“Para o setor de bens não-essenciais, as medidas mais importantes podem ser: o AEI (Auxílio Emergencial para Informais); o pacote de complementação de salários para que os empregadores não demitam; a postergação de pagamento de impostos e facilitação e ampliação das linhas de crédito para pequenas e microempresas”, comenta Raissa. Lembrando que, hoje, no cenário de moda brasileiro, apenas no recorte de confecção, temos 80% dos negócios atuando com sistemas de micro e pequenas empresas.

Até o fechamento desta matéria, há duas medidas que podem ser destacadas dentro do contexto da indústria de moda. A primeira, o auxílio emergencial de R$600 por até 90 dias para MEI (microempreendedor individual) e trabalhadores informais, já sancionada pelo presidente da República. A estrutura de liberação vem sendo estudado por meio de um mecanismo como a retirada de FGTS, via Caixa Econômica Federal, com organização de saques em grupos de pessoas.

A segunda medida foi chamada de “MP da Folha de Pagamento” que visa custear salários por até dois meses para que empregadores não demitam funcionários sem justa causa no período. O secretário especial de Fazenda, Waldery Rodrigues, em entrevista coletiva (disponível no portal do Ministério da Economia) disse que esses recursos serão liberados pelo Tesouro Nacional como crédito às empresas, que terão 36 meses para pagar (considerando os seis meses de carência). A taxa de juro será de 3,75% ao ano, com compromisso de que nenhuma instituição financeira envolvida no processo cobrará spread bancário (taxa normalmente cobrada pelos bancos para realizar o empréstimo). A medida beneficiará empresas com receita bruta anual entre R$ 360 mil e R$ 10 milhões, contudo ela contempla uma parcela de que ganhem até 2 salários mínimos, devendo a empresa honrar com o pagamento de salários acima desse valor.

Para Raissa, a grosso modo, é preciso atenção às linhas de créditos, pois as taxas de juros precisam se manter abaixo da inflação. “Isso porque seria uma forma de endividar o empreendedor em uma época que já deve estar difícil honrar suas despesas sem a entrada de recursos. Estas medidas são necessárias, mas não suficientes. O acesso ao crédito com taxas de juros baixíssimas deve ocorrer de forma mais extensiva (não apenas para pagamento de salários), não burocrática e rápida, para suprir as necessidades de capital de giro dos micro e pequenos empresários”, comenta. E Marina alerta: “O empréstimo (de maneira geral) seria a última das opções, para não se embolar nas contas e só jogar um problema para o futuro”.

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