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Economia circular propõe fim de desperdícios na indústria da moda

12 de novembro de 2018 - 12h07
Por Even More

Tendência de produção incentiva o reaproveitamento de resíduos para a confecção de novas peças. Conheça marcas que adotam a economia circular

Mariana Rosa

“Na natureza nada se cria, tudo se transforma, certo? Isso se chama biociclo”, explica a especialista em design e sustentabilidade e professora da Universidade Positivo, Rosangela Araújo (@sustentacto). A economia circular é a adaptação deste pensamento para o ciclo de vida de produtos e serviços, em que o resíduo vira matéria-prima para uma nova cadeia produtiva. “Existe, portanto, um planejamento da redução do impactos ambientais e sociais negativos, em que o mercado imita a natureza”, completa a professora.

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Essa tendência de pensamento nasceu na Europa no inicio dos anos 2000, com estudos sobre a redução e reaproveitamento da energia utilizada nas industrias. No Brasil, a economia circular se traduz no cunho socioambiental e gestão de resíduos sólidos, uma vez que, tirando o alumínio, o projeto de reciclagem do país é pouco desenvolvido. E na corrida pela potencialização da cadeia produtiva, a indústria da moda é uma das maiores vilãs.

Segundo dados do portal EcoCult, a partir das informações disponibilizadas em 2017 pelo Global Fashion Agenda, nas questões de emissão de carbono, usos químicos, desperdício de água e descarte de resíduos em sua cadeia produtiva, a indústria têxtil ocupa a 4ª posição das que mais causam danos. De acordo com o Sebrae, estima-se que no Brasil sejam geradas 170 mil toneladas de resíduos têxteis por ano.

Para Rosângela, o grande problema da indústria da moda está na velocidade com que se produz e no volume das coleções: “O mundo inteiro produz para um consumidor global potencial, e nessa ideia de expansão de mercado, a indústria têxtil acaba exagerando. O resultado desse excesso é o descarte”. A professora acredita que, atualmente, o slow fashion seja a maior tendência de economia circular no país, devido a produção consciente e em menor escala, além do reaproveitamento de peças.

Sustentabilidade, um modus operandi

Reptilia (divulgação/ Eduardo Macarios)

Heloisa Strobel, designer do ateliê curitibano Reptilia (@_reptilia) acredita que se a economia circular hoje é um diferencial de uma marca, no futuro será essencial: “As taxas para coleta e destinação de resíduos tendem a se tornar cada vez mais altas, e esse é um preço que não custa apenas no nosso bolso, mas no ecossistema”. A maca, que desfilou na última semana de Moda da Africa do Sul, tem um programa zero waste em sua produção, em que tudo que sobra recebe uma destinação, seja em novas coleções, projetos sociais ou parcerias com outros ateliês. “Para mim, sustentabilidade não é um diferencial ou uma plataforma de campanha. Pelo contrário, é modus operandi. Enquanto na indústria têxtil tradicional 15% de toda matéria-prima é jogada fora em sobras de corte, na Reptilia esse percentual é zero”, conta Heloisa.

Em 2018 a iniciativa da marca foi reconhecida pelo Prêmio ODS Brasil, que busca  dar visibilidade a práticas que contribuam para o alcance dos objetivos da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável da ONU. Sobre o reconhecimento, Heloisa lembra que muitas empresas desenvolvem ações para compensar seus próprios impactos ambientais, não pensando na cadeia produtiva como um todo: “Não é sobre fazer uma ação social para compensar a sua pegada de carbono, mas sim repensar toda a sua produção para que ela seja mais justa para com o mundo e a sociedade”.

Para a professora Rosângela, é preciso diferenciar marcas que realmente pregam a economia circular daquelas que apoiam a causa verde como estratégia de marketing.  Por este motivo, Priscila Cortez, da Maria Tangerina  (@mariatangerina), não gosta muito de usar a palavra “sustentabilidade”, que muitas vezes está ligada a estratégias de storytelling das marcas. “Nosso objetivo é fortalecer a cultura dos pequenos empreendimentos, fomentar a produção ética e plantar a semente da consciência, tanto nos consumidores quanto em outras marcas, mostrando através da transparência que é possível trabalhar com moda de maneira responsável.”

Jouer Couture
24/11/17
Brasil Eco Fashion Week –
Foto: Marcelo Soubhia / Agencia Fotosite

A Maria Tangerina nasceu em 2013 a partir do Projeto de Conclusão de Curso de Priscila. Além da preocupação com o aproveitamento de todo o tecido e o uso de material 100% reciclável nos forros das bolsas — a marca tem parceria com a Jouer Couture e a Ratorói com o material ByePlastic, proveniente de refugo plástico urbano e industrial —, o ateliê também trabalha com Economia Solidária (Ecosol) na mão de obra. “Dentro da Ecosol existe um trabalho de capacitação de pessoas em situação de vulnerabilidade para que elas tenham autonomia e possam gerar renda em suas comunidades”, conta a empreendedora, que desde o inicio trabalha em parceria com o grupo de mulheres Cardume de Mães.

Upcycling e tecnologia

O upcycling é uma das técnicas mais básicas da reciclagem, em que o lixo de um se transforma no material do outro. Além de resgatar de sua própria cadeia produtiva — no caso da moda, tecidos descartados pela própria indústria têxtil —, esse processo também transforma produtos de outras cadeias. A marca curitibana Yë (@yecwb) descobriu a técnica após transformar em bolsa uma pedaço de madeira encontrado no lixo.

Em sua 4ª colaboração com o estilista Ronaldo Fraga, 50% dos produtos fabricados pela Yë utilizam upcycling: Tanto na madeira, quanto no couro e nas ferragens. Para a designer da marca Juliana Erig, a técnica também representa a exclusividade do produto, uma vez que o couro resgatado tem cores e texturas únicas. “Sem falar que usamos um material que não tem destino correto. Na maior parte dos casos são jogados no lixo ou entregues à prefeitura, que não tem coleta seletiva especializada para couro e madeira”, conta.

Entretanto, o processo de adaptação de um material para outra cadeia produtiva não é simples. Segundo a professora Rosângela, normalmente os produtos não são fabricados tendo em mente sua readaptação, e isso requer um desenvolvimento industrial e tecnológico. A especialista explica que, para que a economia circular se faça realidade em larga escala, toda a cadeia deve passar por um “redesign”. “É preciso repensar a colheita da matéria-prima, a fabricação do produto, sua distribuição, logística e, principalmente, a preocupação com a mão de obra do trabalhador”, conclui.

 

SERVIÇO

  • Reptilia (@_reptilia)

Alameda Prudente de Moraes, 1282 – Mercês, Curitiba

www.reptilia.name

  • Yë (@yecwb)

SOMOS | casa, moda e design

Rua Brigadeiro Franco, 1193, Loja 1B – Mercês, Curitiba

SAMAMBAIA | Shopping Água Verde

Avenida República Argentina, 1927 – Água Verde, Curitiba

www.yecwb.com/

 

  • Maria Tangerina (@marinatangerina)

CASA JARDIM SECRETO

Rua Conselheiro Carrão, 374 – Bixiga, São Paulo

www.mariatangerina.com.br

 

 

 

 

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