NeoNyt: Economia circular e uso acima da propriedade são apostas da marca holandesa MUD Jeans


Destque da NEONYT, a MUD cria exemplo de gestão e processo que transforma o jeans em uma indústria mais alinhada com o planeta do futuro.

Carmela Scarpi

É muito interessante, pelo menos para mim, perceber o quanto vejo pelas telas o mundo digital, mas na vida real, no olho no olho, as expectativas sejam tão … analógicas. Eu sei o quanto as interferências globais atingem sem discriminação as culturas abertas ao conteúdo online, adaptadas claro às especificidades dos meios. Mas numa viagem internacional, a gente espera, anseia mesmo, por algo muito inovador, ao qual talvez não tenhamos acesso por perceber (até demais) a nossa insignificância dentro de um determinado tema.

Foi assim a minha viagem para Berlim. Estar na NeoNyt, uma das maiores feiras de moda e sustentabilidade do mundo, na cidade considerada referência no tema, era algo que me incitava aquela expectativa de mudança de paradigmas. Não foi. Muito do que ali havia, já é recorrente no repertório de quem se propõe a estudar o tema. E entre avaliar o quanto isso é bom ou ruim (pauta para outro texto), uma marca cumpre o papel de despertar meu sincero interesse.

NEONYT – 2019 Berlim

Holandesa, de Amsterdam, a MUD Jeans associa de forma simples – e talvez por isso tão brilhante – diversas tendências de consumo hoje. Da economia circular ao compartilhamento, até às estéticas perenes (um dos pilares de slow fashion). Tudo está dentro de uma discurso inovador e eficaz.

Leia também: Lixo é ponto de partida para redefinir a lucratividade na moda do futuro.

Sem pretensões de salvar o mundo, a proposta da marca é salvar velhos pares de jeans para conter o desperdício. Fazendo isso, na realidade, eles juntaram peças de um quebra-cabeças simples que poucas marcas conseguiram desvendar: como operar em um sistema capitalista que pressupõe desejo, gerando o menor impacto possível em um mundo que definha.

Com opções de compra ou “leasing”, os jeans da MUD são feitos a partir da fibra reciclada de outros jeans (sejam da própria marca ou de outras). A circularidade proposta resgata peças duráveis que não têm mais serventia para seus antigos donos, e transforma em matéria-prima e identidade de marca da MUD.

O processo em 4 etapas tritura, separa, desfia e tece novamente a fibra que contém uma porcentagem de jeans usado e outra de algodão orgânico para novas composições. O estímulo ao consumidor vem em forma de bonificação. Você pode só comprar um par de jeans da marca, ou levar seu antigo e ganhar um desconto.

Estande MUD Jeans – NEONYT – 2019 Berlim

O estímulo ao desejo também é despertado, além do desconto, pela possibilidade de ter uma assinatura que te garante um novo modelo a cada 12 meses. O esquema de empréstimo funciona como um plano de assinatura em que por 7,50 euros ao mês você desfruta de uma peça MUD que será devolvida e trocada por outra nova ao final do período de 1 ano (existe uma taxa de adesão a esse programa de 29 euros). Caso você queira ficar por mais tempo com seus jeans antigos, ok também.

Somadas às estratégias de fabricação e venda, vemos ainda várias camadas de preocupação socioambiental entre lavanderia, filtragem de água, reaproveitamento de índigo, certificação de mão-de-obra, capacitação da equipe, embalagens retornáveis e co-criação com causas que alinhem pilares sobre a necessidade de estarmos sempre vigilantes ao que acontece no mundo como um todo.

Desde a retirada das tags em couro para evitar desperdício e ter adesão ao mercado vegano, à utilização de aviamentos recicláveis, a MUD cumpre o que se propõe de forma extraordinária. Um exemplo de que empreender hoje demanda atenção a cada mínimo detalhe, mas que é possível trabalhar em uma cadeia que aumenta benefícios e diminua impacto dentro do sistema econômico em que estamos inseridos.

NEONYT – 2019 Berlim

Desde 2013 que o CEO Bert van Son coloca cada pilar da economia circular em prática na busca de uma solução para a produção de jeans e a manutenção da saúde do planeta. Com relatórios anuais sobre impactos e conquistas sustentáveis, a marca se tornou um modelo de gestão e estratégia para um mercado que vê a demanda crescer exponencialmente. As vendas são feitas online e em pontos físicos, mas infelizmente a MUD ainda não está na América do Sul.

 

foto de capa divulgação

Previous Nós realmente precisamos de mais marcas de moda sustentável?
Next Rocio Canvas e Reptilia mostraram na Casa de Criadores que talento, coesão e competência para negócios podem existir em Curitiba

No Comment

Leave a reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *