Opinião

Discursos válidos são os que promovem mudança

28 de março de 2018 - 15h47
Por Even More

por Carmela Scarpi

Somos indivisíveis – ainda. Mas isso nos dá a oportunidade de termos equipes e, por isso, na última semana, foi a Monique Portela quem ocupou meu costumeiro lugar num evento de moda de ~porte ~ da cidade. Numa crítica, da qual não retiro uma vírgula, você confere o resultado dessa empreitada (link aqui).

Como me cansam os discursos e eventos mais genéricos que dão conta de fatores de pura tendência, escolhi estar em um lugar “menor”. Estava na Urban, franquia da galeria democrática paulista que ocupa um quase meio de quadra na Rua Carlos de Carvalho. Lá, 7 mulheres convidadas debatiam seus papéis no processo criativo e na arte. Processo esse que perpassa a moda e é da qual me aproprio para comentar a experiência de forma bem pessoal agora.

O mês, a fala e o lugar

Se em números minha escolha perdia para o evento do Shopping, em “preenchimento de espaço” podemos dizer que estava muito à frente. Encostada em um canto devido à lotação, que particularmente comemoro, escutei depoimentos das mais variadas idades e realidades sobre mercado de trabalho. São experiências no exterior e no mais íntimo interior de cada mulher ali que se abria para compartilhar.

Infelizmente, um denominador comum foi a constante necessidade de reafirmação pelo simples acaso genético do ser mulher. Casos de “bropriating” – quando um homem se apropria de uma ideia expressada por uma mulher, levando os créditos por ela – foram os mais citados. “Ia falar que não aconteceu nada comigo neste sentido, mas aconteceu justamente isso na semana passada”, diz Ana Penso, criadora e designer da Crânios Cabeludos.

Dentre tantas histórias trazidas à mesa, lições de como superar essas pequenas batalhas diárias começam a pipocar junto ao público – majoritariamente jovem – atento. E isso me faz acreditar. É tão importante esse lugar de fala sobre percalços na rotina empreendedora, que mesmo que pareça pessimista, comemoro uma iniciativa que traga junto a princípios de feminismo, a realidade sobre lidar no day by day com esse título de “criativa”.

Paralelo: o mercado de moda em Curitiba

Eis que nessa dinâmica de apresentações e relatos, surge, como sempre, o tema da figura mística do consumidor curitibano, e o discurso muleta de que somos mais interessantes do que interessados. Não nego que essa abordagem, não de hoje, me cansa pelo simples reducionismo de causas que ela traz – seja ele o tempo, o perfil, a síndrome de vira-lata, a necessidade de chancela exterior. Mas não nego também que estes fatores existam, só não podemos nos apoiar cada hora em um deles para explicar dinâmicas de mercado.

E com essa coluna, proponho um paralelo. Pensemos no crescente interesse pelo consumo de produtos/serviços/obras de mulheres, objeto inclusive do debate em que estávamos. A invisibilização que sofremos ao longo dos anos está sendo reivindicada por diversas iniciativas, mais ou menos inclusivas, discursos de posicionamento e abrangência de alcance da fala. É algo estrutural, já identificamos, e a mudança demanda um esforço contínuo para que, conscientemente, nós mudemos o hábito de consumir o que chegaria de maneira mais “fácil” a nós e – em determinadas vezes – com filtros de privilégio masculino. Provocamos, assim, um movimento de mudança, para que essa informação mainstream, um dia, não seja tendenciosa. Com todas as muitas e devidas proporções, não seria o caso de aplicarmos aquele mesmo discurso que ali surgia para o consumo da moda independente?

Não seria hora de ultrapassar o patamar de apenas apontar um erro constantemente, colocando a culpa naquele outro que sou eu também? Padrões demoram para serem quebrados, mas é fundamental democratizar o discurso para angariar vozes que promovem mudança. As iniciativas estão aí, sempre. Leve quem nunca foi aos eventos que você acredita, apresente marcas. Esteja interessado em canais que façam essa divulgação de forma cuidadosa, ao invés de comemorar republicações de release por veículos que reproduzem um discurso que te prejudica. Ajude quem está no mesmo barco que você a crescer, como contou Mariah Salomão, do NovoLouvre, brilhantemente, sobre a mentoria que ofereceu à RocioCanvas. Procure ter uma presença em canais múltiplos, use a internet para isso. Não espere que o reconhecimento bata a sua porta, o discurso válido é o que promove mudança. É preciso mais networking, mais profissionalismo, mais foco em expansão de comunicação. É preciso fazer como empreendedor o que as mulheres fizeram, tomar seu lugar na fala e na ação, e mudar.

Enfim, é preciso mais iniciativas, como aquela em que eu estava. Que abordava outro tema, mas misturava um monte de gente interessante que, mesmo numa disputa com um evento normatizador muito maior, conquistou a atenção de tanta gente interessada.

Parabéns a Cathy Braska (Urban Arts) e Ly Takai (2becool) que viabilizaram o evento e, para promover a divulgação de mulheres de talento e especialistas em suas áreas, segue a lista de quem estava por lá:

Mariana Smolka, pesquisadora de tendências e criadora do instagram CuritibaCool

Renata Trevisan, diretora criativa da marca de acessórios em 3D, Noiga

Mariah Salomão Viana, criadora e diretora criativa da marca NovoLouvre

Ana Penso, criadora da Crânios Cabeludos

Thaíssa Esteves, artista, designer e criadora do Ten_id

Jéssica Bruning, fotógrafa

Livia Moro, diretora criativa da marca Arbol

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