Direto da fonte, o open source na moda


Como o movimento do open design chegou à moda e permitiu que o consumidor pudesse adaptar o próprio molde do que veste.

Especial Aléxia Saraiva, EMMAG 13

E se, ao invés do ritual de chegar em uma loja, provar uma roupa e levá-la; você pudesse receber o tecido em casa para montar uma peça do seu jeito? Por mais futurística que pareça essa ideia, ela é parte de um conceito que já existe: o open source, que chegou à moda pela influência do open design. Mas o que isso quer dizer e como funciona esse processo?

Quem explica é a mestranda em design pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) Iana Uliana Perez, que estuda o open design e a fabricação digital na moda: de modo geral, “[o open design na moda significa] ter acesso a modelagens já prontas, modificá-las para que se ajustem ao seu corpo e ao seu gosto, e então costurar você mesmo ou levar até algum produtor local ou alguma pessoa próxima que faça essa roupa para você”.

Conceitos do open design na moda

O conceito em si não é algo novo: segundo Iana, já no século 17 existia trabalho criativo e coletivo para desenvolver produtos e revistas que disponibilizam moldes, sendo que a produção caseira de roupas foi uma prática comum até os anos 1950. A ideia de design aberto foi renovada e ganhou seu nome oficial em 1999, com a fundação da Open Design Foundation – resultado da influência dos movimentos de free software e open source, que permite ao usuário de um sistema modificá-lo e redistribui-lo com suas alterações. No design, isso significava aplicar esse conceito a bens materiais.

Post-Couture Collective é a primeira plataforma de open source no mundo, lançada por Martijn van Strien e a designer holandesa Vera de Pont (foto reprodução)

Mas apenas em 2015, na Holanda, que nasceu a maior referência do open design na moda: o Post-Couture Collective. A proposta do grupo é vender e disponibilizar moldes de roupas que o consumidor possa alterar em casa e mandar fazer o corte a laser da modelagem da peça sobre o tecido. Aliada a essas estratégias está também a impressão 3D, para dar maior precisão aos detalhes das peças. Para Iana, essa é “uma proposta inovadora de eliminar a costura à máquina para permitir que qualquer pessoa possa montar sua própria roupa, mesmo sem saber costurar”.

Por que aderir?

Essa é uma das perguntas que o manifesto lançado pelo criador do coletivo, Martijn van Strien, e a designer holandesa Vera de Pont tenta responder. Uma das principais razões é o consumo consciente, ligado principalmente à sustentabilidade e ao fair trade.

A conscientização sobre o impacto da indústria da moda sobre o meio ambiente fez os autores buscarem novas alternativas. “O século 21 traz oportunidades para uma revolução alimentada pela tecnologia, que poderia ajudar a dar forma para uma nova perspectiva à moda”, afirma o manifesto.

“As pessoas estão cada vez mais conscientes. A tendência é que, no longo prazo, essa consciência do público, dos novos designers e dos empresários levem a uma real transformação na indústria”, comenta Iana.

Post-Couture Collective (foto reprodução)

Na esteira do slow fashion

Para se chegar ao open design na moda, um longo caminho foi percorrido, o do: slow fashion. Fabianna Pescara, professora da área da moda há quase dez anos e estudiosa da moda de reflexão, explica que essa “pós-costura” é resultado de macrotendências que vêm percorrendo o universo da moda já há décadas. “A moda vem pensando essas mudanças já há mais tempo do que elas efetivamente acontecem. E esses movimentos não caem nas mãos do público facilmente – nem hoje as pessoas efetivamente têm um acesso a isso [open design]”.

Além disso, o open source só chegou devido ao terreno preparado pelo slow fashion nos últimos anos. Fabianna ressalta que muitas vezes as pessoas não percebem que todas as escolhas que fazem no que diz respeito à moda estão ligadas à indústria. “A moda vive de macrotendências. O produto final é um reflexo de algo muito maior. Essa tecnologia extremamente complexa de corte a laser, de receber em sua casa uma roupa desmontada e encaixar, está muito ligada aos conceitos de tecnologia e do slow fashion”. Segundo ela, o próprio slow fashion está ligado a tendências de sustentabilidade e consumo consciente.

Para Iana, o caminho a ser percorrido ainda é longo. “Para que o setor de moda torne-se mais sustentável, é necessário adotar abordagens holísticas. Ainda há um foco muito grande na seleção de matérias-primas ou na questão dos resíduos têxteis, contudo, é necessário ir além e modificar os padrões de produção e de consumo”.

 

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