CTRL C + CTRL V: apropriação no terreno digital de criação


Em meio a diversos questionamentos e reivindicações online é comum que os habitantes de redes sociais tenham se defrontado mais de uma vez com conversas inflamadas sobre autoria – sobretudo na moda. Apropriação cultural é terminologia já bastante comum, sem que necessariamente se tenha um conhecimento mais denso sobre a representação do que simboliza cultura.

Última grande manchete sobre o assunto teve como protagonista a marca italiana Prada e a sandália de semelhanças indiscutíveis com produtos locais vendidos sobretudo em Estados do nordeste brasileiro, com referências a cultura do sertão e esteticamente relacionado, por vezes, ao movimento do cangaço. Além da semelhança estética, a diferença de preço provocou a comoção online com direito a, claro, memes em plataformas de redes sociais, a exemplo do Twitter.  

Como não é a primeira, nem a última, vez que situações como essas acontecem (tenham a explicação que tiverem, não é o intuito aqui fazer um julgamento específico sobre o ocorrido), e a pedidos dos leitores, decidimos ir pelo caminho do conhecimento. Afinal, de semelhanças e intersecções a própria internet está repleta. Em âmbito de apropriação e influência até onde estamos indo ou deveríamos ir? 

Para a conversa convidamos Hilaine Yaccoub, doutora em Antropologia do consumo (UFF-RJ). Hoje, Hilaine promove ligações entre o mercado consumidor, o meio acadêmico e as empresas através de estratégias de pesquisas, palestras, consultorias, mentorias e treinamentos – além, é claro, do conteúdo que compartilha via redes sociais (@hilaine). 

(reprodução DAZED FASHION)

 

Even More: Você deve ter acompanhado a caso da Prada e da sandália supostamente plagiada de uma estética do nordeste brasileiro. Por meio do exemplo, quando podemos considerar um caso de apropriação cultural?

Hilaine Yaccoub: Entendo que os termos inclusão, respeito às diferenças, valorização da ancestralidade estão na pauta, mas não podemos cair em um lugar de vigilância e punição.

Primeiramente, precisamos realizar uma ponderação. É preciso salientar que há uma exacerbação muito grande do senso comum em usar certas categorias sociológicas e antropológicas para se defenderem, para construir uma narrativa que demonstre certos posicionamentos.

Acredito que seja o caso do termo “apropriação cultural”, assim como “aculturação” e até mesmo a mais novo conceito “lugar de fala” (entre tantos outros), que apesar de estarem relacionados a um momento de luta ou resistência, precisam ser empregados de forma contextual, ou melhor, de forma inteligível para a sociedade pois há de se considerar novos olhares e referências para signos, ações e objetos.

Não acredito que seja o momento mais propício para demarcar “fronteiras” que definam e separem “nós” e “eles”, a desigualdade não é sobre diferenças e sim sobre igualdades. Porque a marcação da diferença constitui o componente chave de qualquer sistema de classificação que vise definir quem é a “identidade” e quem é a “diferença”. Temos diferenças sim, mas elas precisam ser respeitadas.

Assim sendo, eu não sei se o melhor conceito a ser usado é plágio, pois carrega um sentido bastante forte. Quantas vezes alguma empresa nacional brasileira criou alguma peça influenciada por uma veste tradicional indiana, vietnamita, árabe ou chinesa? Como explicar tantos piercings e tatuagens tribais que usamos? Acredito que muitas vezes, nós usamos, reproduzimos, adaptamos e sequer nos atentamos para a apropriação cultural. Será que lá em Tóquio consumidoras da Prada conhecem Maria Bonita e o cangaço? Duvido muito.

Os coolhunters, profissionais que viajam o mundo, pesquisam referências in loco, nas redes sociais e também em outros sites de referências fazem uma colagem de imagens, texturas, cores, padrões, modelos que formam uma verdadeira colcha de retalhos. Uma coleção de moda e seus respectivos figurinos e acessórios obedecem a uma bricolagem e seleção realizada por muitos profissionais. A cada dia, novas identidades surgem em meio a essa mistura cultural em que todos estão submetidos, em virtude do mundo globalizado. O antropólogo argentino Néstor García Canclini explica essa construção heterogênea como um “hibridismo cultural”, que traduz o  rompimento com a pureza, é a quebra entre as barreiras que separam o que é tradicional e o que é moderno, entre o culto, o popular e o que representa a cultura de massa.

O grande problema disso tudo? Brasileiros comuns que possuem suas identidades materiais não se autovalorizarem, não darem atenção ao que usam, gostam e produzem, a espera de um endosso europeu para entender que na raiz da questão, a autenticidade sempre esteve presente.

EM: Alguns leitores surgiram com o questionamento sobre essas estéticas típicas de cultura fazendo um paralelo ao estilo “western” bastante difundido e usado em várias marcas e momentos da moda. Este seria um caso de apropriação cultural? Se sim, por que motivo parece estar normatizado?

HY: Na sociedade contemporânea as referências culturais estão em uma tensão constante, reivindicando espaços e expressões, por vezes esse campo simbólico foi expropriado e marginalizado em contextos coloniais. Como fenômeno intrínseco a esse processo de disputa e dominação, símbolos são constantemente apropriados por uma cultura ou classe dominante, levando a uma “luta simbólica”. E toda essa questão da apropriação cultural está aí!

Como utilizar referências de povos colonizados na moda rica europeia de forma leviana sem levar em consideração o que isto representa para “eles”, os colonizados? Mais uma vez o lado mais fraco ganha invisibilidade.

Houve, no entanto, no mercado da moda um projeto de construção e de disseminação de ideias para que toda essa referência se desenraizasse a ponto de não sabermos ao certo o que é de quem, qual é a origem. Se tomássemos o conceito de apropriação cultural ao pé da letra não usaríamos 99% dos produtos e dos referenciais que temos hoje.

Uma coleção de moda e seus respectivos figurinos e acessórios obedecem a uma bricolagem e seleção realizada por muitos profissionais. A cada dia, novas identidades surgem em meio a essa mistura cultural em que todos estão submetidos, em virtude do mundo globalizado”- Hilaine Yaccoub

EM: E quando referências de outras culturas sofrem intervenções e se transformam em produtos híbridos, como fazer esse resgate? Há algum limite para a referenciação?

Não há muito controle sobre esse hibridismo, Canclini aponta que com a globalização estamos num momento GLOCAL (Global e Local ao mesmo tempo), para manter certas referências grupos tradicionais precisam travar verdadeiras batalhas sobre se assegurar de suas referências. Há um exemplo que consigo pensar que é bastante atual, o seriado Ortodoxa do Netflix retrata a luta de uma moça judia em conquistar “liberdade” de sua comunidade judaica bastante ortodoxa em Nova Iorque. Para ela, partilhar daquele mundo significa lidar com o peso da doutrina, costumes, crenças que ela questiona.

Há sempre uma preocupação dos mais velhos em “repassar” aos mais jovens a importância da cultura ancestral numa espécie de tentativa em sobreviver a partir dos moldes tradicionais. No entanto, estamos lidando com cultura que é sempre efêmera, volátil, móvel e líquida, difícil de controlar em moldes atados e inflexíveis. 

EM: O comportamento de apropriação acompanha essa noção de autoria (o a falta de atribuição de referência a esta autoria, no caso), você acredita que pelo volume de informação e replicação de conteúdo online, a gente possa ter desenvolvido um outro tipo de comportamento acerca de autoria, fonte e referência? 

HY: Estamos na fase em que a arte saiu do lugar de especialidade e entrou há muito tempo no que o sociólogo Walter Benjamin chama da era da reprodutibilidade técnica. Ou seja, com a mecanização, com o descontrole das ações da arte do fazer,  a reprodutibilidade técnica causou uma deterioração da “aura”, assim a mecanização das reproduções (ainda mais nos tempos atuais) causaram ao objeto artístico toda a autenticidade, seu valor foi drasticamente alterado. Possivelmente, se Sebastião Salgado tivesse hoje 20 anos de idade não teria alçado o valor que tem, pois como ele mesmo diz, a fotografia morreu, o que temos hoje é uma fábrica de produção de imagem. 

Outra consequência dessa questão é que cada vez vemos mais escritórios de advocacia especializados em direitos autorais se formando, atualizando e ganhando espaço. A própria internet, as postagens, os e-mails se tornaram fontes de registro modernas pela batalha da autoria.

“A própria internet, as postagens, os e-mails se tornaram fontes de registro modernas pela batalha da autoria”(reprodução DAZED FASHION)

EM: Para situar, quais seriam as principais diferenças entre uma apropriação intelectual de uma apropriação cultural? 

HY: Propriedade intelectual está ligada ao direito que pessoas têm relacionadas ao processo de conhecido desenvolvido ou comprado por ela (podem ser materiais ou imateriais). 

Apropriação cultural, como se coloca o conceito sem qualquer debate, é a apreensão de referências de outras culturas (que se expressa através de um grupo), aglutinada por outra de forma leviana, desrespeitosa, por vezes sem respeitar origem, história, lugar, identidade. A apropriação cultural é um debate sobre ressignificação de símbolos e também sim sobre como tomadores de decisão (empresas), influenciadores no mundo do comportamento e da moda sequer se dão conta para o racismo.

EM: Você observa algum comportamento mais popularizado de apropriação que venha crescendo, em especial nas relações digitais?

 HY: As fotografias e frases de efeito têm sido apropriadas sem qualquer critério, bastou estar na rede, a audiência entende como pública. E desde o momento que se posta também se entende que é a regra do jogo. Já encontrei estudos que fiz sendo utilizados por empresas que posteriormente me contratam e me mostram o meu estudo sendo de outra empresa (instituto). Desde o momento que você compartilha conhecimento não há como controlar. Caso não seja uma questão jurídica (e para isso é preciso consultar especialistas) é bem complicado brigar, até porque como entender o caminho que as informações percorreram? Os dados, as ideias constroem uma trajetória quase própria que não se consegue mapear.

 

GIF da capa: reprodução DAZED FASHION

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