Notícias

Copenhagen Fashion Summit aponta alternativas isoladas para sustentabilidade na grande indústria

22 de maio de 2019 - 08h46
Por Even More

Apesar de animadoras, as propostas dos grandes players continuam solucionando questões pontuais sem questionar o modelo de operação atual

Livia Rotenberg

Semana passada aconteceu em Copenhagen a décima edição do Copenhagen Fashion Summit, congresso que se propõe a discutir a indústria da moda de forma crítica, especialmente no que se diz respeito a questões ambientais e sociais. O evento, que está em sua décima edição, é o precursor no assunto e tem como cenário a cidade que planeja até 2025 ser a primeira capital neutra em termos de emissão de carbono. Desde 2018, o formato passou de 1 para 2 dias, com painéis, palestras e discussões entre representantes da indústria com foco em diferentes aspectos, como economia circular, novos modelos colaborativos de negócio, a sustentabilidade no centro da moda e a questão dos salários nos países produtores.

Leia também: Como a tecnologia pode reconfigurar a terceirização da mão-de-obra na moda

Nos dias que antecedem o congresso acontece em paralelo também em Copenhagen o Youth Fashion Summit (YFS), um encontro de estudantes de todo o mundo. O evento é organizado pela Escola de Design KEA em parceria com a Global Fashion Agenda – ONG dinamarquesa focada em mudanças positivas no mercado de moda-, e patrocinado nesta edição pela marca Pandora. O foco do YSF é instigar a nova geração a propor demandas e mudanças para a indústria e apresentá-las no palco do Copenhagen Fashion Summit. As mudanças esse ano foram focadas no Objetivo de Desenvolvimento Sustentável da ONU número 5 – igualdade de gênero, e devido ao patrocínio da empresa de joias e acessório, o foco foi nesta indústria.

Durante 3 dias, os estudantes desenvolveram um guia com pontos de ação para promover inclusão de gênero no segmento da patrocinadora. E foi com um tom desafiador que os 38 participantes do YFS deste ano abriram o segundo dia do Copenhagen Fashion Summit. ” Para todos os participantes do Summit: vocês precisam assumir a responsabilidade! Esse congresso comemora 10 anos a ainda não temos igualdade na indústria da moda.”, disse a alemã Jana Kerkhoff na fala de abertura. O discurso cobrava da plateia, repleta de representantes de grandes corporações, a agir imediatamente em duas frentes: quebra dos estereótipos propagados pelas campanhas de comunicação e inclusão de gênero imediata no ambiente de trabalho. A apresentação também contou com um vídeo produzido pelos próprios estudantes nos dias anteriores.

Apesar da vontade, as ações são isoladas

Esse tom desafiador, porém, marcou apenas o início do congresso. Em um painel com o tema prioridades das transformações na moda, os diretores de sustentabilidade da Nike, H&M, Kering e do grupo PVH (dono de marcas como Tommy Hilfiger e Calvin Klein) concordaram que a sustentabilidade deve estar na mentalidade central da empresa. Noel Kinder, da Nike, destacou os esforços para incluir mais materiais reciclados em seus produtos e reutilizar os resíduos de produção da própria marca. Anna Gedda, da H&M, falou sobre os projetos para garantir uma produção ética em todos os fornecedores. A vice-presidente de responsabilidade social do Grupo PVH Marisa McGowan apontou que as ações para sustentabilidade devem ser compartilhadas e não permanecer numa área competitiva. No entanto, todas as corporações destacam iniciativas pontuais, com muita conversa e pouca ação significativa para uma real mudança de operação.

A inovação, então, fica por conta das start-ups que expunham seus trabalhos no hall do teatro em que o Summit aconteceu. Diferentes iniciativas focam em diferentes partes da cadeia. A empresa We aRe SpinDye® oferece tecidos de poliéster reciclado com processos de tingimentos sustentáveis  e 100% de rastreabilidade. Para evitar o descarte de roupas em aterros, a Yellow Octpus fornece serviços e informações para marcas implementarem soluções no final do seu ciclo, como esquemas de retorno ou gestão de estoque. Já a Repack foca num grande problema na era de compras online: a quantidade de embalagens e pacotes usados para envio de mercadorias. Para isso, a empresa produz pacotes reutilizáveis e um programa que permite que eles sejam facilmente devolvidos.

O Copenhagen Fashion Summit reúne importantes elos da moda: estudantes, inovadores, profissionais, CEOs. Existe um número de iniciativas interessantes que podem causar mudança significativa, como os pontos de ação dos expositores do fórum de inovação, ou mesmo o guia para design de produtos circulares da Nike, que está disponível online e gratuitamente desde seu lançamento durante o Summit. Existem também jovens profissionais que buscam levantar sua voz com objetivo de transformar o curso da indústria da moda.

O que falta, então? Uma mudança de mentalidade no núcleo das grandes corporações. É necessário questionar e reavaliar os modelos de produção e consumo atualmente disponíveis, e utilizar uma oportunidade como esse congresso para estabelecer real colaboração. Como escalar as soluções já disponíveis? Como incluir a voz da nova geração para conceber novas ideias? Como garantir que os esforços por melhores práticas não sejam propriedade privada?

Muito se falou sobre os diferentes problemas em diferentes momentos na cadeia. Pouco se admitiu que é devido ao modelo rápido e linear da moda e, consequentemente, seu impacto social e ambiental que essa discussão é necessária em primeiro lugar.

 

Comentários

 
|