Conversamos com Ligia Baleeiro sobre pensar o estilo para mudar o consumo


Há 14 anos transitando entre vertentes da moda e estilo aplicados, Ligia Baleeiro fala sobre a profissão, o cenário atual da moda e necessidade de consumo.

O mundo nos projeta, muitas vezes, tendências de comportamento aparentemente paralelas. Acontece que um olhar mais atento mostra uma continuidade quase infinita entre assuntos. Da busca latente pelo graal moderno do autoconhecimento tiram-se lições para uma vida mais harmoniosa consigo e com o ambiente. Ou, quem sabe, mergulhar no léxico já cansado da sustentabilidade é se deparar com um espelho que mostra realidades com as quais convivemos sem pensar – inclusive sobre nós mesmo e o que de fato gostamos.

Sem uma pequena dose de crises e questionamentos não há transformação, mas não precisamos apenas de drama.  Buscar pessoas inspiradoras e exemplos de quem vem compartilhando um processo de se reinventar como todo mundo é uma solução para quem se desafia na jornada. Para trazer uma troca sobre o assunto, batemos um papo com a consultora de estilo e comunicadora, Ligia Baleeiro.

Com expertise em se transformar, ela já trabalha há 14 anos com estilo e moda. Da especialização em figurino no Instituto Superior de Arte do Teatro Colón em Buenos Aires, onde vive atualmente, ao FIT (Fashion Institute of Technology) em Nova York, Ligia é uma assídua buscadora. Nos últimos anos, tem se dedicado a compartilhar. Em sua conta de Instagram, ela abre parte de uma vida repleta de reflexões e mudanças, assim como um suporte para quem quer começar a se repensar com o curso online VESTIR, AMAR, USAR.

Even More: Como consultora de estilo, como você vê a ligação entre o desenvolvimento de um estilo pessoal e os discursos de moda sustentável hoje?

Ligia Baleeiro: A consultoria de imagem nasceu ontem se comparada a outras profissões e, até outro dia, consultor de imagem era aquela figura inacessível, disponível apenas para uma elite. Com a democratização da informação e o amplo diálogo através das redes sociais, não só pessoas dos mais diferentes perfis encontraram na consultoria uma profissão como também se viram reconhecidas em diferentes profissionais e entenderam que este serviço também poderiam ser para elas. Estilo é sobre o nosso jeito de ser, de fazer e de se apresentar no mundo e ele é para todos que queiram empreender nessa jornada. Estilo é sobre SER e não sobre TER. Quando entendemos isso e nos conectamos com nós mesmos conseguimos olhar melhor para o que já temos, mapear os impulsos de compra e repensar nosso consumo.

EM: Por muito tempo tivemos o imaginário de que o consultor de imagem (ainda não se chamava consultoria de estilo) era a pessoa que te levava para ‘comprar mais roupas’ e se adequar a um ambiente. Como você vê essa transição para um discurso mais humano e de que forma isso pode impactar na necessidade de compra das pessoas?

LB: O discurso mais flexível, quebrando paradigmas da moda e estilo nasceu com a geração Y, hoje os millennials são os novos consultores de estilo. Com estes novos profissionais podemos ver diferentes tipos de abordagem, desde a abolição das regras de “isso pode, isso não pode”, passando pela aceitação do corpo até discursos sobre armário cápsula, fazer mágica com o que se tem. Por outro lado, também somos uma geração que sofre com patologias ligadas à ansiedade, e toda essa ansiedade tem uma ponta de escape no consumo. Ainda que pareça difícil à primeira vista, compramos porque precisamos de respostas rápidas. A consultoria de estilo é um trabalho focado no eu, na autodescoberta, em olhar para dentro e ampliar o repertório para entender as escolhas. Com todo o autoconhecimento adquirido na consultoria, a pessoa tem ferramentas para não comprar se não fizer realmente sentido.

EM: Como consultora de estilo, você já passou por algum processo de reavaliar seu consumo pensando pelo lado do impacto ambiental mesmo? Como foi?

LB: Penso nisso o tempo todo, como ser humano que habita este planeta, como comunicadora e como consultora de estilo. Estamos em um momento bem crítico no que diz respeito a questões ambientais e vemos um movimento grande e crescente de pessoas repensando seus hábitos. Existe uma frase do movimento Fashion Revolution que diz “se as pessoas soubessem, elas se importariam”, ou seja, a maioria de nós desconhece os reais danos da indústria. Falar sobre o impacto ambiental das roupas é algo imenso, porque a cadeia é imensa. Começa lá no algodão cheio de agrotóxico –  não existe limite já que não é comestível – que torna insalubre a vida dos que o colhem, e termina nas toneladas de descarte têxtil que sobrecarregam aterros sanitários. Para o consumidor, comprar uma roupa é adquirir um objeto de desejo, uma projeção, um sonho, algo que vai deixar a vida dele melhor. Mas no macro, e principalmente se você compra de fast fashion, a sua peça é só mais um exemplar entre milhões, é também uma commodity produzida por uma corporação e vendida no mercado para obter um lucro a um grande custo para o meio ambiente e em condições de trabalho desumanas. Podemos comprar uma blusinha, mas não podemos comprar um planeta melhor. Podemos comprar uma calça jeans, mas não podemos comprar direitos humanos.  Tenho pensado muito em voltar a fazer minhas roupas em costureira, ir comprar o tecido, os aviamentos, escolher o modelo e olhar nos olhos de quem costurou. Quero humanizar mais, decidir mais e não escolher apenas entre o que me oferecem nas lojas.

EM: Você tem 3 dicas práticas de estilo que podem auxiliar as pessoas num caminho de buscar soluções dentro do próprio closet ao invés de sempre ter a demanda de compra?

LB: Estilo é algo pessoal e intransferível então é bem difícil dar dicas genéricas. (Risos.) Primeiro é preciso mapear os próprios gostos e demandas. Buscar no Pinterest, blogs e revistas imagens que você gosta e reparar na modelagem, cores, cortes. Listar estes elementos que fazem seu olho brilhar. É muito importante traçar conexões entre seus gostos pessoais e como adaptá-los para vida que você leva. Um detox digital enquanto pensa e escreve sobre isso pode ser bastante revelador. Nós vivemos dentro de uma máquina de consumo o tempo inteiro; de maneiras menos perceptíveis e prováveis, estão nos empurrando coisas e, desconectar para se conectar é preciso.

Fazer algum curso de estilo. Pode ser algo para iniciantes como o meu curso online o “Vestir, Amar, Usar” que é voltado para mulheres, de todas as áreas, que estão buscando autoconhecimento e querem entender mais sobre suas escolhas de estilo, ou vários outros que existem online e offline. O importante é sair da zona de conforto e ampliar o repertório.

E por último fazer uma limpa no armário, colocar em quarentena o que não usou nos últimos 6 meses. Manter tudo organizado e fácil de escolher faz com que a gente não se sinta frustrada achando que não tem nada pra usar.

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