Contra a massificação do conteúdo de moda, nomes do segmento criam refúgio em iniciativas próprias


Em um resgate ao que é individualmente relevante para suas comunidades, alguns jornalistas, que por anos escreveram em grandes veículos nacionais, retornaram à internet num formato sem as pretensões comuns ao mercado de comunicação atual.


Não é à toa que a confiança está se tornando uma das moedas mais importantes do mundo online. A popularização das mídias sociais com anúncios enganosos e alteração de algoritmos a todo instante faz com que hoje pautas trabalhadas em micro comunidades em blogs, ou formatações diversas ao usual nas redes, se sobressaiam no quesito controle e autenticidade. Alguns, inclusive, enveredam pelas pautas de sustentabilidade e crítica invocando uma necessidade de desacelerar.

O blog x Instagram

Aquele Glow (@aqueleglow) é onde a Flávia Akemi pode produzir com liberdade e sem pretensões. Ela, que trabalhou com conteúdo por anos para o portal Lilian Pacce, estreou um perfil no Instagram para compartilhar pautas sobre beleza. Por hora, o projeto divide tempo com a profissão. “Se isso resultar em algo bacana mais para a frente, ótimo! Vou produzindo aos poucos, e se a página virar outra coisa no meio do caminho, tudo bem também!”, conta.

A necessidade de um espaço próprio veio após ingressar no outro lado da criação de conteúdo, o da agência. Trabalhando hoje na Press Pass ela nos conta que os projetos demandam uma criatividade diferente de um site ou portal de conteúdo. “Eu tenho muitas ideias e às vezes não consigo executá-las no trabalho, então surgiu a necessidade de criar algo próprio, para me divertir e testar formatos diferentes. Eu cobri beleza por muito tempo pra Lilian Pacce e é algo que sempre gostei, então pensei: por que não, né? ”.

Pelo @aqueleglow, Flávia Akemi desenvolve ideias sobre o universo da beleza que dentro da rotina de agência não conseguiria. (imagem reprodução)

Mesmo considerando a plataforma social como um veículo de conteúdo, ela ressalta que o blog, ao contrário das mídias sociais, é um domínio que pode servir de backup do trabalho, além de ainda ser a primeira fonte quando o consumidor vai pesquisar algo na internet: “Como o Instagram ainda não tem um “search” de postagens, sinto que algumas coisas ainda ficam perdidas – e o Google ainda é a primeira opção (e mais eficiente) para buscar alguns tipos de informação”, pondera.

Mas, o diferencial mesmo dentro de das redes sociais, para ela, está na personalização. A quantidade de informações a que temos acesso todo instante traz determinada superficialidade e, para Flávia, essa é a sua maior dificuldade. A solução? Não focar necessariamente na diferenciação do assunto e sim no formato em que ela será veiculado: “Às vezes o assunto pode ser clichê, mas a forma que você aborda ou o tipo de formato que você produz, torna o conteúdo interessante”.

Na produção de conteúdo de moda é hora de ter Calma.

Essa busca de um sentido para além a massificação da comunicação trouxe à internet um local de reflexão criado por Eduardo Viveiros. O Calma. hoje tem  sua dedicação total, depois de dividir o tempo de Eduardo com a produção de conteúdo para o portal Chic, de Glória Kalil. Num espaço de desabafo, o foco está em atender ao interesse de um microuniverso sem focar necessariamente num alcance sem solidez. “Considero o Calma. quase que um desabafo. Depois de tanto tempo nesse cenário, eu digo que cansei de “produzir ruído”. Ou seja, de reverberar a incessante história criada de uma indústria de moda que se baseia na farsa de um mercado consumidor rico”, conta.

A preocupação maior em gerar resultados para anunciantes do que com o público faz Eduardo questionar o caminho do mercado de comunicação de moda atual no Brasil. “Perdeu-se no macro. Tudo está centralizado na mão de alguns poucos players e, principalmente, nas mãos das lógicas dos seus departamentos comerciais. Não é uma realidade necessariamente ruim, mas é danoso quando se torna a única realidade possível, seja por motivos de filosofia de indústria ou de budgets limitados”, fala.

Calma. chega à internet em 2018, mas é recentemente que se tornou espaço de dedicação integral do jornalista Eduardo Viveiros. (imagem reprodução)

Seu olhar atento sobre esse cenário e a necessidade de expor opiniões tomaram como primeiro terreno, assim como Flávia, as redes sociais, mas desde 2018 encontram abrigo no www.calma.ltd. Mesmo com foco na crença sobre este modelo de comunicação, um grande desafio, segundo Eduardo, é a questão financeira. A paixão pelo projeto precisa falar mais alto, principalmente no início. O alcance desejado passa a ser de quantidade, por qualidade. “De que adianta ser um vlogger de 3 milhões de assinantes se 90% para de te assistir nos 30 primeiros segundos? Prefiro ter um texto que é 90% lido por 100 pessoas interessadas no assunto. Acredito muito nas potencialidades dessa lógica de microuniverso, dos pequenos movimentos coletivos. Como se paga? Não faço ideia. Mas podemos tentar”.

Homônimo

A descrenças com os rumos mercadológicos do segmento também foram impulso para Jorge Wakabara. Ex-editor do portal Lilian Pacce, hoje seu espaço na internet vem numa dinâmica de treinar a aptidão de escrita, enquanto o trabalho seguiu da área de conteúdo para o marketing.

Transicionando do jornalismo de moda para o marketing, Jorge Wakabara criou o blog homônimo como escape para treinar aptidão de escrita e resgatar o valor máximo da plataforma: falar do que gosta.

“A moda é contraditória nesse universo: ela é plenamente baseada no consumo, o desejo de moda é baseado no privilégio. A comunicação de moda ficou perdida no meio disso tudo; sempre subserviente à indústria, não soube apontar novos caminhos e até hoje fica deslizando para criticar negativamente coisas que ainda estão atrasadas. “

O blog homônimo (www.wakabara.com) surge como escape a essa realidade. “[…] queria experimentar algo mais solto e que fosse maleável de acordo com as minhas vontades – no blog eu escrevo sobre o que eu quero e quando eu quero”, explica. Além do portal, a newsletter quinzenal do projeto é uma valorização do conteúdo de qualidade garimpado pela sua curadoria, com links interessantes desde portais maiores a blogs.

Assim como Flávia e Eduardo, o objetivo de Jorge não é um público de massa. Mas, a maior dificuldade continua sendo chegar ao potencial leitor “a gente achou que a internet ia democratizar tudo e hoje está tudo na mão do algoritmo do Google, do algoritmo do Facebook”, explica. Isso, porém, não impede que o novo caminho seja desbravado, “escrever no meu blog me deixa muito feliz. É um prazer. Não é um fardo”.

 

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