COMO SABER? CERTIFICAÇÕES E COMPLIANCE PARA TRANSPARÊNCIA NA MODA


Com o interesse pelo rastreio aumentando, consumidores pressionam a cadeia para maior transparência na moda, porém a falta de regulamentação ou fiscalização podem fazer do caminho uma armadilha para marcas e consumidores. 

A quantidade de marcas de varejo de grande, médio ou pequeno porte que utilizam mão-de-obra terceirizada para a confecção das peças de roupa é vasta. Mas, muitas vezes, as condições de trabalho se enquadram no que hoje se denomina escravidão moderna, quando não há estrutura adequada para o trabalho, jornadas exaustivas, exploração e precarização de remuneração. A queda do Rana Plaza em Bangladesh no ano de 2013, marco sempre lembrado e catalisador de movimentos pela mudança de paradigmas na moda, serviu apenas para trazer à tona os inúmeros desgastes de cadeia e problemas do segmento. Desde então, o pilar social dessa indústria pulverizada é um dos mais questionados.

Dados de 2017 fornecidos pela Abit (Associação Brasileira de Indústria Têxtil) e IEMI, informam que, no Brasil, são confeccionadas cerca de 6 bilhões de peças por ano, sendo que 46,1% estariam abrigadas na região Sudeste e 31% na região Sul. Segundo a ABVTEX (Associação Brasileira de Varejo Têxtil) há 30 mil empresas produzindo vestuário no Brasil para abastecimento interno, em que 90% são micro e pequenas empresas. Hoje, a ABVTEX representa 24% do mercado apenas, os outros 76% estão trabalhando sem conformidade e fiscalização.

Nos últimos anos denúncias espaçadas sobre trabalho escravo e más condições estruturais das confecções, vindas de marcas de luxo até modelos fast fashion, chegaram ao conhecimento do público. As marcas se viram compelidas a uma reestruturação, uma vez que os consumidores migram algumas exigências a pautas sobre propósitos de sustentabilidade e trabalho ético. A transparência radical e a vigilância cidadã online, são outros fatores que agregam ao motor de mudança, mesmo que lenta.

“Entendemos que a informalidade aumenta casos de exploração, conhecidos como escravidão moderna. Se uma oficina é informal ela é invisível, o que dificulta muito o combate a condições precárias de trabalho”, explica Dari Santos, fundadora do Instituto Alinha, empresa que atua em frentes diversas para estruturação e fiscalização da cadeia de moda via tecnologia, e formalização de oficinas de costura no Brasil.

Entendendo o cenário, e com a crescente exigência sobre mudanças, a questão que resta é: como saber, de fato, como são feitas as minhas roupas?

Índice, selo, certificação: como ver além de dados?

Foto campanha colaborativa Entireworld e Nordstrom de 2020 (reprodução/Misha Taylor)

Com a comoção pública e os vários movimentos que surgem em prol da transparência na cadeia produtiva de moda, o consumidor final pode se equivocar quanto à funcionalidade ou se confundir na interpretação de cada número, registro e índice que vêm traçando novos panoramas para um consumo consciente.

Então, o primeiro passo é entender as diferenças entre as diretrizes e os selos. “As diretrizes partem de organizações como a ONU ou a União Europeia e vão se transformando em critérios, que são utilizados por organismos como a ISO e a ABNT até que se tornam normas”, explica a professora especializada em Design para Sustentabilidade da Universidade Positivo no Paraná, Fátima Carvalho. Depois de concluir esse processo, as normas são utilizadas pelos órgãos certificadores para criação de selos específicos, regulamentando determinados produtos ou serviços (listamos nesta matéria as 8 certificações mais procuradas por marcas em 2019).

Segundo a professora, eles seriam uma maneira das empresas comunicarem para o consumidor suas ações em prol da sustentabilidade (social, ambiental, etc). “A importância dos selos que começam a aparecer no varejo, na minha opinião, é trazer a discussão sobre a sustentabilidade diretamente para o consumidor, como parte integrante e indispensável desse sistema”, explicou.

Mas, Fátima Carvalho também enfatiza que, há um problema: a proliferação de selos. Nas últimas semanas publicamos aqui no Even More uma matéria escrita pelo Business of Fashion sobre o perigo do greenwashing na indústria da moda. Com selos se tornando cada vez mais acessíveis, o consumidor precisa também desenvolver uma habilidade crítica sobre aplicação e veracidade de cada título conquistado por empresas, e o que de fato eles representam. “É comprovado que muitos selos são redundantes, enquanto outros transmitem ideias distorcidas para o consumidor”, completou a professora.

Hoje no Brasil existem relatórios de índices de transparência (como o próprio Índice de Transparência na Moda do Fashion Revolution) que contam com as principais marcas de moda atuantes por aqui. Mas, é importante ressaltar que plataformas como essas evidenciam um esforço interno da marca na comunicação sobre cadeia produtiva, matéria-prima, etc. O que confirma a idoneidade da informação compartilhada é a construção de confiança com a marca e outras plataformas de rastreabilidade de informação.

O número apontado em um índice sobre crescimento de transparência, por exemplo, não certifica necessariamente que aquela informação compartilhada é verdadeira, ou integral sobre as práticas de determinada empresa (falamos mais sobre essa relação nesta matéria). Da mesma forma, a criação de novos selos pressupõe uma continuidade de trabalho acerca da confiança sobre o produto, pautada numa transparência e, por vezes, interatividade com o consumidor final.

“O selo terá que se colocar no mercado como uma ‘marca’ também, ou seja, mostrar confiança, consistência e credibilidade, tendo em vista que não há órgãos fiscalizadores ou agências reguladoras para isso”, comenta Fátima.

A fiscalização no mercado de varejo têxtil brasileiro

É nesse momento em que as empresas de compliance ganham um papel importante, e desafiador, na construção desses caminhos sobre transparência no mercado. O compliance pode ser definido como uma gestão que coloca as marcas dentro dos parâmetros éticos, sociais, ambientais e corporativos. Mas não é tão simples quanto parece.“É um sistema complexo em que a base é o capitalismo, onde o objetivo é o lucro. Por consequência, compliance não é prioridade na maioria das empresas”, revela Dari, do Instituto Alinha.

A própria ABVTEX criou em 2010 o chamado Programa ABVTEX em parceria com varejistas e, desde lá, realizou mais de 36 mil auditorias em confecções e subcontratados, aprovando 3.685 empresas em 18 estados brasileiros. Para quiser se associar ao programa é preciso passar por uma auditoria para a verificação das condições de trabalho dos funcionários, saúde e segurança, validações da cadeia produtiva, transparência na gestão e o compromisso com o meio ambiente.

“O Programa ABVTEX é em prol da responsabilidade social, do compliance e da promoção do trabalho digno, garantindo os direitos dos trabalhadores e combatendo o uso de trabalho análogo ao escravo, infantil e estrangeiro irregular por fabricantes e seus subcontratados”, explica o diretor executivo da ABVTEX, Edmundo Lima.

Dados da Associação, de dezembro de 2019, mostram que 335.394 trabalhadores foram diretamente impactados de maneira positiva pelo Programa, e que isso corresponde a 60% das cerca de 540 mil pessoas que trabalham nacionalmente na indústria de vestuário. Os benefícios do Programa vão além do selo de certificação e, entre todos, Edmundo destaca “a mitigação de riscos de passivos trabalhistas; melhoria no ambiente de trabalho e redução de acidentes, o que diminui o absenteísmo; e maior motivação e retenção de trabalhadores”.

Segundo a ABVTEX, cerca de 30% das vendas do varejo têxtil no Brasil são efetuadas de forma ilegal, o que pode induzir ao uso de mão de obra análoga à escravidão. (Foto/Reprodução)

Mas apesar dos números, Edmundo lembra que cerca de 30% das vendas do varejo têxtil no Brasil hoje são feitos de forma irregular, isso significa que ⅓ do comércio nacional atua na informalidade. “Estimativas do Fórum Nacional Contra a Pirataria e Ilegalidade apontam que a perda dos setores empresariais e dos governos federal, estadual e municipal geradas pela sonegação fiscal representam aproximadamente R$ 115 bilhões ao ano”, completa.

Ainda segundo o diretor, esses desafios se tornam maiores quando a cadeia de fornecimento é formada em 97% por micro, pequenas e médias empresas. “Ao exigir o cumprimento da legislação fiscal/trabalhista o Programa ABVTEX identifica onde estão as irregularidades e ajuda a coibir o desvio de conduta de empresários na busca por maior competitividade e lucro através de meios ilícitos”, comenta.

Mão-de-obra regular e fiscalizada

Em 2014, a vontade de promover a formalização de pequenas oficinas de costura e mitigar de alguma forma estes impactos da cadeia têxtil brasileira, foi o impulso para a criação do Instituto Alinha, negócio social que promove uma transformação em três frentes: formalização de mão-de-obra, compliance e conexões entre consumidores, empresas e oficinas. “Esse é uma demanda conhecida da moda, que é uma das cadeias de produção mais informais que existem”, comenta Dari Santos, do Instituto.

O Alinha tem hoje 125 oficinas de costura cadastradas no programa, das quais 101 já foram assessoradas e 23 alcançaram estruturas consideradas alinhadas pelo programa. O assessoramento envolve etapas de formalização das estruturas, instalações elétricas, saúde e segurança do trabalho, todos verificados por equipes. Quando isso é atingido minimamente, o Instituto conecta as oficinas com marcas e estilistas comprometidos com uma moda mais justa.

“O maior desafio são os investimentos necessários para implementações que envolvem os custos de inovação tecnológica, projetos pilotos para testar hipóteses de ideias pioneiras, e por fim a sustentabilidade no longo prazo, já que todo o serviço oferecido para as oficinas é gratuito (os costureiros investem apenas na implementação de melhorias estruturais de suas oficinas), e as pequenas marcas, que são quem mais demandam a nossa plataforma, possuem pouco capital para investimento”, explica Dari.

O papel do consumidor

O projeto, foca na qualidade do impacto dentro da cadeia, que chega até o consumidor final como informação acessada por QR Code na tag do produto – via tecnologia blockchain (assunto que abordamos por aqui). Mas, a adesão ao processo é incerta. “Há marcas que já nascem com uma essência de consciência do coletivo, preocupação com fornecedores. E outras, que passam a entender o valor disso no longo prazo. Seja para evitar multas de termos de ajustamento de conduta (TAC), seja porque há uma escassez de bons fornecedores, logo, se você valoriza e investe na sua cadeia você sempre terá uma garantia de produção qualificada, além de redução de perdas produtivas por erros de produção”, explica Dari.

Para a professora Fátima Carvalho, a adesão das marcas à fiscalização só será maior quando o empresário conhecer as potenciais vantagens para o negócio, “Acredito que quando o empresário reconhecer o potencial de inovação que a sustentabilidade pode trazer, em termos de modelos de negócios, novos produtos e novas formas de produção, verá como grande vantagem para sua marca”.

O valor agregado da transparência certificada é um caminho em ascensão. Para consumidores, uma informação qualificada e mesmo de caráter mais educacional tem impacto em decisões de compra atualmente. Uma pesquisa feita pela IBM em parceria com a National Retail Federation (NRF), entrevistou cerca de 19 mil consumidores de 28 países (incluindo o Brasil), em todos os grupos demográficos e gerações, com idades entre 18 e 73 anos; e revelou que o propósito e procedência da marca supera o custo e a conveniência para os compradores de hoje.

Mais do que perguntar quem fez nossas roupas, temos que perguntar a história por detrás de cada peça, quanto a costureira ganhou, quantas pessoas foram envolvidas na confecção, etc. – Dari Santos

Na mesma pesquisa, 79% de todos os consumidores afirmaram julgar importante que as marcas forneçam autenticidade garantida, como certificações. E, dentro deste grupo, 71% estão dispostos a pagar um valor maior – em média 37% a mais – em compras de empresas que ofereçam total transparência ao produto.

“É um nicho que cresce a cada dia”, observa Dari. Pelo Instituto Alinha, são 251 marcas no sistema (marcas que se cadastraram ou assinaram um plano ao longo dos 6 anos de atuação). “Dessas marcas, 15 tem planos ativos, ou seja, pagam um plano de assinatura atualmente. Usando a TAG e rastreando suas produções temos 7 marcas”, revela.

As assinantes da plataforma do Instituto têm acesso às oficinas de costuras alinhadas e também a um sistema de gerenciamento de produção, além da tecnologia Blockchain, que garante transparência e rastreabilidade. A Tag Alinha, garante o fácil acesso dos consumidores às informações da produção conhecendo, assim, a história por trás das suas peças.

“A rastreabilidade foi uma demanda em entender o papel do consumidor, que é central na mudança que precisamos na moda. Mais do que perguntar quem fez nossas roupas, temos que perguntar a história por detrás de cada peça, quanto a costureira ganhou, quantas pessoas foram envolvidas na confecção, etc. Quando descobrimos o blockchain em 2017 entendemos que era o elo que faltava”, comenta Dari. Com a última ponta, o Instituto hoje envolve costureiras e costureiros, marcas e estilistas e consumidores.

Pela ABVTEX, além do Programa, a Associação atualmente participa de outras iniciativas. “Mesmo diante de tantas ações, é necessária a união dos diversos atores: iniciativa privada, governo, organizações da sociedade civil, trabalhadores do setor e sociedade para conduzir as mudanças tão importantes para uma cadeia de valor mais sustentável no Brasil”, comenta Edmundo.

A professora Fátima concorda que as soluções devem ser sistêmicas e que devem atingir muito além dos fabricantes e fornecedores: “A informação e conscientização são os mecanismos para a ponta do consumo, atuando para uma mudança de comportamento. Dessa maneira, fabricantes, cadeia produtiva, consumidores e governos, toda a sociedade estará envolvida”.

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A Associação disponibiliza publicamente todas as diretrizes do Programa, que podem ser amplamente consultados no site oficial (veja aqui), já que o intuito é democratizar as informações e deixá-las acessíveis ao público e também às empresas interessadas. Da mesma forma, pelos canais do Instituto Alinha, você encontra de maneira didática os planos e maneiras de participar, seja com oficinas, marcas ou como usar a TAG Alinha (veja aqui).

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1 Comment

  1. […] Nesta matéria aqui, onde falamos sobre compliance e o rastreio da cadeia produtiva na moda, citamos o Instituto Alinha, negócio social que formaliza e conecta oficinas de costura com marcas preocupadas com a produção ética no Brasil. Para chegar à ponta da cadeia e impactar o consumidor também, a empresa aderiu em 2017 à tecnologia de blockchain, desenvolvido em parceria com o Instituto C&A, para entregar no produto final uma forma de rastreio confiável ao público. […]

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