Como os brechós se mantêm atrativos mesmo na pandemia?


Considerado um dos segmentos de maior expansão na moda, o second hand continua sendo atrativo, mesmo diante da desaceleração causada pela pandemia.

As compras de segunda mão, em brechó, são uma realidade há tempos, e mundialmente. Segundo relatório da GlobalData com a ThredUp, a previsão de crescimento era de 24 bilhões de dólares em 2019, para 51 bilhões até 2024 – considerando um cenário pré-pandemia. O relatório chega a pontuar o segmento como a verdadeira ameaça ao mercado de fast-fashion. No Brasil não era muito diferente, segundo um relatório do Sebrae, o crescimento foi de mais de 20% entre 2013 e 2015, totalizando no ano 13,2 mil empreendimentos do setor.

A ascensão por aqui tem diversas variáveis possíveis, desde a desmistificação da roupa usada e abertura de mercado através de brechós de luxo, que deram entrada à remodulação de espaços para trabalharem com foco em curadoria de peças usadas, afastando o estigma comum de lojas amontoadas ou destinadas a produtos populares; até uma crise econômica que movimenta o modelo de venda e compra de peças  de segunda mão, tendo em vista a vantagem financeira (aqui dá pra ressaltar o crescimento de plataformas como o Enjoei, por exemplo).

Há ainda, com força nessa nova construção de mercado, as pautas de sustentabilidade que vêm criando novas abordagens nos últimos anos, como a economia circular, e que estão diretamente relacionadas à consciência de consumo na qual se baseiam muitos modelos de negócio em second hand.

“Tem uns dados interessantes de que no mundo, são cerca de 93 bilhões/m³ de água que são gastos por ano na produção têxtil e uma emissão de 1 bilhão de toneladas de gases prejudiciais ao planeta. Então, a ideia de olhar para a moda sustentável e entender o mercado de second hand como uma opção veio crescendo nos últimos anos”, nos explica a pesquisadora de tendência Sabina Deweik.

CORONA VÍRUS E O SECOND HAND

Com o distanciamento social, saem na frente as empresas que já haviam migrado para abordagens digitais, mas mais ainda aquelas que possuem abordagens propositivas e não apenas pautadas na aspiração do ter – ainda mais em se tratando de produtos não essenciais como roupas. A sustentabilidade e o consumo consciente, que circunda o mercado de brechós, são exemplo.

“Uma das coisas essenciais para falar sobre o futuro e o que essa pandemia nos mostra, é que tinham algumas coisas que já estavam em curso e a busca por sustentabilidade era uma delas. Só que agora vai ter uma cobrança maior por parte da sociedade para que as empresas sejam mais responsáveis do ponto de vista ambiental e do ponto de vista social”, explica Sabina.

E isso é sim, uma característica de vantagem e oportunidade de ascensão para o consumo de segunda mão. É tão atrativa, que varejistas estão adotando medidas para adentrar de alguma forma no nicho. A notícia mais recente é a de que a multimarcas de Recife, Dona Santa, lançou essa semana uma plataforma digital para venda de peças usadas, chamada Projeto Circular.

“Acredito desde sempre que a gente precisa fazer a energia circular, e nada melhor do que movimentar objetos pessoais. Com a pandemia esse movimento parece ser mais necessário do que nunca”, diz a responsável pela marca e o projeto, Juliana Santos, em entrevista à revista Glamour.

Pelos Estados Unidos, com um cenário econômico obviamente diferente, a expansão do second hand segue um ritmo particular, mas também muito promissor. Segundo dados da agência de pesquisa Ernest Reseach, a plataforma já bem popular, Rebag, vendeu em abril, mais peças que na última Black Friday. Por lá também, vemos um fluxo de marcas fazendo parcerias com plataformas como The Real Real para canalizar estoques parados, consequência da quarentena.

A CRISE SANITÁRIA E A NECESSIDADE DE TRANSPARÊNCIA

“Mas a preocupação sanitária é extremamente importante, preocupação com segurança e proteção. Já temos dados que mostram que 7 em cada 10 brasileiros já mudaram os hábitos de higiene”, pontua Sabina. Num cenário pandêmico e sem projeções concretas quanto à segurança em estar novamente em contato, o receio recai sobre o outro. No mercado de second hand essa ponte entre pessoas e produtos, que era um fator essencialmente positivo, pode se transformar em uma interrogação e potencial medo de consumir o que foi de outro.

Mas há soluções, e fundadas essencialmente em movimentos que já vinham encontrando espaço anteriormente: a transparência. Para Sabina criar um awereness, uma consciência, mais ampla com o consumidor é uma solução possível. “Acho que as lojas, as empresas que trabalham com isso vão precisar ser extremamente transparentes com o backstage. As empresas vão ter que abrir todo o processo para o consumidor, para que ele tenha uma segurança maior do que ele está comprando e como aquilo está seguro para a saúde dele”.

Para a pesquisadora, a demanda por um acompanhamento mais próximo sobre os processos pode ser uma abertura interessante para a área de tecnologia, no desenvolvimento de apps ou programas que facilitem esse rastreamento por parte do consumidor. Mas além do canal com quem compra quem vende, também precisa haver uma garantia à segurança de funcionários das empresas setor.

SOLUÇÕES CRIATIVAS PARA O MERCADO

Em Curitiba, duas empresas do nicho já criaram protocolos fáceis para solucionar o a questão de recebimento das peças. Pela TROC, o maior brechó online do Brasil existe uma quarentena para as peças que chegam, via entrega no galpão. “Nós recomendamos que as peças venham lavadas, não temos o processo de lavanderia interno, pois vai de encontro à questão que sustentabilidade em que acreditamos”, diz Luanna Toniolo, fundadora da TROC.

Antes de serem manipuladas pela curadoria, as caixas e sacolas que vêm dos mais variados lugares para serem vendidas pelo site, ficam paradas por 48h. Segundo Luanna, a medida foi adotada segundo estudos sobre a permanência do vírus em superfícies a que tem acesso.  “Não estamos considerando o processo de lavagem, pois ele não nos faz sentido, pelo menos não ainda”, complementa.

Pelo Lavô Tá Novo, brechó que divide canais entre a loja física e o e-commerce, Carina Cardoso tem adotado a pré-seleção de peças para venda via whats app. Com avaliações sempre presenciais paradas devido ao fechamento temporário da loja, a novidade gerou um grande engajamento de pessoas. “Tem muita avaliação pelo whats, teve um dia que foram mais de cem”, conta. A logística hoje funciona da seguinte maneira, após a pré-avaliação via foto, um dia é estipulado para a entrega das malas que ficam na loja física por 48h, antes de Carina ir ao local sozinha terminar as avaliações presencialmente e depois combinar a entrega, após o mesmo período de 48h. “Não fica ninguém na loja, só entregam a mala e depois vão buscar”, ressalta.

registro da seleção no Lavô Tá Novo (reprodução)

A percepção das clientes tem sido positiva, além de que a manutenção da possibilidade de venda de peças é favorável não apenas à circulação de produtos, essencial ao funcionamento deste mercado, como alternativa de renda para quem está em casa e decide fazer uma limpa no guarda-roupa. Para Sabina, os comportamentos caminham juntos, consumo considerando mais fatores, sociais e ambientais, para a decisão de compra e a segurança sobre a procedência dos materiais em termos de sencond hand.

“Temos o fortalecimento de valores como solidariedade e empatia, assim como um questionamento de um modelo de sociedade baseado apenas no consumismo. Tudo vai ser repensado, o consumo pelo consumo não vai existir. Com todos esses cenários, eu creio que é um setor interessante para o crescimento, porém, tomadas as devidas precauções e inovações necessárias para que as pessoas vejam isso como algo positivo”, conclui.

 

 

imagem de capa: reprodução barracão TROC.

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