Opinião

Como a tecnologia pode reconfigurar a terceirização de mão-de-obra na moda

21 de maio de 2019 - 09h43
Por Even More

A automação da cadeia para acabar com a subcontratação é uma solução mais complexa do que parece

Carmela Scarpi

Desde a criação da demanda da moda, como concebemos hoje, vivemos um fluxo intenso de estímulos de compra e, consequentemente, produção. Na equação final se subtraem custos, a qualquer preço. O modelo, conhecido como fast-fashion reconfigura desde os anos 1990 os métodos de produção para a descentralização de mão-de-obra, que viaja entre países na busca por valores baixos e leis trabalhistas mais flexíveis. E, por fim, as consequências já conhecemos bem – numa localização que privilegia o sudeste asiático.

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Mas hoje – a despeito das diversas iniciativas que lutam pela conscientização do consumidor alienado ao novo método de trabalho daquilo que veste e investe – temos outro elemento que pode alterar rápida e drasticamente o atual cenário da terceirização da mão-de-obra de costura: a tecnologia.

Na contramão da corrida mundial pela redução de custos através de subcontratações e parques de produção flutuantes – encabeçadas por iniciativas de sourcing de marcas líderes nos Estados Unidos e Europa-; as novas tecnologias referentes à costura garantem benefícios imediatos de ROI por meio da integralização da produção no país de origem. Como? Subtraindo o fator humano da relação de trabalho.

A SoftWear Automation, uma start up de robótica com sede em Atlanta nos Estados Unidos, anunciou em fevereiro o Sewbots-as-a-Service. A iniciativa é um serviço de aluguel que permite a fabricantes, marcas e varejistas manufaturar e fabricar peças dentro dos EUA, a um custo menor que a terceirização e com maior previsibilidade e qualidade, uma vez que as operações são programadas por máquinas.

Ideias que englobam a automação das indústrias ao novo mindset social da economia de compartilhamento conseguem oferecer soluções aparentes ao acesso de mercados menores à tecnologia de ponta, a pulverização do setor por conta a terceirização e retorno de investimento. Num primeiro olhar, isso possibilitaria o aumento da produção têxtil com base nos EUA (ou nos países em que o serviço funcionaria), uma vez que o aluguel da máquina gera benefícios também pela possibilidade de escala em varejistas, marcas e fabricantes.

A criação deste sistema, inclusive, surgiu pela identificação da escassez de mão-de-obra especializada na área de costura dentro do país. Com o constante fluxo migratório do serviço manual para o sudeste asiático, o mercado interno americano se desfez inviabilizando a retomada do setor dentro do método tradicional de facções, mesmo com incentivos salariais. Com a criação da automação na costura e a viabilização pela economia de compartilhamento, a conta parece favorecer todos os lados.

Porém, os impactos desse possível cenário são muitos. Para os EUA – e posteriormente quem puder introduzir a tecnologia no mercado de costura – isso incentivaria a produção local de peças, diminuiria o deslocamento excessivo e produção global descentralizada e estimularia o crescimento do mercado interno. Mas, apesar dos EUA solucionarem seu déficit de mão-de-obra, a nova alternativa teria um grande impacto na indústria manufatureira asiática, que emprega trabalhadores com baixos salários.

Segundo algumas estimativas da Organização Internacional do Trabalho, os robôs podem chegar a substituir 64% dos trabalhadores de têxteis, vestuário e calçados na Indonésia, 86% no Vietnã e 88% no Camboja. Com esses dados podemos estimar que a aparente solução para as subcontratações e trabalhos análogos à escravidão não necessariamente se concretiza, uma vez que a automação da indústria não atinge o cerne do problema: a desvalorização da mão-de-obra. Ela simplesmente deixaria de existir em certa medida. O modelo de operação fast-fashion continuaria acelerando suas metas de produção e venda, engolindo o tempo útil de peças, sem necessariamente valorizar o custo de produção manual do trabalho de costura (mesmo o mais especializado).

De acordo com o próprio CEO da SoftWear Automation, Palaniswamy Rajan, a fronteira de tecnologia atual permite apenas alguns processos de fabricação mais simples. “Nós nunca vamos fazer um vestido de noiva”, diz. E visto que a costura menos especializada seria solucionada pela tecnologia, haveria espaço para redirecionar os investimentos na contratação mais justa da mão-de-obra especializada, ou mesmo na capacitação deste trabalhador para suprir uma demanda que continua a existir?

Fazendo uma projeção com o desenvolvimento da cadeia têxtil no Brasil, os impactos seriam maiores, visto que ainda possuímos todas as etapas do processo internalizadas no país, sendo a costura uma das principais. E, apesar de vislumbrar grandes mudanças com o avanço das inovações junto à possibilidade facilitada de acesso à tecnologia, resta entendermos se são necessariamente essas as mudanças que precisamos para um futuro melhor da moda.

Foto Capa: reprodução internet

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