Brasil amplia calendário de semanas de moda de nicho para abraçar a demanda de sustentabilidade


Como o mercado da moda está se adaptando à demanda dos consumidores por práticas sustentáveis na indústria

As reflexões sobre o calendário atual das Semanas de Moda ganharam mais força esse ano com a decisão recente da Suécia de cancelar os desfiles de S/S 20 da Semana de Moda em Estocolmo para avaliar soluções mais sustentáveis. Outro acontecimento marcante foram os protestos pacíficos do grupo ativista Extinction Rebellion durante o S/S 20 de Londres contra o grande desperdício da indústria da moda, demandando também o cancelamento da Semana de Moda londrina. “Apesar do pedido não ter sido atendido pelo British Fashion Council, organizador dos desfiles em Londres, vimos iniciativas de transformação da própria indústria acontecerem nesta última temporada.”, nos conta Isabela Rez, Client Services do WGSN.

Leia também: Semanas de moda brasileiras e os novos movimentos da moda

Se por um lado temos as Semanas de Moda convencionais se adaptando à demanda do consumidor por uma vida mais sustentável nas estratégias dos eventos, do outro lado novas iniciativas surgem para alterar esse paradigma. Os eventos sustentáveis ou eco conscientes, como você quiser chamar, ganham cada vez mais força. E, ao contrário dos tradicionais, eles vão muito além de desfiles e procuram envolver o público geral, oferecendo entrada gratuita ou a venda de ingressos, além de palestras e workshops. Para Isabela Rez, essa mudança é inevitável e parte não só dos consumidores, mas também da Indústria: “A sustentabilidade está se tornando um fator não negociável para a indústria da moda, ou seja, não é mais uma opção e deve ser considerada como estratégia para sobrevivência no futuro do mercado. Os movimentos sociais, políticos e econômicos globais atuais comprovam isso, mostrando que o modelo atual das Semanas de Moda já está sofrendo transformações motivadas pelos dois lados, tanto dos consumidores quanto da própria indústria.

O paralelo das Semanas de Moda tradicionais

Pelo Brasil, essas iniciativas já começaram a surgir. O Brasil Eco Fashion Week (BEFW) nasceu em 2017 e hoje agrega cerca de 120 colaboradores e dezenas de empresas envolvidas no patrocínio, apoio e concepção das edições. O evento se estabeleceu em São Paulo e já na primeira edição, atraiu três mil pessoas. Em 2018, bateu o recorde de visitas, chegando a mais de quatro mil, ao longo de três dias. Gratuito e aberto ao público, o evento vai muito atém de desfiles e possui conteúdos, palestras, workshops, produtos inovadores, atividades de empreendedorismo e soluções para a indústria. A 3ª edição do BEFW acontece nos dias 16, 17 e 18 de novembro no Unibes Cultural em São Paulo. “O evento segue a proposta inicial, tendo diversos espaços para o público, como o showroom de marcas, agora chamado de Mercado Eco, e o Espaço Conhecer, contemplando 4 palcos para realização de atividades de conteúdo”, conta Rafael Morais, um dos idealizadores.

desfile BEFW (Reprodução/Agência Fotosite – Marcelo Soubhia)

As novidades dessa edição incluem o Espaço Inovar, em parceria com o Senais Cetiqt, que contará com uma exposição de cases e projetos inovadores e conteúdos ressaltando inovação, tecnologia e sustentabilidade. O evento permanece com sua grade de exposições de empresas, espaços com debates, bate-papo, talks, workshops, desfiles e também com o chamado Espaço Circular que em parceria com o Sebrae, direcionará atividades para pequenos negócios e empreendimentos com foco em economia circular. Tudo isso com a entrada gratuita: “ […] manteremos sempre nossas propostas e diferenciais como semana de moda – buscar sempre o maior acesso, com as entradas e atividades gratuitas para todos.”

Assim como o WGSN, Rafael Morais acredita que as Semanas de Moda tradicionais têm se adaptado à sustentabilidade, oferecendo mais espaço aos designers que abordam redução de impacto e abrangendo o debate sobre o tema nos eventos.Também acreditamos que, além da força da informação para as mobilizações e mudanças mais profundas no mercado, a questão do acesso’ é importante, ou seja, deixar a moda mais acessível ao público comum pode sim ser um caminho de catapultar mudanças em escalas maiores, rumo à sustentabilidade e economia circular.”  Segundo Rafael, o movimento de sustentabilidade na moda teve um real crescimento a partir de 2017 e a entrada de grandes varejistas ajudou na aceleração de mudanças, trazendo mais ofertas de produtos e matéria-prima: ”[…] a indústria nacional tem se mobilizado sim, transformando processos produtivos e buscando novos materiais e ações com menor impacto ambiental – talvez seja uma sensação de que ‘as coisas podiam ser mais rápidas’.” 

Rafael ainda afirma que as mudanças no mercado da moda estão acontecendo aos poucos, seja em um posicionamento em relação à emissão de carbono, metas de empresas de serem mais sustentáveis, ou até na redução de consumo e otimização de processos – tudo alinhado com questões ambientais, já que o consumidor cobra cada vez mais posicionamentos e transparências: “Cremos que, para ter um futuro mais sustentável, inevitavelmente teremos de passar por etapas de informação e conhecimento a respeito destas temáticas, o que já tem sido mais ‘fácil’ do que a 30 anos atrás com o nível de conectividade e fluxo de informações que vivemos neste século 21.”, conta.

A sustentabilidade está se tornando um fator não negociável para a indústria da moda, ou seja, não é mais uma opção e deve ser considerada como estratégia para sobrevivência no futuro do mercado” – Isabela Rez, WGSN

Daniela Penteado, expert do WGSN, revela que a previsão é que o consumo de moda sustentável aumente nos próximos anos. “A sustentabilidade torna-se o novo padrão seguindo as demandas dos consumidores. Há a previsão de que os lojistas especializados gastem quase o dobro em moda sustentável nos próximos cinco anos.”

É preciso discussão

Foi por essa demanda que este ano nasceu o Rio Ethical Fashion (REF), o 1º Fórum Internacional de Moda Sustentável do Rio de Janeiro que ocorreu durante 3 dias em Junho. Idealizado pela diretora criativa Yamê Reis, o evento colocou em pauta temas como a diversidade na moda, ética e o novo luxo, economia circular e os desafios da sustentabilidade na indústria brasileira, entre outros. E por que a cidade escolhida foi o Rio? Segundo Yamê, a cidade tem o poder de disseminar novos comportamentos: “O Rio de Janeiro tem uma tradição de ecoar movimentos culturais e disseminar novos comportamentos. É uma janela para o mundo e tem um histórico importante na área ambiental por ter sediado a Eco-92 e a Rio +20.”

O insight para criar o REF aconteceu em 2016 quando Yamê Reis aprofundava sua pesquisa sobre Sustentabilidade na Moda e identificou espaços de discussão do tema em grandes cidades como Berlim, Amsterdam, Londres e Copenhagen: “Percebi que eles tinham uma rota de crescimento de público a cada ano e que novas cidades começavam a divulgar seus eventos de mercado com marcas sustentáveis sempre acompanhados de espaços de discussão.”, conta Yamê Reis.

O evento tem apoio do Instituto C&A, apoio estratégico do Instituto-E (idealizado e presidido por Oskar Metsavaht), além de consultoria de marketing sustentável de Lilly Clark. O sucesso foi tão grande que a segunda edição já tem data e acontecerá no dia 05 de Junho de 2020 na cidade do Rio de Janeiro. Segundo Yamê Reis a expectativa é que a segunda edição do evento consiga mais adesões para crescer o número de palestrantes e atividades paralelas que envolvam um público cada vez maior: “A repercussão foi muito positiva, o evento sempre teve uma adesão imediata entre um público ávido por compartilhar experiências muito ricas, que já estão acontecendo no Brasil e que precisavam ecoar mais fortemente.”

A segunda edição do Rio Ethical Fashion já tem data: acontecerá no dia 20 de Junho de 2020. (Reprodução/Rio Ethical Fashion)

Com o intuito de inclusão, o REF possui a venda de ingressos aberta para todos os dias do evento e qualquer pessoa engajada ou profissional da área pode comparecer. Ainda assim, o evento possui ações para o consumidor final como na primeira edição quando aconteceu a Feira de Trocas em parceria com a Global Fashion Exchange e a Farm no IED RIO. De acordo com Yamê, o objetivo final do evento é conectar agentes transformadores e desenvolver ao máximo as potencialidades de cada um “provocando assim ações que transformem nossa indústria em algo positivo voltado para o bem estar das pessoas e do planeta.”

 

foto de capa reprodução/Agência Fotosite – Marcelo Soubhia

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