BEFW: As inviabilizações práticas para uma circularidade na moda brasileira


Volume, para aqueles que percebem um ruído incômodo de tudo o que reverbera hoje. Velocidade para quem já nem lembra mais do que tanto corremos atrás. Nos dois primeiros dias de Brasil Eco Fashion Week – maior plataforma que discute a moda e sustentabilidade dentro do contexto nacional de mercado e indústria – essas duas palavras foram as que ficaram envoltas a todas as discussões a que pude participar.

Falar sobre mídias, pesquisa, ativismo, mercado, prática e vendas num mesmo contexto é mais que desafiador. E, por falar em desafio, tentar acompanhar a programação é outro. São inúmeras palestras interessantes, com pessoas interessadas (como sempre costumo colocar) e na ansiedade de ter acesso a tudo já começa minha reflexão, que talvez seja o grande ponto de transformação da moda (e das nossas vidas) hoje, sobre: saber fazer suas escolhas.

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Nesse primeiro texto, quero trazer uma percepção muito clara sobre a relação estreita entre mudanças e políticas que, embora enfrente tanta resistência num mercado gerido por criatividades e estéticas, precisa ser pressionada para conseguirmos entender o que é a moda em sua totalidade. E, se não for sobre política ou mesmo a sociedade, não sei mais sobre o que é.

Na perspectiva circular, não existe lixo

Como mídia, me alegra ver um discurso que construímos cotidianamente há 6 anos se repetir em diversas vozes, mas mais do que isso, entender como ele pode ser colocado na prática. Durante o painel “Soluções para a reciclagem têxtil no Brasil”, vi pulsante o tema da circularidade e reciclagem com todas as suas dificuldades da perspectiva de quem dia a dia promove essa mudança. Daniela Passauno da Renovar Têxtil, José Guilherme da Cotton Move e Mayumi Ishikawa da Momo Retalhos discorreram à plateia lotada todas as diferenças e abrangências possível no pensamento de reciclagem têxtil no Brasil hoje.

Operando com diferentes matérias-primas entre o algodão, a poliamida e o poliéster todos concordavam que para além de criar uma valorização de sustentabilidade como termo amplo, é preciso enxergar no resíduo uma matéria-prima que demanda trabalho – de triagem, processamento e desenvolvimento para o retorno às cadeias; sejam da moda ou outras destinações, como a automobilística. “A maioria de empresas que nos procuram, nos veem como uma extensão de aterros sanitários. Elas estão ali para solucionar o problema de resíduo delas, sem a perspectiva da reciclagem e essa mentalidade é um empecilho para nós”, conta Daniela da Renovar Têxtil.

Painel “Soluções para a reciclagem têxtil no Brasil” com Daniela Passauno da Renovar Têxtil, José Guilherme da Cotton Move e Mayumi Ishikawa da Momo Retalhos

Para além da precária distinção sobre descarte, José Guilherme alerta sobre a necessidade urgente de regulamentação, um grande impeditivo de crescimento do setor visto que as cobranças e exigências não são aplicadas. “Resíduo é um problema de todos: do empresário, da reciclagem, do governo e do consumidor. A mentalidade precisa ser mudada pois é um problema sério não apenas na cadeia têxtil – acessórios, por exemplo, não têm nenhuma regulamentação sobre químicos e metais pesados”, conta José Guilherme.

Logísticas reversas e empresas liderando soluções

No contexto de descarte para além do painel de reciclagem, pudemos ver a preocupação de operações dentro do panorama da logística reversa de marcas como a da Vert Shoes durante o talk “O tênis pensado no contexto pós-petróleo”. A marca franco-brasileira que expôs seu novo produto esportivo de performance feito com 53% de matéria-prima de fontes renováveis ou recicladas, salientou seu programa em operação já na França (onde o nome da marca é Veja) de coleta de antigos pares para compor parte dos materiais destinados ao solado dos tênis de performance.

A fala de Leandro Elias Miguel e Réges da Costa não especifica os motivos pelos quais a operação ainda não acontece também no Brasil, porém voltando ao painel sobre reciclagem, um ponto de atenção foi levantado por José Guilherme da Cotton Move: a bitributação.

O encarecimento de matéria-prima reciclada pela bitributação

No contexto de reciclagem e logística reversa, a matéria-prima que já havia recebido sua carga tributária quando virgem, retorna ao mercado para ter incididos novamente os mesmos tributos. Segundo os participantes do painel “Soluções para reciclagem têxtil no Brasil”, parte da consequência dessa bitributação é a inviabilização financeira da matéria-prima reciclada. Com o encarecimento aliado ao preconceito acerca do método produtivo, a opção de muitos compradores é recorrer novamente ao material virgem linearizando uma economia que precisa ser pensada de forma mais circular para a própria sobrevivência.

A terceira edição do Brasil Eco Fashion Week acontece nos dias 16, 17 e 18 de novembro na Unibes Cultural em São Paulo com uma programação extensa de painéis, exposições e desfiles para discutir o cenário nacional de moda e sustentabilidade.

Yamê Reis, em seu painel de apresentação da “Agenda Moda Brasil: um guia de ação para moda sustentável” trouxe o dado de que hoje, apenas 1% do material têxtil produzido é reciclado após o fim do seu ciclo de vida. A coordenadora do Rio Ethical Fashion, plataforma de projeção internacional sobre as discussões e ações de sustentabilidade na moda brasileira, reforçou ainda as bitributações como impeditivos de crescimento.

O documento apresentado na fala, foi concebido por mais de 80 profissionais com o estabelecimento de metas e questionamentos práticos para todos os setores da cadeia produtiva como um guia de ações, e pode ser baixado gratuitamente pelo site (link aqui).

Na fala de Yamê há, assim como no documento, a importância de pensarmos a organização política como braço primordial de mudanças efetivas em termos de sociedade. “Quanto mais eu estudo sobre a sustentabilidade na moda, mais eu percebo que sem políticas públicas a gente não vai sair do lugar. Todos os lugares que avançaram na questão da sustentabilidade e da responsabilidade social tiveram ajuda governamental: Dinamarca, agora Inglaterra”.

A moda sempre esteve vinculada à política e, hoje, não é mais possível esconder-se nas estéticas e discursos rasos para estimular mudanças. Nas falas desse primeiro contexto que quis trazer aqui vemos que a velocidade de produção inviabiliza um fechamento de ciclo e o volume em que produzimos esmaga tentativas de solução junto à desinformação e falta de incentivo de governo. Com movimentos direcionados é possível reivindicar ações concretas de mudança, como, por exemplo, a aplicação efetiva do plano nacional de resíduos sólidos. Do contrário seguirão bandeiras hasteadas até que os braços cansem.

 

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