Alternativas de acesso a marcas de luxo são reflexo de uma mudança de negócios e consumo


Com novas possibilidades de acesso às marcas de luxo, pelo aluguel ou compra de segunda mão, negócios expandem a penetração de marcas na sociedade

por Nathalia Isabele de Souza

Se por um lado consumidores buscam novas formas de alcançar marcas de luxo, empresas brasileiras como a RentBela de Brasília e a paulistana Madame Recicla, criam um caminho para encontrar o público por meio do aluguel ou venda de itens de luxo de segunda mão.

A busca pelo status e experiência que essas marcas oferecem, hoje são democratizadas pelo acesso fornecido em novos modelos de negócio. Apesar de ser um mercado ainda em evolução no Brasil, nos Estados Unidos isso não é novidade: foi em 2011 que empresas como Real Real, Rebag e Rent The Runaway começaram a revolucionar o compartilhamento e a venda de segunda-mão de itens de luxo no país.

Leia também: Maior brechó da cidade, Lavô Tá Novo, muda de endereço

Como a tecnologia pode auxiliar na identificação de falsificações de luxo

Dicas de brechós em Nove York para conhecer

O brechó de roupas velhas é coisa do passado

De acordo com o relatório anual da Thread Up (empresa norte-americana que revende roupas online) o mercado de second hand cresceu 21 vezes mais que o mercado de venda tradicional nos últimos três anos. A expectativa é de que até 2023, esse segmento obtenha, nos Estados Unidos, um faturamento de 51 bilhões de dólares. Ainda segundo a startup, 26% dos consumidores de luxo optam por produtos de segunda mão se eles forem mais baratos.

Enquanto o público mais velho aos poucos vai sendo introduzido a esse serviço, a preocupação dos jovens com o meio ambiente é uma das causas do crescimento desse mercado. “Muitos de nossos fornecedores [clientes que fornecem itens de luxo para venda] ainda não se aventuram a comprar artigos de segunda mão, mas esse número vem caindo continuamente. E a ideia de reciclagem como forma de conservar o meio ambiente tem trazido os jovens para consumir nossos produtos. ”, conta Laura Graicar da Madame Recicla, empresa de São Paulo que surgiu em 2012 com o objetivo de vender itens de luxo usados por consignação.

Além do e-commerce, a Madame Recicla também possui um showroom presencial na capital paulista. O motivo é por que muitos clientes ainda têm receio da compra de artigos de luxo online. Mulheres na faixa de 40 anos e homens entre 40 e 50, compõem um público-alvo que agrega também os jovens que têm preferência pela facilidade virtual. “Vendemos muito ao pessoal do interior de São Paulo, muitos clientes do Norte e Nordeste, Minas, Paraná, Rio de Janeiro, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Todos felizes por terem uma peça autêntica pagando o valor de uma outra bem mais simples e “descartável”.

A Madame Recicla conta com um showroom presencial em São Paulo para atender clientes que ainda possuem receio de comprar itens de luxo online. Foto (Madame Recicla/Reprodução)

A inspiração para criar o e-commerce veio de negócios fora do Brasil como o Vestiaire Collective na França e o Real Real nos EUA. A seleção das marcas de luxo que são aceitas e o processo de curadoria é criterioso, desmitificando a imagem dos brechós tradicionais com peças mais velhas, e trazendo mais segurança a quem se interessa por itens de grifes. “Comprovar a autenticidade de produtos que não tenham nota fiscal, exige cuidado e expertise. Quando paira a dúvida, encaminhamos para um autenticador internacional, que trabalha também para a casa de leilões Christie’s em NY e, se não puder ser comprovada a autenticidade, o produto é devolvido ao fornecedor. ”, afirma Laura.

Renting is the new owning

Outra tendência atual é o sharing – o compartilhamento de tudo o que for possível. Temos de exemplo empresas conhecidas mundialmente como a Uber, Netflix e o AirBNB. Mas esse comportamento também está na moda e nos produtos de luxo. De acordo com o relatório da Price Water House Coopers de 2015, as receitas globais da economia de compartilhamento gerarão 335 bilhões de dólares até 2025.

A RentBela surgiu em Brasília em 2016 após as fundadoras Giovana Nardelli e Christine Utreras, se conhecerem durante os seus mestrados em Marketing Internacional na Hult International Business School, em Boston, nos Estados Unidos. Com o intuito de democratizar a moda luxo, o e-commerce trabalha com a consignação de 100% dos itens disponibilizados para aluguel na plataforma, fazendo com que o modelo de negócio se torne ainda mais consciente. “Decidimos abrir no Brasil, pois esse mercado era muito pioneiro aqui e ainda é.”, conta Giovana, uma das fundadoras.

A RentBela pode ser chamada de AIRBNB da moda já que 100% do acervo veio do guarda-roupa de outras mulheres. Foto (RentBela/Reprodução).

A Geração Z e os Millennials (geração Y) estão mais propensos a consumir esse tipo de serviço por priorizarem mais as experiências e menos a posse, dados da empresa de consultoria Bain & Company. A substituição de valores por conta da conveniência do aluguel não foi invenção dessas gerações, mas elas são responsáveis por grande parte do avanço deste mercado. Hoje, a RentBela atende mulheres de 25 a 54 anos alugando bolsas, carteiras, cintos e óculos de luxo com planos a partir de R$ 64,00 mensais. O valor ajuda na abrangência de um espectro grande de públicos em relação à poder de compra e, mesmo pessoas que têm possibilidade de adquirir seus próprios artigos de luxo, hoje se rendem à novidade do negócio. “Atendemos também classe alta pois são pessoas que já possuem bolsas de luxo, admiram as marcas e querem diversificação de produtos. Esses alugueis […] servem para viagens ou eventos”, conta Giovanna.

Novas portas de entrada para as marcas de luxo

E se engana quem pensa que as marcas saem perdendo com a economia de compartilhamento, ou com as vendas de segunda mão. Se antes as maisons chegavam até o público com menor poder aquisitivo apenas por meio dos produtos de entrada mais baratos, como os acessórios ou maquiagem; hoje o compartilhamento cria outro ponto de conexão com marcas muito mais rápido, o que pode evoluir para uma compra efetivamente na grife. “Acredito que estamos facilitando a proximidade das clientes com essas marcas e acredito que no futuro elas irão entrar nesse ramo de aluguel, seja com a própria plataforma ou facilitando o aluguel para as plataformas de terceiros. ”, revela Giovana.

O aluguel de um produto de luxo faz com que a experiência seja muito mais marcante. “Hoje, tenho clientes que a cada 15 dias alugam peças diferentes e têm a possibilidade de experimentar vários modelos. Se ela tiver a vontade de comprar alguma bolsa, pode antes testar com o aluguel”.

E se um negócio pode se desmembrar em vários, após perceberem a demanda que algumas clientes tinham em se desfazer dos itens de luxo, a dupla do RentBela passou a oferecer também a opção de um bazar de vendas com peças de segunda mão. Após o contrato de aluguel consignado de um ano acabar, as sócias veem a possibilidade de disponibilizar as peças online e, ocasionalmente, de forma presencial. “Itens que por algum motivo não tiveram uma boa demanda de aluguel, mas se encontram em ótima qualidade podem ir para o bazar. Nós fazemos essa análise todo fim de ano e conversamos com as parceiras. Se elas aceitarem, os itens vão para a venda”.

 

Previous Reprojetar o jeans pode mudar a maneira como pensamos a indústria da moda
Next Nyle Ferrari, pioneira na comunicação sobre cosméticos naturais e veganos na internet, fala sobre expansão do mercado

No Comment

Leave a reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *