Notícias

A próxima tendência na moda sustentável será a agricultura regenerativa

28 de março de 2019 - 12h39
Por Even More

O que você precisa saber sobre a palavra de ordem da sustentabilidade, que estará por todos os lugares daqui a alguns anos.

tradução do texto de Whitney Bauck para FASHIONISTA
ilustração capa: GATON

 

“Eu quero que você aja como se estivesse em uma crise. Eu quero que você aja como se sua casa estivesse em chamas. Porque está.”

As palavras da ativista adolescente indicada ao Prêmio Nobel, Greta Thunberg, ajudaram a mobilizar 1,4 milhão de pessoas a irem às ruas, no começo deste mês, para participarem das greves globais pela ação climática. E mesmo que a mensagem de Thunberg sobre o meio ambiente tenha sido alarmante, o subentendido é de que há uma esperança real para abordar a mudança climática.

Leia também: Lixo é ponto de partida para redefinir lucratividade na moda do futuro

Mas, quando vemos o tamanho da bagunça criada pelos seres humanos no planeta, de onde é possível vislumbrar essa esperança? Para muitos especialistas, é numa maneira inovadora de pensar sobre agricultura – agricultura regenerativa – que reside uma das razões mais concretas para o otimismo.

“A agricultura representa realmente a melhor chance que temos de mitigar e acabar com a crise climática”, disse a diretora executiva da Patagonia, Rose Marcario, na Federação Nacional de Varejo, em janeiro. “A ciência está dizendo que, se convertermos toda a agricultura industrializada em práticas orgânicas e regenerativas, poderemos sequestrar todo o carbono do mundo”.

A promessa de que as práticas agrícolas regenerativas, literalmente, reverteriam a mudança climática é impressionante, e há dados para sustentá-la – com empresas pioneiras como Patagonia, Kering e Prana investindo na ação como resultado. Na verdade, essas empresas estão tão convencidas do potencial para um impacto que muda o mundo, que não é difícil imaginar a agricultura regenerativa se tornando tão comentada no futuro quanto a economia circular é agora.

“Isso é algo que pode criar e criará o futuro da sustentabilidade”, afirma Rachel Lincoln, Diretora de Sustentabilidade da Prana, em entrevista por telefone.

Mas, o que exatamente é a agricultura regenerativa, e como ela vai cumprir as reivindicações massivas que estão sendo feitas sobre isso? Aqui, detalhamos tudo o que você precisa saber:

O QUE É A AGRICULTURA REGENERATIVA?

reprodução (Savory Institute)

Embora muitas conversas sobre o meio ambiente dependam da ideia de sustentabilidade – que seria manter o estado atual do planeta e tomar cuidado para não degradá-lo – a agricultura regenerativa assume que algumas coisas já foram tão danificadas, que precisam ser reconstruídas antes de podermos meramente sustentá-las.

A ideia se aplica especificamente à saúde do solo. De acordo com a organização sem fins lucrativos Regeneration International, o termo refere-se a “práticas agrícolas e de pastagem que … invertem as mudanças climáticas, reconstruindo a matéria orgânica e restaurando a biodiversidade degradada do solo”.

A pessoa média pode pensar no solo como pertencente à mesma categoria de algo que não vivo como uma rocha, mas o solo verdadeiramente saudável é repleto de microrganismos, como fungos, bactérias e protozoários. Elizabeth Whitlow, diretora executiva da Regenerative Organic Alliance, compara esses organismos com os probióticos para o intestino humano. Assim como precisamos de bactérias para manter nosso sistema digestivo funcionando sem problemas, o solo precisa de uma comunidade de microrganismos para ajudá-lo a cultivar plantas saudáveis, sequestrar carbono e absorver a água adequadamente. Enquanto alguns tipos de agricultura destroem essas formas de vida microscópicas, a agricultura regenerativa ajuda a reconstruí-las no ecossistema.

A vice-presidente de Responsabilidade Socioambiental da Patagonia, Cara Chacon, vislumbra a agricultura regenerativa começando essencialmente com a fundação da agricultura orgânica e levando-a ao próximo nível. O ideal é que, disse em entrevista por telefone, ela represente o “santo graal da responsabilidade agrícola”, abrangendo melhores práticas que beneficiem o solo, plantas e animais cultivados, pessoas envolvidas na agricultura e aqueles que usam os produtos finais do agricultor.

COMO VENDO SENDO FEITO?

As práticas envolvidas na agricultura regenerativa podem ser amplas e dependem em parte do tipo de fazenda em questão. De acordo com Whitlow, elas podem incluir o uso de compostagem ao invés de fertilizante sintético, plantação de quebra-ventos (linhas de árvores na borda de um campo para protege-lo do vento, o que diminui a erosão do solo), evitando pesticidas sintéticos, fazendo culturas rotativas (alternar o plantio em diferentes épocas para otimizar os nutrientes no solo), plantio simultâneo (cultivando duas ou mais colheitas no mesmo espaço ao mesmo tempo – como plantar culturas alimentares entre fileiras de algodão) e empregando uma abordagem de plantio no-till ou low-till (que são abordagens para plantar sementes sem arar o solo).

Essas práticas têm uma série de benefícios, desde diminuir a erosão do solo até tornar as plantas mais resistentes a pragas, ou as culturas alimentares mais densas em nutrientes. De acordo com a diretora de Programas de Sustentabilidade da Kering, Géraldine Vallejo, elas também resultam em fibras e couros de alta qualidade, o que é um benefício claro para os produtores do mercado de luxo. Além de sequestrar o carbono, a terra cultivada regenerativamente pode ajudar a combater outros efeitos colaterais da mudança climática, como inundações, aumentando a capacidade de absorção de água da terra.

“Há áreas onde você pode ver uma fazenda regenerativa ao lado de uma fazenda convencional, e a fazenda convencional tem rios de água barrenta saindo dela, enquanto a fazenda regenerativa a absorver como uma esponja gigante”, explica Whitlow ao telefone. “Dizem que ela pode absorver oito vezes mais água”.

QUEM JÁ ESTÁ FAZENDO ISSO?

reprodução (Patagonia)

A agricultura regenerativa tem sido tracionada de forma mais significativa no segmento de alimentos orgânicos e naturais, mas as marcas de moda estão fazendo incursões sérias também. Em dezembro, a Kering anunciou uma parceria com o Savory Institute, uma ONG dedicada ao manejo holístico de terras e práticas regenerativas. O objetivo da parceria é ajudar a identificar e desenvolver uma rede de fazendas que a Kering possa usar para adquirir couro e fibras como caxemira, lã e algodão.

“Dois terços do impacto ambiental ocorrem logo no início da cadeia de fornecimento da matéria-prima”, explica Vallejo ao telefone. “Sabíamos que, se quiséssemos ser eficientes na redução do nosso impacto ambiental, teríamos que agir nesse momento da produção”.

O alcance global e a abordagem científica da Savory na coleta de dados fizeram dela uma parceira atraente para a Kering, que está procurando reduzir seu impacto ambiental em 40% até 2025, e precisa de formas concretas para monitorar seu progresso.

Patagônia e Prana são duas outras marcas que têm aderido à agricultura regenerativa. Ambas são aliadas da Regenerative Organic Alliance, organização liderada por Whitlow que está tentando criar uma Certificação Orgânica Regenerativa como padrão a ser seguido por aqueles que quiser aderir à prática (semelhante à maneira pela qual a certificação Orgânica do USDA regula o que legalmente pode ser descrito como ” Agricultura Orgânica”). Rose Marcario, da Patagonia, também está no conselho da ROA, e sua marca trabalha atualmente em dois projetos-piloto na Índia para converter as fazendas de algodão orgânico existentes em totalmente regenerativas.

QUAIS SÃO OS DESAFIOS?

Embora o movimento seja uma promessa incrível para lidar com problemas ambientais, os obstáculos permanecem. A obtenção de certificação regenerativa, assim que for finalizada, apresentará um custo adicional para os agricultores. Como é um processo de vários anos para converter uma fazenda completamente, pode ser difícil para os agricultores investirem se não tiverem um incentivo financeiro desde o início. Embora Whitlow sonhe com um fundo que possa subsidiar o custo da certificação (“todos os grandes agricultores têm que pagar para provar o quão bons eles são!”, lamenta ela), nada semelhante existe atualmente.

O potencial de cooptação e greenwashing do termo “agricultura regenerativa” também representa uma ameaça. A Certificação Orgânica Regenerativa foi essencialmente concebida para combater isso. Players como Dr. Bronner, Patagonia e Prana viram o burburinho crescente em torno do termo e queriam ter certeza de que era as práticas sejam bem definidas para que ninguém pudesse afirmar ser “regenerativo” com base no fato de ter um plantio sem aragem, mas que, por acaso, também usar uma tonelada de herbicidas tóxicos, por exemplo.

No momento, o movimento agrícola regenerativo é novo o suficiente para que seus resultados – ou seja, roupas derivadas de fibras regeneradas – não sejam amplamente acessíveis aos clientes da moda por algum tempo. (A Patagonia, por exemplo, espera poder incorporar o algodão regenerativo de suas fazendas piloto em linhas de produtos apenas daqui duas a seis temporadas).

Mas com o incrível potencial de economia de meio ambiente da agricultura regenerativa, marcas e consumidores conscientes dificilmente se darão ao luxo de ignorá-la. “Não queremos fechar os olhos e dizer: ‘somos um grupo de moda, não estamos ligados à agricultura'”, diz Vallejo, da Kering. “Achamos que é nossa responsabilidade incentivar as melhores práticas de hoje.”

Comentários

 
|