A nova tendência da Gucci está no carbono neutro


A gigante do luxo pagará milhões de dólares todos os anos para compensar as emissões que não consegue eliminar de sua cadeia produtiva.

Texto traduzido livremente
(artigo original de Sarah Kente, publicado no BoF)

Marca mais cool do mercado de luxo, a Gucci está investindo milhões de dólares em um programa para se tornar carbon neutral (ou seja, ser neutra na sua pegada de carbono), à medida que o escrutínio sobre o impacto climático da moda ganha impulso.

A empresa italiana está no meio de um plano de dez anos para reduzir suas emissões pela metade até 2025, mas, confirmou na última quinta (12) que vai dar um passo adiante: pagar a taxa pelas emissões que ainda não pode eliminar da cadeia, para mitigar seu impacto em um ano. A decisão mostra a seriedade com que a marca encara o atual desafio climático.

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“Ainda consideramos que a melhor opção é sempre reduzir o impacto, mas, no momento, é impossível conseguirmos fazer isso no tempo necessário para garantir que o planeta não queime”, disse o diretor-executivo da Gucci, Marco Bizzarri, ao BoF. “A ideia é compensar até que possamos fazer isso”.

No ano passado, a Gucci disse que compensou 1,4 milhão de toneladas de dióxido de carbono equivalente a um custo de 8,4 milhões de dólares – uma fração dos 3,5 bilhões de euros (3,9 bilhões de dólares) que a empresa faturou antes de juros, impostos, depreciação e amortização. Esse dinheiro será dividido entre projetos de redução de emissões que visam conservar florestas e ecossistemas críticos que atuam absorvendo carbono em partes do Peru, Quênia, Indonésia e Camboja.

É uma jogada ousada de uma empresa que está se posicionando como líder em abordagens climáticas no setor. Seus esforços são apoiados pela Kering SA, companhia mãe. O conglomerado de luxo acompanha e analisa o impacto ambiental de suas marcas há anos. Seu CEO, François-Henri Pinault, liderou o mais recente Fashion Pact, apresentando-o ao G7 em Biarritz no mês passado. Até agora, a Gucci é a única entre suas ​​marcas de luxo mais estéveis a declarar que será carbon neutral.

Ainda consideramos que a melhor opção é sempre reduzir o impacto.

Ainda assim, como a maior e mais bem-sucedida marca da Kering, a Gucci mostrou que por onde vai, outras podem seguir. Para muitos, a retirada de uso de peles animais anunciada por Bizzarri, que ele descreveu como “não moderna” em 2017, foi o início da última onda de proibições de peles na indústria do luxo.

divulgação / Gucci Cruise 2019

A nova iniciativa carbon neutral da empresa coloca a Gucci à frente de muitos de seus concorrentes em uma questão que está pressionando cada vez mais as marcas de moda. Embora a indústria evite historicamente o escrutínio político, agora está se tornando alvo de crescentes pedidos por regulamentação.

Enquanto isso, os consumidores criticam cada vez mais o impacto ambiental negativo da moda, especialmente porque desastres de alto nível, como os recentes incêndios na Amazônia, envolveram tangencialmente o mundo da moda. Tanto a H&M quanto a VF Corp., proprietária da Timberland, Vans e The North Face, disseram que parariam de comprar couro do Brasil devido às preocupações ambientais destacadas pelos incêndios.

“Uma coisa que muda o jogo é que [a Gucci está] adotando medidas climáticas agora”, disse Elisa Niemtzow, diretora-gerente de setores de consumo da consultoria sem fins lucrativos BSR – observando a previsão dos cientistas climáticos de que resta apenas uma pequena janela para mitigar o aquecimento global se o mundo quiser evitar mudanças climáticas catastróficas.

Uma coisa que muda o jogo é que [Gucci está] adotando medidas climáticas agora.

 Ainda assim, a Gucci enfrenta um delicado ato de equilíbrio ao cumprir suas ambições climáticas e continuar desfrutando do crescimento exponencial que a transformou em uma das marcas mais cobiçadas do luxo. A Kering monitora suas marcas por meio de um relatório anual de perdas e ganhos ambientais, que quantifica o impacto climático das empresas em termos financeiros. No ano passado, o valor do impacto climático da Gucci aumentou para 289 milhões de euros (318 milhões de dólares), um aumento de quase 80% desde 2015. Por outro lado, o impacto da marca em relação ao crescimento diminuiu constantemente, caindo 8% ano a ano.

“Há um elefante na sala”, disse Niemtzow. “O setor ainda precisa abordar de maneira mais proativa a questão de saber se estamos produzindo muito produto e […] podemos ter desempenho financeiro viável, gostar de moda e fazer menos coisas”.

Bizzarri disse que reconhece a tensão, mas argumenta que a situação é mais complexa. A Gucci emprega milhares de pessoas e é uma parte importante da economia de luxo.

“A melhor maneira de reduzir é fechar a empresa, se eu a fechar, sem dúvida reduzo o impacto, mas isso afeta as pessoas”, disse ele. A empresa disse que as compensações atualmente são a melhor solução para um problema complicado. Ao mesmo tempo, continua trabalhando duro para reduzir totalmente o impacto.

Essa iniciativa é uma gota no oceano se ninguém mais se juntar ao que estamos fazendo.

Gucci Headquarters/ divulgação

Todas as operações, lojas, escritórios e armazéns da empresa funcionarão com energia de fontes renováveis até o próximo ano. A mudança contínua para substituição dos combustíveis fósseis reduziu as emissões da empresa em quase 46.000 toneladas de dióxido de carbono no ano passado – uma melhoria tangível, considerando uma fração da quantidade que a empresa ainda precisa compensar. Ela está trabalhando em programas com seus fornecedores e fabricantes para reduzir seus impactos também, investindo em tecnologias que melhorarão as operações e trabalhando para diminuir a quantidade de resíduos gerados. Ao mesmo tempo, a empresa está reavaliando os materiais que usa para se concentrar no fornecimento dos tecidos e fibras produzidos de maneira mais ética e sustentável disponíveis.

A Gucci não é a primeira empresa de moda a dizer que será carbon neutral, mas talvez seja a de maior destaque. A marca californiana de calçados Allbirds disse no início deste ano que compensaria suas próprias emissões pagando por projetos para reduzir o dióxido de carbono na atmosfera, como programas de proteção de árvores. A Reformation, com sede em Los Angeles, é carbon neutral desde 2015 e até vende créditos de carbono em seu site. A Gucci também foi além de muitos outros ao tomar medidas para compensar as emissões de toda a sua cadeia produtiva, onde ocorre a maior parte da poluição do setor.

Ainda assim, para que a indústria acompanhe os esforços para deter o aquecimento global, serão necessárias muito mais ações. Mesmo com a disseminação das conversas e do debate sobre o assunto, o progresso está parando, de acordo com um relatório recente da Global Fashion Agenda. Mesmo que as compensações não sejam a solução, talvez sejam melhores que nada.

“Mesmo como uma grande empresa, essa iniciativa é uma gota no oceano se ninguém mais se juntar ao que estamos fazendo”, disse Bizzarri. “Não podemos esperar a perfeição para agir – é tarde demais.”

foto de capa – divulgação campanha Fall 2019

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