A nova organização do calendário nacional e a digitalização das semanas de moda


por Nathália Souza e Carmela Scarpi

As restrições impostas pela pandemia trouxeram perspectivas novas para a indústria da moda. Marcas tiveram que cancelar ou adiar o lançamento de coleções e a digitalização vem se fazendo presente ao longo do ano para contornar os efeitos do distanciamento num contexto global. Novos formatos são construídos da noite para o dia, numa mistura entre soluções a curto prazo e consequência da negligência digital que já poderia ter sido melhor desenvolvida ao longo dos últimos anos. As principais cidades do roteiro de moda já apresentaram seus próprios formatos, transmitidos ao mundo inteiro pela internet. Cabe saber o que resta para nós, e como vamos lidar com nossa própria indústria neste novo cenário. 

No Brasil, indícios das mudanças despontaram em abril quando a ABEST – Associação Brasileira de Estilistas, propôs algumas alterações no calendário de varejo nacional através de uma carta publicada em seu site oficial. Na ocasião, a associação questionou a periodicidade de lançamentos e também as datas em que as marcas realizam as disputadas promoções. “Por que as liquidações de inverno precisam acontecer quando inicia-se a estação em julho e as de verão quando os nossos termômetros estão acima dos 30 graus?”, diz uma parte da publicação. 

A carta, que foi apoiada pelos sete e mais importantes showrooms e feiras de São Paulo, além do FFW, SPFW e InMod, sugeria a readequação das vendas em atacado para: Verão a partir da segunda quinzena de junho e Inverno na segunda quinzena de novembro. As liquidações ficariam para agosto e fevereiro. A partir de 2021, os calendários de lançamento apenas mudariam para maio e novembro, respectivamente. 

Em conversa com o Even More o conselheiro da ABEST, Roberto Davidowicz, afirma que após a publicação da carta outras associações e marcas demonstraram apoio: “Foi enorme o número de lojistas e marcas que aplaudiram e se engajaram, assim como várias outras associações e entidades que pediram para apoiar e juntar-se a Carta Aberta”. Com a adesão ao discurso, restava saber como que outros agentes do mercado, de fato, agiriam para reformular a dinâmica no Brasil.

“Essa é uma discussão muito importante cuja decisão vem sendo adiada a bastante tempo”, responde a diretora criativa do Rio Ethical Fashion (REF), Yamê Reis. O evento, que nasceu em 2019 para gerar debates sobre o mercado de moda sustentável, tinha a segunda edição prevista para junho deste ano, mas que evidentemente, foi adiada. Para Yamê, as empresas pequenas do setor de moda são as que mais se prejudicam com o calendário atual. Me pergunto, a quem interessa manter esse calendário de vendas tão antecipado? Porque vendemos inverno seis meses antes da estação começar? Porque não encurtamos o tempo entre pedido e entrega para que todos tenham possibilidades de entrar no jogo?”, questiona. “Penso que precisamos construir de fato entidades representativas capazes de levar adiante práticas mais saudáveis para nossas empresas que se estendam para toda a cadeia, beneficiando a todos, e não apenas a alguns”, completa.

A diretora criativa da marca Novo Louvre, Mariah Salomão, concorda. “A proposta foi necessária, não somente para as marcas, mas para os showrooms. Um calendário é necessário, não dá para ignorar isso, ele é a base do business. As liquidações são um grande problema da cadeia e precisam realmente serem repensadas em relação ao tamanho dos estoques, preço praticado, efemeridade do produto, muito mais do que somente datas”.

“A pandemia já alterou os calendários da moda em escala nacional e internacional. Vejo empresas em uma fase de reavaliar o mercado e adaptar-se aos cenários atuais, ao mesmo tempo buscando por novos modelos de negócios tanto para o atacado quanto no varejo”, opina o diretor criativo do Brasil Eco Fashion Week, Rafael Morais. O evento, que além de desfiles promove debates e encontros sobre a redução de impacto na moda brasileira desde 2017, também teve a edição deste ano alterada. “A moda sempre passa por momentos de rever e repensar a lógica produtiva e de distribuição, e este processo global que vivemos potencializa novas demandas dos consumidores”.

O BEFW promove desde 2017 debates sobre a redução de impacto na moda. (Reprodução/Brasil Eco Fashion /foto: Gabriel Colombara – Fotosite)

Como um grande centro de encontros entre marcas e buyers, o Minas Trend também teve o calendário afetado pela pandemia. A 26ª Edição do evento que aconteceria entre os dias 21 e 24 de abril, foi suspensa. O atual diretor criativo do evento, Rogério Lima, acredita que as mudanças propostas pela ABEST são coerentes. “A pandemia já afetou nosso cronograma. Estamos vendo um retorno próximo ao que foi o calendário original”, comenta. No entanto, isso não significa necessariamente que o evento irá seguir essas direções. 

Rogério afirma que as melhores datas das próximas edições do Minas Trend ainda estão sendo estudadas. Fizemos uma pesquisa por meio da FIEMG, que deve seguir para os sindicatos e, por conseguinte, aos associados para que as decisões sobre as datas futuras tenham embasamento sobre as necessidades da cadeia produtiva da moda mineira. Precisamos alinhar isto às limitações ocasionadas pela pandemia”, conta ao Even.

A resistência das apresentações em semanas de moda, podem também ser avaliadas sob o viés educativo, e de fomento da indústria para que seja percebida como um pilar importante de mercado por um público maior. “As pessoas começaram a ter essa percepção de que era importante mirar no local, para manter os empregos das pessoas. Mas, não víamos essa percepção da moda – porque as pessoas sempre tiveram uma ideia de que a moda é fútil e que neste momento não seria importante a “roupa”. O que  acontece é que a moda é muito mais além de roupas”, comenta o produtor e diretor criativo da Casa de Criadores, André Hidalgo. 

Com a data de primeiro semestre adiada, André reuniu-se com os estilistas para uma espécie de pesquisa sobre as marcas integrantes da semana de moda e viu dali a oportunidade de fazer uma migração de fato para o digital, aproveitando a necessidade de contar novas narrativas como mercado, além da essência criativa. “Num primeiro momento a gente pensou em fazer um projeto que comunicasse isso às pessoas através da história de cada estilista, mas acabamos concluindo que melhor mesmo seria a gente já migrar para um evento digital e que este evento ia ter essa função”, explica. 

Do ponto de vista das marcas

Para as marcas e pequenas confecções independentes o momento também é de transformação e reconfiguração. O cenário atual do Brasil fez com que o Novo Louvre optasse por não participar dos desfiles nacionais deste ano e escolhesse uma opção internacional. A marca participa de uma edição do Joor, plataforma de trade que conecta marcas e buyers e que já atuava no digital antes da pandemia, e também de trunk shows em Cascais e Miami. “Por causa da pandemia e da crise econômica decidimos participar somente de um showroom internacional, que nesta edição será somente virtual, no JOOR. A incerteza do cenário nacional e o valor do dólar nos direcionou neste momento para reforçar nossa internacionalização”, conta Mariah. “No Brasil estamos trabalhando com nosso comercial interno, em contato direto com os buyers e clientes”, complementa.

O Novo Louvre lança duas coleções ao ano e teve sua produção afetada pela pandemia, mas segundo a diretora criativa, o que mais impactou a marca foi o cancelamento de feiras e showrooms, o que apenas ressalta a importância desses eventos em se transformarem no digital. “O que nos impactou de forma mais significativa foram o cancelamento de algumas feiras e showrooms, a impossibilidade de viajar e indisponibilidade de alguns clientes. Em relação a isso ainda não sabemos como as coisas ficarão.” 

Para a diretora criativa Mariah Salomão, o cancelamento de feiras e showrooms tem sido a pior parte da pandemia. A marca Novo Louvre aproveitou para participar de feiras digitais internacionais. (Reprodução/Novo Louvre)

A transformação digital também pode ser vista como uma alternativa facilitada da independência de algumas marcas às semanas de moda tradicionais e suas estruturas e calendários. Água de Coco lançou na semana passada a coleção “Indo” que teve transmissão do desfile no canal do YouTube da marca, junto com comentários ao vivo da equipe de estilo e também de artistas convidadas como Preta Gil, Claudia Leitte e Carol Trentini. No cenário internacional, pudemos acompanhar nos últimos meses essa independência e flexibilização, como exemplo o último desfile da Celine, que correu paralelo à edição masculina da semana de moda de Paris. 

“As semanas de moda já vinham desgastadas e a pandemia somente acelerou esse processo.”

Mariah acredita que a pandemia apenas acelerou essas mudanças. “Muitas marcas no mundo todo declararam sua “independência” das semanas de moda após a pandemia e imagino que essa seja uma tendência. As semanas de moda já vinham desgastadas e a pandemia somente acelerou esse processo”, conta. 

Para André, da Casa de Criadores, o formato bem resolvido de apresentações em desfiles se desgastava pelo comodismo em não explorar a narrativa que o formato permite. “Eu ouvia bastante gente dizendo que não aguentava mais ver desfiles, até por que os desfiles eles fazem sentido quando você tem uma  história para contar, quando você está usando ali a passarela para discutir outras questões além da própria moda, que é o que realmente acontece muito na Casa de Criadores. Mas quando é só o lançamento de uma coleção comercial, às vezes fica uma coisa meio vazia”, avalia.

Como as semanas de moda e os showrooms do Brasil estão se adaptando

As semanas de moda e showrooms que estavam marcados para o primeiro semestre foram canceladas ou adiadas, mas julho trouxe a estreia de eventos em formato digital no Brasil. Roberto Davidowicz da ABEST acredita em mudanças nessa área da mesma forma que o calendário do varejo se modificou. “Acreditamos também em adaptações em formatos e datas conforme o mercado sentir as necessidades”, opina. O primeiro da lista foi o Veste Rio, evento realizado em parceria da Revista Vogue com a Revista Ela, que teve sua estreia em 20 de julho onde 30 marcas nacionais apresentaram suas coleções para lojistas digitalmente. A previsão é que o evento dure até outubro e conte também com talks e aulas transmitidas ao vivo.

O final de setembro, início de outubro, marcará a primeira edição digital da Casa de Criadores, semana de moda importante para o setor independente que acontecia duas vezes ao ano com novos nomes da moda brasileira. Sempre uma plataforma de projeção de neomarcas e estilistas nacionais, desta vez, o formato vem sendo discutido para encontrar uma nova linguagem que mantenha os princípios já característicos do evento. “A gente está nesse processo de criar a nossa versão, a nossa ideia do que deve ser um evento digital e virtual. Estamos muito animados com isso, porque viemos encontrando soluções muito criativas, até porque cada estilista vai fazer alguma coisa diferente do outro. Então eu acho que isso vai realmente ser muito interessante”, comenta André Hidalgo. 

O Rio Ethical Fashion terá sua primeira versão digital nos dias 30 e 31 de Outubro, através de uma plataforma que vai englobar debates, conversas com o público e espaço para networking ao vivo. Os conteúdos oferecidos pelo evento incluem painéis nacionais e internacionais inéditos e legendados, fashion films, lives de Yoga, Happy Hour e Meeting Rooms temáticos.“Finalmente conseguimos entender qual seria o melhor formato para entregar o evento neste ano marcado por chuvas de lives e webinars, trazendo algo diferenciado, onde nossa audiência tem acesso a debates inéditos e legendados através de um link com 15 dias de duração, com todo o conteúdo on demand”, completa Yamê

Ainda esse ano acontece também a 4º edição do BEFW estreando em formato totalmente digital. O evento não teve a programação completa divulgada, mas já adiantou que tudo acontecerá entre os dias 18 e 22 de novembro sob o tema “Conectar para Regenerar: Moda e Planeta”. O planejamento está sendo feito para oferecer o máximo de interatividade com o público, através de palestras, workshops, desfiles, mercado de produtos, entre outros. As marcas que queiram participar dos desfiles do Mercado Eco podem se inscrever no site oficial até o dia 16 de agosto. “Acreditamos que o formato digital é uma oportunidade de alcançar novos públicos e ampliar conexões, pautas e os negócios que acontecem durante o evento.”, completa Rafael Moreira. 

O alcance é, de fato, um dos fatores de maior destaque nas novas plataformas. “Chegar em muito mais gente eu acho que é uma grande conquista. E isso o evento presencial não tem. A parte chata, apesar de ter os comentários e tudo mais, é que não tem a interação entre o público. É uma experiência muito individual, mas isso é uma coisa que não tem o que a gente fazer, é assim e ponto. Essa é a nova linguagem. E talvez em alguns aspectos fiquem no saudosismo mesmo”, comenta André, da Casa de Criadores. 

Apesar de ainda não possui planos concretos de uma edição digital, o Minas Trend já está elaborando a próxima edição para tentar reduzir os impactos do varejo. Afinal, hoje, o evento é importante para muitas marcas nacionais. “Uma plataforma online já estava em nosso radar há algum tempo mas nunca imaginamos que ela pudesse tomar o lugar de um evento físico, porque entendemos a importância das interações no nosso setor”, comenta Rogério Lima. 

Entre os principais desafios em transformar o Minas Trend para o formato digital, Rogério enfatiza obstáculos como o networking entre buyers e marcas, a apresentação de produtos e a experiência de compra que possuem como principal fator o contato físico. “É, de fato, um grande desafio reconstruir o Minas Trend em novos moldes, mas é também uma grande oportunidade de olhar para o futuro e fazer os reajustes necessários”, comenta o diretor criativo.

Na seara da experimentação, não há parâmetros sobre certo e errado, mas do que existe de possibilidade no desenvolvimento de novas experiências. “Na verdade é uma quebra de paradigmas muito grande porque você tem que pensar totalmente diferente do que pensava até então, tanto o evento em si, quanto os estilistas. Todo mundo está tendo que pensar completamente em outro sentido e tentando não cair nas obviedades “, reflete André Hidalgo. 

Enquanto alguns se preparam, outras iniciativas ajudam a movimentar o mercado nacional. É o caso da plataforma B2B com foco em exportação, criado em parceria com a ABEST, ABIT, Apex-Brasil e a Abicalçados. Intitulado de “Brasil Fashion Now”, o projeto inicialmente terá duração de seis meses e será apresentado no site BLANC Fashion.

O Minas Trend ainda não possui planos concretos para a edição digital, mas já está se preparando para isso. (Reprodução/FIEMG)

E se a pauta é a digitalização de eventos, não podemos deixar de lado o fator ambiental que isso representa. Já falamos aqui no Even More sobre como as semanas de moda estão abraçando as demandas de redução de impacto. Várias vezes ao ano, editores, buyers, celebridades e curiosos se locomovem para cidades como Nova York, Londres, Milão, Paris e São Paulo para conferir os desfiles. Talvez essa digitalização imposta possa ser uma oportunidade de repensar esse impacto da indústria. 

Para Yamê do REF, sustentabilidade e digitalização devem fazer parte de qualquer empresa ou área que deseja inovar. “Costumo comparar a Sustentabilidade com a Digitalização, como processo de inovação. Ambos são inevitáveis e quanto mais forem adiados mais prejuízos trazem para os negócios”. Rafael Moreira do BEFW acredita que a mistura do online com o físico será inevitável mesmo num cenário pós-pandêmico. “Percebo que formatos híbridos de eventos e negócios serão mais comuns, com ações no mundo físico e online simultaneamente”.

* O SPFW também anunciou planos de realizar o evento em formato digital no segundo semestre. O Even tentou contato com a assessoria para mais informações, mas não obteve retorno.

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