Opinião

A magia da imagem negra na moda

22 de novembro de 2018 - 14h51
Por Even More

Enfrentando os obstáculos dispostos pelo racismo, produtores, designers e modelos negros buscam alterar os padrões e esteriótipos perpetuados pela indústria da moda.

Mariana Rosa

Uma vez li que se a moda é linguagem, as roupas são palavras e as imagens, eternizadas nas fotografias, são discursos completos e carregados de sentido. Essas imagens, compartilhadas nas revistas, televisões, outdores e no feed do Instagram, comunicariam padrões, culturas, comportamentos e ajudariam a formatar identidades. Desta premissa, vi que é quase impossível separar a moda de sua responsabilidade social. Separá-la do compromisso com gênero, sexualidade, regionalidade e raça – tema que ganha atenção todo mês de novembro, com o dia da consciência negra (20/11).

É engraçado perceber como a moda tradicional ainda vê a África como um país. As nuances de cada região, as diferentes peles e culturas viram um balaio de gato de tecidos coloridos e turbantes. Muitas vezes é isso que se espera de estilistas negros, de castings específicos para as modelos negras e das coleções inspiradas na cultura negra (feitas pro brancos, claro). Mas não é mais bem por aí. Não há mais espaço para ignorar as minorias sociais, que, com dificuldade, vêm buscando seu lugar ao sol. E, há melhor forma de mudar a imagem do que mudando seu autor?

Lá fora são contadas histórias do brilhantismo de Patrick Kelly, Dapper Dan, Willie Smith e Stephen Burrow. Ou do impossível alcançado por Virgil Abloh e Olivier Rousteing, primeiros negros a ocuparem a cadeira mais alta do design em marcas da haute couture francesa (Louis Vuitton masculina e Balmain, respectivamente). No Brasil, ainda há muito de se falar sobre Luiz Claudio, cabeça do Apartamento 03 e único estilista negro no line-up do São Paulo Fashion Week, ou sobre Isaac Silva, baiano que reverencia a identidade black em suas peças. Sem entrar no mérito de Angela Brito ou Mônica dos Anjos, e no espaço conquistado por Weider Silveiro, Maria Chantal e pelos irmãos Emicida e Fióti frente a Lab Fantasma. Ver nomes elencados desta forma, com tamanho prestígio, talvez passe a sensação de que e caminhada foi fácil. Mas, além do próprio racismo da indústria, artistas negros enfrentam as dificuldades da falta de oportunidades e do elitismo presente na cadeia de moda.

Racismo institucional

Carla Torres, idealizadora e designer da marca Africanize (@africanize.ecodesign), lembra como foi o processo de formação no curso de moda, que concluiu em 2012. Bolsista do Prouni, ela expõe como a arte negra não é incentivada no país: quando questionou a dificuldade de conseguir os materiais para as aulas, ela foi aconselhada a cursar letras. O racismo acontece em várias etapas. Por alguns colegas que, privilegiadamente, tinham os melhores materiais, por parte de alguns professores que preferiam trabalhar com estes alunos, assim como a baixa expectativa em relação aos alunos pobres e negros, conta. A Africanize nasceu com a vontade da estilista em exaltar a cultura negra e sua trajetória, uma vez que muito se fala e sabe sobre a moda europeia: Por quê nunca havíamos ouvido falar de Ann Lowe, afro americana que fez o vestido de casamento de Jaqueline Kennedy e uma das estilistas preferidas da alta sociedade estadunidense dos anos de 1950 e 1960?.

A produtora de conteúdo e fotógrafa Hadassa Gomes (@hadeusa) teve contato com o racismo institucional que paira sobre a industria também na faculdade de moda, onde ingressou em 2012. Da cultura negra ser apenas relembrada como “exótica”, da discrepância no tratamento dos professores e da desconfiança que rondava a qualidade de seus projetos. Já no mercado de trabalho, Hadassa perdeu vagas para meninas brancas com menos qualificações e foi tratada de maneira diferenciada por colegas, clientes e chefe. Ela reencontrou forças ao produzir para seu blog Se Essa Preta Falasse e na fotografia, através do Lab Á Flor da Pele (@lab.aflordapele). “O Lab me levou a lugares que não imaginei estar, por ter carregado durante muito tempo a ideia de que pessoas negras não podiam produzir ou estar em um local artístico”, conta.

 

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Vulnerável. -Autorretrato.

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A importância da celebração dos autores das imagens de moda, nacional e internacionalmente, funciona como incentivo para que os novos se sintam capacitados para continuar lutando pela sua arte. “Ver que marcas, estilistas, artistas negros das mais diversas áreas estão tendo a oportunidade de ter voz é inspirador. Estamos vivendo uma era revolucionária. Não há mais espaço, nem tolerância, para a falta de inclusão. Queremos ver corpos reais, pretos, ocupando cargos de poder”, exalta Hadassa.

O rosto por trás da imagem

A imagem — ou seja, o discurso — é produzida por um autor que expõe suas palavras, a sua arte. Mas o que eterniza os padrões e os comportamentos humanos é o corpo, o agente escolhido para representar aquela figura. Muito além de um incentivo para a própria indústria, modelos negros podem transformar o imaginário até mesmo daqueles que pouco se importam com moda. As representações criam espaço para a quebra de antigos padrões e para o desenvolvimento da auto-aceitação.

Trinta anos depois de Deise Nunes, o Brasil — que têm 50,7% da população, negra (IBGE, 2010) — entregou a coroa de miss à paranaense Raíssa Oliveira. Foi histórico. Antes da competição nacional, Raíssa dividiu palco com Luciana Tavares (@soulutavares) no Miss Paraná 2016. Curitibana, Luciana sonhava em ser modelo desde muito nova, enquanto folhava revistas. Mas o sonho se tornou projeto quando se deparou com uma foto da modelo Rojane Fradique: “Ela era tão linda, tão negra! A cor da pele dela, impressionante, era igual a minha. A partir daí meu coração bateu mais forte e aquele sonho perdido no meu inconsciente despertou e tudo se fez possível”. A destino de Luciana foi traçado e ela se tornou a primeira Miss Pinhais negra, em 2015.

 

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saudosa 💙 gravidinha de três meses 😍 PH @vitoraugustoph 💡

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Quando se trata de representação, o mundo da beleza e dos holofotes assume seu caráter político, torna-se um ato de resistência. “Resisto diariamente. A um sistema injusto e corrupto, a uma indústria que exclui, a uma sociedade racista, a intolerância, a falta de oportunidade. Resisto apenas por ser mulher negra periférica”, conta Luciana. À frente desta luta, também se destaca a produtora de casting Jacaré Moda (@jacaremoda), da comunidade do Jacaré, Zona Norte do Rio de Janeiro. Idealizada por Julio César Lima e Clariza Rosa, a agência tem como objetivo divulgar a beleza periférica e quebrar os estereótipos. Todos os anos eles organizam o desfile “A Mais Bela entre Elas”, que conta com um concurso em que a ganhadora fecha contrato com a agência Way, uma das maiores do país.

As oportunidades para a comunidade negra na moda estão crescendo, mas como modelo, eu Mariana, autora do texto, compartilhei de diversas experiências semelhantes às contadas por Luciana. Ainda há falta de aptidão dos profissionais em lidar com os nossos cabelos, as bases quase nunca assentam em nosso tom de pele, além de muitas vezes sermos as únicas negras nos desfiles e campanhas. Consequências de um mercado que ainda está se adaptando ao novo. Hadassa, que estampou as páginas da EMMAG16 (confira aqui), resume muito bem o que representa essa indústria, que há muitos anos abandonou a futilidade: “A moda dá autonomia para as pessoas marginalizadas pela sociedade. Permite espaço para que haja uma emancipação. A criação de narrativas nas quais a nossa ancestralidade, sensibilidade, dor e riqueza histórica ganhem força, tomem forma, e mostrem a todos a nossa magia negra.”

Capa da matéria: spoiler do nosso editorial FRESH para a EMMAG17 – em breve

ph. Anderson Angélico

beauty Vinícius Martins

 

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