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“A gente não está falando de tendência, mas de revolução”, diz Patrícia Lima ao Even More

04 de abril de 2019 - 19h24
Por Even More

por Carmela Scarpi

Mulher e mãe, a empreendedora Patrícia Lima faz do seu discurso algo palpável. Por um mundo colaborativo, criativo e justo a empresária catarinense é figura por trás da revista Catarina e da marca de cosméticos orgânicos e veganos Simple Organic (um dos apoiadores do nosso evento Moda em (R)evolução). Numa entrevista sincera e de peito aberto, falamos sobre inovação, carreira, comunicação e futuro vislumbrando toda essa revolução de conceitos que vivemos hoje. Confere:

Even More: A Revista Catarina traz a vertente de transformação de status quo pela moda. Quando surgiu o insight para fazer uma revista colaborativa e um portal que tocasse em assuntos além de breves tendências?

Patrícia Lima: Minha história com a Catarina é muito antiga, foi quando eu me formei em publicidade, fiz uma pós-graduação em jornalismo e um MBA em moda. Eu queria trabalhar com revista de moda, mas não queria sair do meu Estado, queria morar em Floripa e, naquele momento, não tinha nada fora do eixo Rio-SP – até hoje é meio difícil. E aí veio o projeto da revista. Eu recebi muito apoio da indústria têxtil local depois de um ano batendo de porta em porta, foi um longo processo. A revista se transformou muito ao longo do tempo, ela é muito autêntica, muito verdadeira, independente. Nunca foi uma revista voltada para lucro, sempre só se pagou, se colocou na rua e ela segue assim até hoje. Eu acho que isso é o que mais impressiona no projeto todo. Ela sempre foi focada para profissionais do mercado de moda e de beleza e nada mais natural que ela fosse colaborativa desde o princípio. Hoje em dia é muito comum falar sobre processos criativos colaborativos, só que a Catarina nasceu assim. Os editoriais entram se o material é bom, até hoje. É simples assim. E o que mais me chama a atenção é que a ela nasceu assim, é muito incrível ver que no DNA dela ela sempre foi colaborativa, sempre foi um grande time de pessoas que sempre fizeram acontecer e sempre acreditaram que aquilo era mais importante que qualquer coisa. A revista nunca foi só minha, por que era impossível eu fazer uma revista daquele tamanho sozinha, sempre foi de um time muito grande de pessoa que acreditavam e queriam colocar ali suas ideias.

EM: Dessa trajetória até aqui, há algo que você faria diferente em relação à Revista?

PL: Eu sinceramente acho que não faria nada diferente. Eu me questionei sobre isso ao longo do tempo muitas vezes e sempre “fazer diferente” caia na questão comercial. Se eu quisesse mudar alguma coisa na revista, ela teria que ir para o lado comercial, de ter que buscar o anúncio. Sempre fomos bem-sucedidos em ter pessoas que acreditavam, leitores que apoiavam, pessoas que seguiam e hoje o que que a gente vê acontecendo? Grandes títulos fecharam, mercado editorial em crise e a Catarina segue no ritmo dela, sabe? Daqui a pouco tem mais uma edição, a gente está fazendo duas por ano, colaborativa como sempre foi. Eu acho que ela um resultado de um comportamento coletivo, não alteraria não.

EM: Você acredita ter transformado de alguma forma o sistema de moda com a Catarina? Como?

PL: Eu não sei se eu acredito em ter transformado o sistema, eu acho que a gente sempre foi uma voz dentro dele. É diferente. A gente nunca fez parte do sistema editorial padrão, até vendemos em banca e tudo mais, mas sempre independente, como eu falei, sempre de uma maneira muito orgânica. Assim a Catarina sempre foi a voz de quem queria fazer diferença, de quem tinha um olhar diferente sobre a sociedade, sobre o mercado de moda, sobre o mercado de beleza. Por isso não sei se a gente transformou, acho que a gente participou desse processo que caminhou hoje para todo esse mindset colaborativo. Eu acho que até como ferramenta. Inclusive a gente fez um livro que foi o primeiro sobre tendências de comportamento de consumo no Brasil e ele foi também o resultado de uma ação colaborativa, de quem escrevia a Catarina. Tudo isso foi muito transformador, acho que a gente realmente sempre foi a voz.

foto reprodução

EM: Agora, na trajetória de beleza, a Simple Organic surge em consonância com princípios já levantados por alguns pilares da Revista Catarina. Como você acredita ser possível transformar as pessoas pela beleza sustentável?

PL: Bom, a Simple só é o que é porque ela vem com o DNA da Catarina. Seja por essa pegada de moda, olhar mais moderno, ela é uma marca completamente livre. Acho que é a única marca de beleza no Brasil que fala de política, levanta bandeiras, é sem gênero. Ela vem com todos os pilares da Catarina: de liberdade de expressão, de apoiar as minorias, de ser essa voz também. Eu acho que a gente chegou longe rapidamente com a Simple, em posicionamento e reconhecimento no nosso segmento, por que foram anos trabalhando com essas liberdades todas. Não tinha como a Simple ser diferente do que ela é. E acredito muito que é possível sim transformar as pessoas pela beleza sustentável. A gente está vendo isso acontecer todos os dias. A Simple é uma marca construída a quatro mãos com o consumidor. Ele está junto com a gente. E quando você fala de sustentabilidade, você fala de polícia, você fala de veganismo, minorias. O título “beleza sustentável” traz um peso muito grande e a gente levanta a bandeira de todos esses princípios em que acreditamos. E eu acredito sim que as pessoas são tocadas e são transformadas através da beleza, com esse consumo consciente, com esse olhar para o futuro.

EM: Esse consumidor mais consciente e interessado é uma tendência na sua opinião ou estamos de fato vivendo uma revolução?

PL: Eu acredito que a gente não está falando de tendência, mas de uma revolução. Têm muitas pessoas indo para a sustentabilidade meio que como modismo, mas acho que elas estão sendo tocadas por que é um bombardeio de informação de pessoas preocupadas. A gente vê um governo, uma política, tudo em um caminho contrário. Então, como cidadãos, se a gente não levantar e tomar uma atitude, o mundo está fadado a um futuro muito ruim. E ninguém quer isso. Eu olho para as próximas gerações, para a geração da minha filha, e eu me sinto na obrigação de fazer alguma coisa diferente. A gente precisa mudar hoje para ter um futuro melhor. Por isso acho que é uma revolução e não é silenciosa. Eu sempre costumo falar que a Simple não existiria da forma como ela é sem as redes sociais. Elas são uma ferramenta muito poderosa em todos esses momentos e movimentos que a gente tem de feminismo, contra racismo, de igualdade, de sustentabilidade. É uma grande revolução sim.

divulgação (Simple Organic)

EM: É possível um mundo em que cada beleza seja respeitada?

PL: Eu espero que sim, mas não vejo a gente indo muito por esse caminho. Sabe por quê? Eu vou ser muito sincera: a gente está conseguindo se liberar, pelo menos no discurso – por que na prática a gente sabe que as pessoas são preconceituosas e acabam demorando a mudar realmente sua percepção – a questão do corpo. A gente vê o movimento das mulheres gordas muito forte, muito poderoso, das mulheres negras, porém, a gente cai em outras armadilhas. A hora que a gente se liberta do corpo, todo mundo começa a ficar refém da pele. E eu estou falando isso por que é exatamente onde a gente trabalha. A busca por uma pele perfeita nunca foi tão evidente e a gente não está aqui para ter a pele perfeita, nem o cabelo perfeito, nem o corpo perfeito, nem nada disso. É o maior dos clichês, mas a gente tem que ser sim nossa melhor versão. O que mais vemos são pessoas querendo reduzir todos os seus defeitos. A rotina de skincare com mil passos é uma coisa que na Simple a gente não quer, sabe? Tanto que nós temos muitos produtos multiuso, onde a pessoa usa um produto para mil funções e não precisa ficar andando com um monte de coisa para vários passos. Eu vejo essa cobrança das mulheres com suas peles e a gente não quer isso, a gente quer que a Simple possa promover saúde, possa levar o bem para quem consome, sem a neurose de ser perfeita. Eu espero que em algum momento a gente possa sim ter todos os padrões de beleza aceitos, inclusive pele: pele real, com poros, com espinha. Acho que a gente tem que ser muito mais leve, muito mais feliz e não se cobrar a seguir esses padrões com que acabamos sendo bombardeados todos os dias pelas redes sociais e pelas mídias em geral.

EM: Que conselhos você daria para empreendedores que também querem criar suas mudanças por meio dos seus empreendimentos?

PL: Empreendedorismo acho que é uma coisa que faz parte do brasileiro. Eu amo isso e acho que quando falam que o Brasil é um pais muito criativo, eu concordo sim. É um terreno fértil para mil projetos, mil ideias, tem muita coisa para se fazer aqui. Agora, o que eu sugiro, quando você quer empreender, é estudar. Mas não precisa ter aquele estudo padrão, da universidade. Você tem que se capacitar, conversar, trocar ideia com vários outros empreendedores, porque isso te ajuda muito no processo. O melhor conselho que eu posso dar é olhar para o seu próprio caminho e não olhar o do lado, e querer fazer aquilo que o outro está fazendo. Você tem que seguir seus caminhos, seus instintos. Afinal se você tem certeza daquilo, ninguém precisa confiar em você se você confiar em você mesmo. Não precisamos da aprovação de ninguém, por mais difícil que isso seja. Você pode ter noção do que foi a decisão de fechar uma agência bem-sucedida de publicidade para montar uma marca de cosméticos orgânicos e veganos quatro anos atrás. Isso era um absurdo, ninguém entendia o que que eu estava fazendo. Mas eu tinha certeza dentro de mim. Não sabia como fazer, como eu ia realizar, mas foi assim, um dia após o outro, um passo depois do outro, a gente vai descobrindo. Errando mil vezes e acertando outras mil vezes a gente chega onde a gente quer mais cedo ou mais tarde. Então é isso, eu acho que inovar, seguir seu próprio caminho e ter a persistência é fundamental para quem quer empreender.

foto de capa reprodução

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