A Economia Circular surge como uma urgência para o meio ambiente e como uma oportunidade para novos modelos de negócio


Em meio a um intenso debate global sobre mudanças climáticas, padrões de consumo e a consciência de que os recursos do planeta são finitos, a necessidade da criação de movimentos que seguem esse fluxo fica cada vez mais urgente.

O modelo de Economia Circular surgiu nos anos 1970, mas ganhou proeminência apenas nos anos 1990. Para justificar essa urgência, a fundação Ellen MacArthur possui desde 2010 a missão de espalhar a economia circular pelo mundo. De acordo com o relatório publicado em 2016 intitulado: A Economia Têxtil: Redesenhando o Futuro da Moda, a cada segundo, o equivalente a um caminhão de lixo de têxteis é depositado em aterro ou queimado.

Se nada mudar, em 2050, a indústria da moda consumirá um quarto do orçamento mundial de carbono. Pesquisas recentes da fundação também indicam que, só no Reino Unido, a adoção do modelo poderia reduzir a emissão dos gases de efeito estufa em 7,4 bilhões de toneladas por ano ao evitar destinação de resíduos orgânicos para aterros sanitários.

Benefícios financeiros na adoção de um novo modo de pensar

Para além da questão ambiental, também há outras vantagens significativas para as indústrias. A Ellen MacArthur, a SUN e a McKinsey notaram que, ao adotar princípios da economia circular, a Europa poderia aproveitar a iminente revolução tecnológica para gerar um benefício líquido de € 1,8 trilhão até 2030 – valor superior ao atual caminho da economia linear em € 0,9 trilhão.

Além do crescimento do mercado de serviços que giram em torno do novo modelo de negóicos, como empresas de coleta e logística reversa; empresas atuando no mercado secundário de produtos com plataformas de vendas para prolongar a vida útil de peças na venda ou aluguel; ofertas associadas a conhecimento especializado em remanufatura de peças e componentes, e a reformas.

Pilares para adoção:

1 – Eliminar resíduos e poluição

Nada mais que preservar e aprimorar o capital natural controlando estoques finitos e equilibrando os fluxos de recursos renováveis das marcas. O primeiro passo para começar é a desmaterialização de produtos ou serviços. Quando há necessidade de recursos, o sistema circular seleciona-os com sensatez e, sempre que possível, escolhe tecnologias e processos que utilizam recursos renováveis ou que apresentam melhor desempenho.” (Ellen MacArthur).

Na moda, esse principio pode ser exemplificado por marcas que não possuem estoque e confeccionam peças por demanda e por quantidade limitada. Um exemplo dessa iniciativa é a marca de Porto Alegre de camisas chamada Sueka. Além de cada peça ser exclusiva e limitada, (punhos e colarinhos possuem acabamento feito a partir de tecidos que seriam descartados pela indústria, tornando cada peça única) a Sueka utiliza apenas algodão 100% orgânico e o processo de tingimento é totalmente natural.

Diagrama que mostra a economia circular em três princípios. (Reprodução/Ellen MaCarthur Foundation)

2 – Manter produtos e materiais em ciclos de uso

Otimizar o rendimento de recursos fazendo com que eles circulem em um alto nível de utilidade é outro pilar para o modelo de negócio. Isso significa projetar para a remanufatura, a renovação e a reciclagem para que os materiais continuem girando e contribuindo para a economia (falando em reciclagem fizemos essa matéria aqui sobre o painel da BEFW com soluções para a reciclagem no Brasil).

Empresas usam os menores circuitos internos possíveis para preservar mais energia e valores nos materiais e componentes, como por exemplo fazer uma manutenção ao invés da reciclagem. O upcycling é outro exemplo que se propõe a repensar o resíduo. Essa transformação é realizada a partir de materiais existentes, com o intuito de evitar novos desperdícios. Marcas brasileiras como Transmuta, Comas e Think Blue Jeans perpetuam o modelo em diferentes estéticas, preservando energia (veja a matéria com 5 marcas que repensaram seus pprodutos por maio da matéria-prima por aqui).

O compartilhamento de roupas e acessórios de moda pode ser novidade no Brasil, mas em países como os Estados Unidos, empresas pioneiras como Rent The Runway já tem o valor estimado em $1 bilhão de dólares. E, fazendo os recortes necessários sobre a questão de lavanderia e gasto de água, além de atender a demanda dos consumidores por soluções mais conscientes, esse modelo otimiza o uso dos produtos, prolongando a vida útil de peças.

Leia também: BEFW: o compartilhamento que te permite ganhar dinheiro com seu closet

Por fim, a reciclagem em si e o pensamento da logística reversa impactam em grandes cadeias como o exemplo da Renovar Têxtil e a ReCiclo. Por mês, a Renovar recebe cerca de 100 toneladas de retalhos vindos de toda a cadeia têxtil brasileira. O histórico da empresa já possui mais de 200 mil toneladas de resíduos sólidos que iam para os aterros sanitários, mas foram recolocados no mercado.

3 – Regenerar sistemas naturais

Para além da cadeia de beneficiamento é preciso voltar o olhar à produção e recursos naturais para quue a circularidade seja efetiva e perene. Assim como reduzir danos a sistemas e áreas como alimentação, mobilidade, habitação, educação, saúde e entretenimento.

Marcas de moda slow fashion, que possuem a preocupação com o meio ambiente desde o tecido utilizado para a confecção das peças, até em como ele chega ao consumidor, são um exemplo. A marca da designer Flavia Aranha cuida de perto de cada etapa do processo de desenvolvimento das peças. Além das ações individuais do mercado, camapnhas como Fashion Revolution incentivam a educação para uma economia mais equilibrada e rebalancemento de um mercado exploratório.

A redefinicação do pensamento linear até pouco tempo hegemônico no mercado é um processo. É importante que a economia funcione em qualquer escala – para grandes e pequenos negócios, para organizações e indivíduos, global e localmente. A transição da economia linear para a economia circular deve apresentar uma mudança sistêmica para construir resiliência em longo-prazo, gerar oportunidades econômicas e de negócios, e proporcionar benefícios ambientais e sociais.

Foto de capa: reprodução  Fabrice Monteiro

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