5 marcas que reinventam seus conceitos a partir da matéria-prima


Upcycling não chega a ser um conceito novo no dicionário daqueles que leem sobre moda. Não é preciso ir muito a fundo, nem ser expert para se deparar com a terminologia em blogs, revistas e sites – em especial em 2019. Da transformação do resíduo em produtos de valor agregado o mercado está repleto, mas hoje, separamos 5 marcas que, dentro do nosso conceito, elevam a produção a partir do descartável de uma maneira mais especial em termos de conceito e finalização. 

1. Comas (@comas_sp)

Talvez o maior desafio do upcycling de roupas seja criar uma estética coerente com uma modelagem impecável. Há minhões de marcas que se apropriam de retalhos, vintage e descarte da indústria. Mas, trabalhar o posicionamento e estética permanecem um desafio. Afinal, falar de moda é falar de apelo de compra e oferecer oportunidades de estilo – além daquele com cara de vintage. 

Talvez ao escolher elementos da alfaiataria como fundação principal do seu trabalho que Augustina Comas tenha acertado nessa de falar contemporaneamente. Com o lema “a sobra nos inspira”, desde 2015 a marca Comas recupera o resíduo da indústria de camisaria masculina, que é descartado apenas pelo controle de qualidade em finalização. “Fiquei paralisada quando comecei a pensar em todo o lixo gerado e no estrago que isso poderia causar”, diz Augustina no site da marca. “Este é um problema real que, se bem administrado, pode se reverter em recursos para muita gente. Como numa relação de simbiose, em que a indústria pequena estabelece um vínculo com a grande e todos se beneficiam”.

foto reprodução/ @comas_sp para Marie Claire (foto: Tauana Sofia)
foto reprodução/ @comas_sp para Marie Claire (foto: Tauana Sofia)

Jum Nakao está no currículo, inclusive quando a designer teve a chance de participar do desenvolvimento da icônica coleção “A Costura do Invisível”, de 2004 – e muito disso pode refletir nos acabamentos e modelagens impecáveis. 

O galpão de produção hoje fica instalado na zona oeste de São Paulo; é possível comprar sua peça por lá, pelo site ou ainda em pontos de venda espalhados pelo Uruguai, Argentina e França. 

2, Transmuta (@transmutaoficial)

E se upcycling não é novidade, a Transmuta em nossas matérias também não. Um dos trabalhos mais refinados da capital paranaense, cria peças de luxo por meio do que os sócios, Lucas Bettin e Yamsin Lapolli, chamam de alquimia têxtil. 

Aqui, a base são resíduos têxteis, não necessariamente roupas. Recentemente, durante um evento de moda em Curitiba, a dupla apresentou uma coleção desenvolvida a partir de barracas de camping inutilizadas. Além das modelagens bem acertadas, as peças experimentais instigam uma abordagem de moda mais criativa. Junto às peças finais, Lucas e Yamsin decidiram taguear os produtos originais somados às horas dedicadas de produção, numa metodologia de transparência e educação do consumidor. 

“O design da marca chama atenção pelo experimentalismo e apelo comercial das peças e é muito interessante quando as pessoas descobrem que nossas peças vieram de outras roupas”, comentam na nossa entrevista sobre o prêmio Moda Autoral (leia aqui). Visando ser uma opção ao público consumidor, a Transmuta se preocupa com a viabilização comercial das peças, mesmo com todo o conceito e experimentalismo. 

foto reprodução/ @transmutaoficial (foto: Vitor Augusto)
foto reprodução/ @transmutaoficial (foto: Vitor Augusto)

“Nosso trabalho é sobre ‘presentificar’ um futuro onde a saúde do planeta está em primeiro lugar. Ele se conecta com uma necessidade presente na consciência de qualquer pessoa”, revelam. 

A Transmuta hoje produz na cidade de Curitiba e as peças estão disponíveis na community store Coletiza (leia mais), também na mesma cidade, ou pelo e-commerce.

3. I Do Design (@idodsgn)

Da vontade de trabalhar em uma produção manual somada à angústia do reservatório crescente de sacolas plásticas em casa, foi que Anna Boechat iniciou o desenvolvimento da, mais que neomarca, I Do Design. Acessórios provenientes dessas mesmas sacolas recicladas buscam, pela estética, criar uma conexão com o público, ao mesmo tempo em que encontra propósito em sua existência. 

“Acredito que quanto mais informados estamos sobre o impacto direto dos nossos descartes diários, mais conscientes ficamos em relação ao nosso consumo. E, por isso, a percepção de que a matéria prima pode vir daquilo que seria lixo, aos poucos deixa de ser vista com preconceito para ser vista como solução”, revela ao even More.

O ideal da marca, que surgiu ainda na metade deste mês, é poder desenvolver os produtos por meio de materiais 100% reciclados, porém, a prática das pesquisas demanda alguma adaptação. “Ainda estou em um processo contínuo de pesquisa e testes, mas por ainda não ter chegado lá, acabei optando por introduzir a resina epóxi no processo, o que traz a ‘qualidade’ que eu desejava. Por acreditar que sustentabilidade deve ser uma forma de pensar e viver  como um todo, e não apenas o discurso do produto que chega até o consumidor, eu reutilizo copos plásticos PP que são descartados”, explica. 

foto reprodução/ @idodsgn
foto reprodução/ @idodsgn

Cerca de dois anos de pesquisa, e a descoberta da plataforma holandesa de open source Precious Plastic, foram fundamentais para que os resultados que unem novas superfícies plásticas e resíduos gráficos. Os produtos trabalham bem com calor + pressão – que é a formula utilizada para a reciclagem de plásticos PEAD (aqueles de sacola de mercado).

Hoje a marca possui apenas Instagram e as vendas dos produtos são feitos via Direct. 

4. Jéssica Debortolo (@jessica.debortolo

Num caminho contrário ao de aproveitar os resíduos criados pela indústria, os acessórios da londrinense Jéssica Debortolo evitam a geração do lixo por meio de uma curadoria natural do que poderia ser considerado resíduo da natureza.

As premissas são reutilizar, ressignificar e evoluir. Os trabalhos da marca, especialmente da linha líquen, reinterpetram o processo de desenvolvimento simbiótico da natureza para criar adornos contemporâneos e exclusivos. 

As linhas orgânicas congeladas no tempo pelo trabalho da designer se complementam com a geometria de outros acessórios feitos em madeira de descarte. Com a criação da forma prisma e retangular em especial; Jéssica cocria com as texturas e cores fruto daquilo que já estava ali pra ser (re)utilizado. 

foto reprodução/ @jessica.debortolo
foto reprodução/ @jessica.debortolo (foto: Allan Rolim)

A marca tem sua produção em um atelier em Londrina-PR, mas também pode ser encontrada em pontos de venda em Curitiba e São Paulo. 

5. Calma (@calmasaopaulo)

Para finalizar nossas indicações, a quinta e última marca que sugerimos é a Calma. Em plena Vila Madalena -SP, roupas são pensadas e feitas em um ritmo avesso ao da cidade, mas necessário para serem únicas.

Fruto da inquietude de Kelly Kim Gingold, a marca nasce como uma destinação mais apropriada a coleção de lenços. Viciada em estampas e dona de um acervo garimpado por anos, Kelly desenvolveu uma modelagem para aplicar em jaquetas bomber as estampas que mais amava – e não aguentava mais usar com amarrações pelo corpo. 

foto reprodução/ @calmasaopaulo (Foto: Larissa Kreili)
foto reprodução/ @calmasaopaulo

Pensar oportunidades de reintroduzir peças no mercado foi o ponto de partida para hoje, a Calma, ter coleções também de conjuntos – não necessariamente feitos pelo método upcycling como as jaquetas de lenço, mas todos nas estampas vibrantes que refletem o estilo da criadora. 

O atelier recebe visitas com horário marcado e as peças podem ser adquiridas também pelo e-commerce.

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